Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Decompõe-te Em Paz



Quando alguém morre é costume desejar-se que descanse em paz. Quando eu morrer não quero descansar em paz. Quero que peguem no meu cadáver e o mandem para a guerra.

Ou que me levem a uma festa como no filme "Fim de semana com o morto". Dizem que a morte aumenta, e muito, a nossa resistência ao álcool.

Descansar em paz é para os vivos. Os mortos não descansam. Decompõem-se. Mas ninguém ia desejar a alguém que morreu que seguisse um processo de decomposição como era suposto.

"Que as larvas te devorem ordenadamente e de acordo com o curso natural e que permita uma retransformação orgânica do teu cadáver" - má frase para uma lápide, já que pode eventualmente afastar as próprias larvas que, como é sabido, gostam pouco que se refiram à função delas na Terra de um modo tão literal.

Quando ouço a expressão "Rest In Peace", imagino um morto que quer descansar em paz depois de uma vida agitada e não pode porque os outros ressonam demasiado alto ou porque os vizinhos estão a fazer amor de forma muito ruidosa na campa ao lado ou porque é dia de Todos os Santos e há um movimento anormal no cemitério ou porque alguém está a fazer rituais de magia negra que implicam o sacrifício de suínos.

Apesar deste absurdo, associa-se tanto a expressão “Descansa em Paz” e RIP a mortos que é muito estranho se o dissermos a alguém que esteja vivo. Mesmo que tenhamos motivo. Nunca cai bem se dissermos “Descansa em Paz” a um alpinista que acabou de escalar o Evereste e está desejoso de dormir numa cama decente. O mais provável é passarmos por assassinos psicopatas que o queremos assassinar enquanto ele dorme. É, de facto, muito assustador.

É engraçado que as mesmas pessoas que desejam que os mortos "descansem em paz" dizem sobre o falecido que "ele vai ficar lá em cima a olhar por eles". Que hipocrisia. Se desejamos que o desgraçado descanse em paz não podemos logo tratar de lhe arranjar uma ocupação, ainda o corpo dele não teve tempo de arrefecer. Se puder escolher uma ocupação quando morrer, quero ser jogador de futebol ou médico (algo me diz que é uma profissão com muito tempo livre por aqueles lados). Se nunca esteve nas minhas opções ser vigia, segurança ou guarda-costas de quem quer que seja, não ia escolher fazê-lo por toda a eternidade. Desliguem o gás, olhem para os dois lados antes de atravessar a rua e tentem não se cruzar com serial killers ou com o Duarte Lima é o conselho que daria a todos os que estão cá em baixo. Deixem lá os mortos apreciar a eternidade como bem entenderem.

Há quem acredite na reencarnação. E essas pessoas deveriam ser as últimas a desejar que o moribundo descanse em paz. Deviam desejar, por exemplo: "Não reencarnes como um insecto, uma minhoca, um papa formigas, uma doninha, uma bactéria ou um Durão Barroso". É uma frase grande demais para escrever numa lápide, mas, pelo menos, é um desejo mais sincero de felicidade futura do que um frio e distante "Descansa em Paz".

Outras pessoas acreditam que os mortos se vão juntar aos seus entes queridos e que vão ser recompensados com uma feliz eternidade por todo o bem que fizeram enquanto estiveram na Terra. E mesmo esses choram quando alguém de quem gostam morre. Das duas uma, ou acham que essa pessoa não foi boa o suficiente e está condenada ao sofrimento eterno ou não acreditam mesmo na vida depois da morte. Se eu acreditasse na vida depois da morte seria o primeiro a desejar a morte a toda gente de que gosto e a mim próprio.

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