segunda-feira, 28 de julho de 2008

Ga(y)to *


Um indivíduo, chamado José Correia e conhecido como Zé Pistoleiro, mandou um tiro a uma vizinha. Uma história perfeitamente normal não fosse o Zé Pistoleiro estar a tentar acertar no seu vizinho homossexual, por achar que este teria tido contactos sexuais com o gato, tornando-o homossexual. É uma história preocupante, para não dizer alarmante e que nos faz questionar toda a nossa existência. Primeiro, como é que dão a alcunha de “Zé Pistoleiro” a um tipo destes? É como chamar Zé Macho ao José Castelo Branco, a Gostosona à Manuela Ferreira Leite ou Animal Vertebrado ao Valentim Loureiro. É de esperar que um tipo chamado Zé Pistoleiro acerte no homossexual que sodomizou o seu gato e não na vizinha, que não tem nada a ver com o assunto…


Segundo, revolta-me que esta história esteja a ser encarada pelos meios de comunicação social como ridícula e insólita. Acho que devíamos fazer justiça ao Zé Pistoleiro que, apesar de estar longe de ser um Lucky Luke, é um exemplo para todos nós. Este homem foi preso por defender a honra do seu gato, logo a sua honra: “Antes ser preso do que permitir que um homossexual toque no meu gato”. Fez, pelo gato, algo que muitos não fariam por um filho e isso é de elogiar. Isto para não falar no incómodo que seria, para um homem, peço desculpa, um Homem, do calibre do Zé Pistoleiro ter que levar com olhares lascivos e provocantes de um gato homossexual, que se bamboleia pela casa, cheio de plumas e lantejoulas e o observa no banho, enquanto solta uns estridentes: “Ai fiiiiilha, fico loooouca com esses peitoraiiiis!” (não que eu saiba que os homossexuais costumem dizer isto, foi o que um amigo de um amigo meu que já viu um homossexual me disse). Seria, como devem compreender, insuportável. Eu não aguentava, vocês aguentavam? Ainda para mais, quando é perfeitamente possível que, como Homem que é, o Zé Pistoleiro goste de beber uns copos… E como é que um Homem como Zé Pistoleiro consegue apanhar as suas bebedeiras à vontade quando sabe que tem, em casa, um homossexual à espreita para o tentar apanhar num momento de vulnerabilidade. Os homossexuais, tal como os gatos são matreiros (também foi o tal amigo de um amigo meu que me disse) e, este para além de homossexual é um gato, o que faz com que duplique o seu nível de matreiricidade.


É normal que Zé Pistoleiro defenda a honra do seu gato. Todos os homens querem ter um gato macho, com quem possam ir tomar uns copos e falar sobre gajas. Ninguém quer ter um gato que passe a vida a decorar-nos a casa, que seja especialista em cuisine française e que esteja sempre às compras com a mulher… Não há carteira que aguente… Zé Pistoleiro, estou contigo, mas inscreve-te em aulas de tiro!


* Repararam que ao colocar y entre parêntesis no meio da palavra Gato dei um duplo sentido à mesma? É um Gato, que é gay, logo "Ga(y)to"... Acho que podia ganhar a vida a fazer títulos para o 24 horas...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Salazar / Diogo Morgado



Li na visão que Diogo Morgado foi escolhido para fazer o papel de Salazar na mini-série/filme “A Vida Privada de Salazar”. Isto dito assim não quer dizer nada. OK! Já era altura de, também nós, vendermos o nosso ditadorzeco e, na opinião de muitos, o maior português de todos os tempos. Os alemães fizeram-no de maneira soberba em “A Queda” e os americanos na pessoa de Oliver Stone estão prestes a fazê-lo através do filme “W”. Já era altura de nós, portugueses, fazermos algo do género. Mas pensando em Diogo Morgado o que é que nos vem à cabeça? É um modelo, que ganhou notoriedade aos 22 anos quando fez de uma espécie de Lolita masculina de 15 que se apaixonava por Ana Padrão, que recentemente tem entrado nos Malucos do Riso… Pensamos em muita coisa, menos em Salazar…

Quando me falaram sobre esta série sobre Salazar, pensei sempre em algo que nos passasse a imagem decrépita de um merceeiro, que o destino colocou à frente de um país, que nunca saiu de Portugal, que tinha uma relação erótica dúbia com uma governanta, possivelmente para disfarçar a sua homossexualidade, que nunca trocou de botas… Imaginava uma série um pouco menos interessante do que uma série de documentários sobre a reprodução de moluscos bivalves… No entanto, eis que tudo muda… O Diogo Morgado vai fazer de Salazar? Veio-me logo à cabeça uma série tipo “Morangos com Açúcar” (da qual sou grande fã), cheia de glamour, que transforma o tiranozito num galã, uma espécie de Johnny Depp, mas mais cool, com uma governanta igual à Soraia Chaves e que vai tomar uns copos com o seu amigo e confidente Cardeal Cerejeira (interpretado por aquele miúdo que fazia de Rodas nos Morangos com Açúcar), onde falam de gajas, de doenças venéreas, de “amandar” umas bombas paraa Guiné, da última freira que o Cerejeira engravidou e da voz de velha de Salazar que, indiscutivelmente, lhe permite engatar imensas gajas…

Isto foi a minha primeira ideia… No entanto acho que a meia dúzia de intelectuais de direita e de figuras do clero que se insurge contra este tipo de coisas no nosso país iria insurgir-se ainda mais e, como todos sabemos, ninguém quer que eles se insurjam, porque se eles se insurgem vão-se embora e depois quem é que nós vamos gozar? Por isso acho que a escolha de um actor bonito para o papel de Salazar (um homem que em termos de beleza está entre o escaravelho e o jacaré) representa uma grande oportunidade de recriar o verdadeiro e incompreendido herói português. Um pouco à imagem de Vasco da Gama n’”Os Lusíadas”. Um herói que as crianças vão querer seguir e acerca do qual os intelectuais de direita vão ter sonhos húmidos.

Imagino um Salazar a enfrentar a sua grande némesis Álvaro Cunhal (interpretado pelo tipo que faz de Tonecas) numa luta corpo a corpo, da qual sai vencedor inquestionável, livrando o país da terrível ameaça vermelha que, qual destino cruel, irá regressar (“Hás-de voltar a ouvir falar de mim” dirá o Álvaro Cunhal/Luís Aleluia humilhado pela derrota, em jeito de despedida como qualquer vilão da banda-desenhada) e Salazar, qual herói piedoso, poupa-o a uma morte cruel, ignorando que estará assim a encaminhar Portugal para esse fatídico e inevitável destino: o 25 de Abril. Tal como todas as grandes tragédias, também a história da nossa nação está constantemente sob uma ameaça que a impede de seguir o grandioso caminho que a espera, no tempo de Salazar era o Comunismo, hoje é o défice…

Imagino as juras de amor impossível entre Salazar/Diogo Morgado e a sua bela governanta (Soraia Chaves), que recusando-se a pôr a sua felicidade pessoal à frente do bem comum e do destino do nosso império, faz o derradeiro sacrifício de um herói, que abdica do amor terreno em prol da glória universal. Sem abdicar de a ter ao seu lado como sua governanta (alguém tinha que tratar das peúgas do nosso ditador, não? Salvar o Mundo não é compatível com este tipo de tarefas mundanas…) e de umas tórridas noites de amor, para captar um público mais ávido por esse tipo de cenas (apesar da sua áurea de imortalidade, o nosso herói não deixa de ser um Homem como todos nós… e ter a Soraia Chaves ali ao lado e não fazer nada… enfim… vocês sabem…).

Imagino um sábio Almirante Américo Thomaz (interpretado por Camilo de Oliveira ou por Guilherme Leite) a acalmar um inquieto Salazar perante a ameaça do facínora General Humberto Delgado (interpretado por Luciana Abreu) que promete retirar o império português da sua rota gloriosa em direcção à glória Mundial. “Nós venceremos esse patife” dirá Américo Thomaz, “o povo está connosco!”. Permitindo a todos os portugueses conhecer a verdade por detrás dessa eleição: “Sim, nós tivemos umas eleições tão democráticas como as inglesas… e ganhámos!” dirá um Diogo Morgado/Salazar emocionado com a vitória ao som de uma música do Vangelis.

Imagino um herói irascível e incompreendido que, perante as atrocidades cometidas pelos terroristas das frentes de libertação das colónias, resolve libertar o povo ultramarino dessa ameaça, em prol de um império português unido, forte e maior do que a Europa.

Imagino um Salazar embevecido e emocionado numa parada da Mocidade Portuguesa perante o auspicioso futuro de uma grande nação, enquanto pega ao colo numa criança que lhe oferece uma flor e lhe agradece por tudo o que fez por ela, metáfora de um país inocente, puro e leal que reconhece o seu grandioso líder como a única pessoa capaz de fazer cumprir o destino que ele merece.

Imagino, no final, um mesquinho e desprezível Spínola (interpretado por um inspirado José Raposo) a sabotar a fatídica cadeira de Salazar, qual calcanhar de Aquiles, deitando por terra os portentosos desígnios de uma grande nação, daí para a frente entregue à escumalha sem valores que tantas vezes o nosso herói derrotou. A única maneira de parar os grandes heróis é a traição e as suas mortes inglórias são apenas o reflexo da evidência da sua invencibilidade.

Paulo Portas, Jaime Nogueira Pinto e Mário Machado ficariam muito orgulhosos deste relato da vida do nosso ditador de meia tigela. Afinal, se este vai ser interpretado por um galã, também a sua história merece mais glamour do que a sua história verdadeira, a de um velho decrépito, homossexual latente, com aspirações a merceeiro... Além disso, se optarem por este caminho, terei muito que escrever no blog, o que tem sido muito difícil…

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Será que Hugo Chavez andou a ler este blog?

É que a sua Igreja Católica Reformada faz-me lembrar um certo post...
Hugo, se realmente tiraste esta ideia do blog, exijo-te, no mínimo, o cargo de Cardeal e uns quantos barris de petróleo... Isto de arranjar emprego está-me a dar a volta à cabeça de tal maneira que até a hipótese do clero está em cima da mesa... Pensando melhor, podes esquecer o cargo de Cardeal, não estou tão desesperado!

(Repararam como eu, subtilmente, reciclei um post antigo para compensar a falta de tempo para actualizar o blog?)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Amy Waxhouse

(lá vou eu bater outra vez na Amy mas, como não tenho mais nada para escrever, tem que ser)

Amy Winehouse vai ter a sua estátua de cera no Madame Tussauds, em Londres... Podiam esperar mais um mês ou dois e, em vez de ter uma Amy Winehouse de cera, tinham a Amy Winehouse embalsamada...

(mais uma à la Carlos Borrego...)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Mugabe e os aspiradores


Mugabe é um tirano, Mugabe massacra o seu próprio povo, Mugabe é responsável pela situação económica desastrosa daquele que foi em tempos considerado o “celeiro de África”… Tudo isto são factos! Mas também é um facto que Mugabe sabe fazer uma campanha eleitoral eficiente.

A sua principal mensagem é simples, directa e eficiente: “Ou votas em mim ou morres!”.

Não imagino motivo mais convincente para se votar em alguém do que este. Acho que, perante isto, poucos são os que se arriscam não votar em Mugabe. É que, ainda por cima, o homem cumpre as suas promessas! Não é cá como os nossos políticos… Se o Sócrates me viesse com este argumento eu apenas respondia: “Pois, pois… tal como baixaste os impostos…”.

Imaginemos a seguinte conversa entre os responsáveis da campanha de Mugabe:

- Então que mensagem é que queremos passar?

- E que tal: “Vota Mugabe! Criaremos 150 000 novos empregos!”

- Ah! Ah! Com esse argumento só estaríamos a fazer o nosso líder passar por mentiroso… Nós queremos passar a imagem de que Mugabe é credível…

- Pois… E que tal se passássemos a mensagem de que vamos baixar a inflação? Não é difícil… Se baixássemos de 1.000.000 % para 999.999 % já estaríamos a fazer qualquer coisinha…

- Mas tu és maluco? Não vamos dar falsas esperanças às pessoas… Temos que lhes dar algo em que elas se possam acreditar, temos que lhes provocar emoções fortes, temos que lhes fazer sentir que têm obrigatoriamente que votar em Mugabe… Temos que criar o nosso próprio “Yes, we can!”…

- Pois… E que tal “Vota Mugabe! Mugabe não é canibal”?

- É uma boa ideia… Mas não vamos mentir às pessoas…

- Espera aí! Tive uma ideia! E que tal: “Vota Mugabe, senão morres!”. Não é impossível de cumprir, é uma mensagem simples e vai fazer-nos ganhar muitos votos… De facto, apelarmos ao instinto básico de sobrevivência das pessoas elas não têm outra hipótese… A vitória é garantida!

- Porreiro, pá!


De facto usar a morte para vender produtos é imbatível. Eu quero lá saber dos 150.000 empregos, eu quero é que me deixem viver!

O engraçado é que este tipo de tácticas também é aplicável no campo não político. A Nike podia fazer o anúncio mais espectacular do Mundo, se a Adidas nos dissesse que morríamos se não comprássemos os seus produtos não tínhamos hipótese…

Imaginem os seguintes slogans e vejam se não vos faziam ir correr para o supermercado:

“Se queres viver usa Pasta Medicinal Couto”

“Compra Bacalhau Pascoal ou levas um tiro nos cornos”

“Salsichas Nobre: se não as comeres… Morres!”

“Vodafone: se não usares os nossos telemóveis, bem que podes ir ver se apanhas rede debaixo da terra…”

“Se não quer que o seu bebé conheça o Criador antes de começar a andar, compre-lhe fraldas Dodot… Já!”

“Coca-cola: E se o menino quer continuar a viver, tem de beber este copo até ao fim… e vai acima e vai abaixo e vai ao centro…”

“Brise: Gostas de respirar, não gostas?”

“Mercedes: Ou compras um ou és atropelado por um, agora escolhe…”

“Óleo de fígado de bacalhau: Aqui o que interessa não é se gostas ou não, é se queres viver ou não…”

“Evax: Sentes-te viva, sentes-te bem!”

“Super Bock: Não beber Super Bock mata!”


Bem, acho que já estou a exagerar um bocado… Já devem ter percebido a ideia… Contudo a sua eficiência não é um dado adquirido. Não basta insinuar, há que cumprir. Para isto funcionar teria que haver uma forte ideia de uma morte iminente. Não é como o tabaco em que as pessoas lêem que o tabaco mata e ainda se dão ao luxo de continuar a fumar: “Olha para mim a fumar, não morro, pois não? Ah! Ah! Ah! Lá vai mais um prego para o meu caixão...”. Se houvesse um sniper escondido a alvejar todos aqueles que sacassem do seu cigarrinho queria ver se continuavam a fumar… Acabava-se com esse flagelo do tabagismo... Acho que a essência da campanha de Mugabe está aí… É que se não votas nele, podes morrer mesmo… O único problema é que se votares, é muito provável que também acabes por morrer…

Para finalizar, devo admitir que, há bem pouco tempo, usaram este argumento comigo. Passo a contar a estória. Veio um senhor cá a casa fazer uma demonstração de uns aspiradores XPTO. Sem qualquer compromisso, até lhe estávamos a fazer um favor ao deixá-lo fazer a sua apresentação… Para nós foi perfeito, para além de ajudarmos o homem, não conseguíamos imaginar um programa mais fascinante do que passar duas horas a ouvir falar de aspiradores…

Fiquei espantado com a capacidade do objecto. Era, de facto, fantástico e fiquei a saber que o local onde habito é pouco diferente de uma pocilga e, também, que partilho a cama com uma civilização de ácaros (é incrível, os bichos conseguiram-me levar para a cama e nem “Amo-te” disseram… Nem sequer uma prendinha, nem um jantar à luz das velas… Nada! Senti-me um bocado violado…) Isto para a minha mãe foi um grande choque, mas não é o suficiente para desembolsar 2500 euros num aspirador… Ok! Está sujo, mas nem sequer se vê… Não basta isso para nos fazerem estoirar 2500 euros… Foi o argumento final do homem que quase nos convenceu a hipotecar a casa (a nossa imunda habitação) para adquirir a tal engenhoca. É que o senhor, com toda a naturalidade de quem invade a casa de um estranho, depois de discorrer durante duas horas sobre as qualidades de um aspirador, fez questão de nos dizer que ao optarmos por não comprar o dito aspirador, estávamos a correr risco de vida. Íamos acabar por ser vítimas de homicídio dos nossos amiguinhos microscópicos (não lhes chega meterem-se na nossa cama e no nosso sofá contra a nossa vontade, ainda querem matar-nos). Esteve quase, quase, quase a convencer-nos… Se ele se tivesse feito acompanhar de um ácaro armado de metralhadora era muito provável que o tivesse conseguido…

domingo, 22 de junho de 2008

Trabalhadores do Mundo, buzinai!


De todos os protestos com que o nosso primeiro-ministro tem sido presenteado o buzinão é o mais ridículo. Não é tão estúpido como apedrejar camiões mas é o mais ridículo.

Supostamente, quando protestamos pretendemos assinalar uma situação que nos é prejudicial com o objectivo de a mudar. Com o nosso protesto devemos mostrar o quanto isso nos afecta e fazer algo, de certo modo, proporcional: desde a imolação pelo fogo e a greve de fome até à manif, existe um denominador comum que é o auto-sacrifício, ninguém se imola pelo fogo ou anda aos berros, sujeito a condições climatéricas adversas e ao contacto com aquela malta irritante que vai às manifs, porque gosta. Fazem-no para mostrar o seu descontentamento face a determinada situação e para se poderem fazer ouvir.

Qual é a mensagem que o buzinão passa?

“Estou tão revoltado com a situação x que, de dentro do meu carro topo de gama, com ar condicionado enquanto ouço o novo CD da Mariza, vou buzinar e esperar que outros tipos tão preguiçosos e tão privilegiados como eu com a posse de um carro me acompanhem nesta sinfonia”. Qual é o objectivo disto? Furar os tímpanos ao Sócrates até este satisfazer as nossas exigências? Chatear um bocadinho? Acho que nem isto conseguem visto que o efeito final de um buzinão não é muito maior do que aquele provocado por alguém que se atrasou um bocadinho a passar um vermelho e é incomparável com o que se passa durante as horas de ponta. Qual é o objectivo de protestar da mesma maneira com que se festejam as vitórias de Portugal no Euro? Agora que Portugal foi eliminado, o único efeito de um buzinão vai ser fazer-nos pensar que fomos subitamente transportados para uma realidade paralela em que demos 7-0 à Alemanha…

Acho que está na natureza dos portugueses gostarem de buzinar, somos um povo buzinador, hábito esse que deve ter começado no tempo dos Descobrimentos, em que, depois de feitos como o dobrar do Cabo da Boa Esperança e a descoberta do caminho marítimo para a Índia e à falta de outros meios de comunicação, fazíamos o máximo de chinfrineira que conseguíssemos para dar a Boa Nova aos nossos compatriotas. O hábito manteve-se e hoje fartamo-nos de buzinar quer seja para protestar, quer seja para festejar, quer seja para insultar, quer seja para elogiar (qual é a mulher que durante um passeio nunca recebeu, como aprovação pelos seus atributos físicos, uma buzinadela de camião?).

É por isso que não me parece que o primeiro-ministro leve a sério as reivindicações daqueles que buzinam.

É a mesma coisa que, numa troca de argumentos, dar um peido com o intuito de complementar a nossa inépcia para a retórica e esperar ganhar a discussão. Quando muito ganhamos por falta de comparência, mas nunca é uma vitória a sério. Um amigo meu que é advogado usou esta táctica uma vez e a única coisa que conseguiu foi que evacuassem o tribunal. Obviamente que desistiu da sua carreira de advogado para se dedicar à política. Mas nem aí teve muito sucesso visto que consegiu trocar a flatulência por um tipo de argumentação ainda mais absurdo. Coitado do meu amigo Pedro Santana Lopes!

Quando Marx apelou à união dos trabalhadores jamais pensou que esta fosse sob a forma de um buzinão. Jamais pensou que os trabalhadores se juntassem nos seus poluidores, confortáveis e dispendiosos veículos para azucrinar a cabeça a quem os explora… Até porque se fossem mesmo explorados não teriam um carro. É que isto de buzinar não é nada democrático visto que deixa de fora todos aqueles que não têm hipóteses de ter um veículo calando, por exemplo, todos aqueles que vivem com o ordenado mínimou ou todos os que andam de transportes públicos, por opção ou por necessidade. Os comunistas chamar-lhe-iam um protesto burguês. Hoje em dia, em vez de uma ditadura do proletariado temos uma ditadura dos proprietários de veículos.

Que Deus me perdoe o que vou dizer (eu logo pago-lhe um copo… Além disso ele está-me a dever uma desde a derrota de Portugal…): O uso do buzinão vem legitimar o terrorismo como forma de protesto, quer porque é uma maneira menos irritante de fazer valer as nossas opiniões,quer porque é uma forma mais do que justa para lidar com os buzinadores.

sábado, 21 de junho de 2008

O Segredo


Já todos ouvimos falar do "Segredo". Aquele livrinho com um título obscuro e com um design obscuro, que apenas nos promete a felicidade eterna, obrigando-nos a desfolhá-lo e, em muitos casos, a comprá-lo. Eu não li o livro mas ouvi dizer que o Segredo é imaginar com muita força que queremos algo, bastando isso para o conseguirmos. Acho uma ideia fantástica! Eu não percebo porque não prestam mais atenção a estes autores. Sim, senhor. Eu acho mesmo que eles não têm a atenção que merecem. Acho que para além daqueles milhões de leitores que engolem entusiasticamente todas as patranhas que lhes impingem eles merecem muito mais, visto que este livro tem o potencial para mudar o Mundo!

Pode revolucionar, por exemplo, a ajuda humanitária. Em vez de comida e medicamentos, porque não distribuir a estas pessoas cópias do "Segredo"? São mais leves do que sacos de arroz e valem mais do que sacos de arroz. Ao lerem o "Segredo" as pessoas poderiam desejar os sacos de arroz que quisessem e desejar que as minas antipessoais desaparecessem que isso aconteceria. Penso que passado algum tempo o Darfur adquiriria um nível de desenvolvimento superior ao da Suécia. Será que ninguém, entre os milhões de pessoas que consumiram esta jóia da literatura, desejou isto? Será que as pessoas que lêm livros de auto-ajuda são egoístas? "Em vez de desejar o fim da pobreza, vou desejar uma marquise e um Fiat Punto". Se calhar o segredo era oferecer o "Segredo" às misses! Essas sim, são altruístas e estão genuinamente preocupadas com o Mundo só que, infelizmente, não sabem ler... Acho incrível a possibilidade de alguém ter na sua mão o Segredo para mudar o Mundo e torná-lo num sítio melhor e optar por umas férias em Benidorm... Se calhar é mesmo um mundo que não vale a pena mudar...

E tenho outra questão para o Sr. Segredo:

- Sr. Segredo, imaginemos que o Sr. A deseja um milhão de euros, um Lamborghini e uma amante sueca e o Sr. B deseja que o Sr. A não tenha um milhão de euros, um Lamborghini e uma amante sueca, quem ganha?

Se ficar tudo na mesma ganha o Sr. B (o invejoso), se não ficar tudo na mesma ganha o Sr. A (o ganancioso)... Como se resolve isto, Sr. Segredo? Como se faz essa opção pelos desejos de um em detrimento dos desejos de outro? Avaliam quem merece mais e quem merece menos?

E se eu desejar com muita força que se queimem todos os exemplares do Segredo? Como resolvem este dilema entre o desejo de uma pessoa e a vossa necessidade de enriquecer à custa da esperança e da ganância de milhões de pessoas?

Confesso que, perante esta auto-ajuda do "Segredo", preferiria a auto-ajuda de Severiano Alambique. Apesar de duvidosa, resultaria mais...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Últimas palavras

Alguém já se deve ter lembrado disto, mas pronto, aqui vai:

- Quais foram as últimas palavras do camionista atropelado em Alcanena?
- "Furar o protesto? Só por cima do meu cadáver!"

Um bocadinho de humor fácil quando não há tempo para mais...

terça-feira, 10 de junho de 2008

Dia da Raça

Hoje é um dia muito especial para todos os Portugueses. Como todos sabemos, hoje comemora-se o dia da raça! Milhares de crianças portuguesas saem à rua exultantes por este dia que, para muitas delas, é bem superior ao Natal. É o dia em que entoamos cânticos de glorificação à nossa raça como “A Portuguesa”, o “Malhão”, o “Allez, Portugal, allez!” e o “Menos ais”. É o dia em que lembramos comovidos os grandes feitos da nossa raça como a descoberta do Caminho marítimo para a Índia, a batalha de Aljubarrota, o pontapé de Marco, o 5-3 contra a Coreia e o 3-2 contra a Inglaterra. É o dia em que mandamos mensagens de telemóvel a todos os nossos amigos a desejar um feliz dia da raça e o dia em que as discotecas oferecem duas brancas a todos os que demonstrarem que são da raça.

Eu confesso que gosto muito do dia da Raça (principalmente quando este calha a uma terça ou a uma quinta) mas, sinceramente custa-me perceber, nos dias de hoje, que só a nossa raça tenha um dia para a comemorar. Gostava que também os caniches, os rottweilers, os Cockers Spaniel, os rafeiros pudessem comemorar também um dia da sua raça. É muito bonito isto das raças mas, neste país, parece que umas têm mais pedigree que outras.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Eu fui


“Eu fui”. Duas palavrinhas: um pronome e um verbo que, por si só, não significariam nada, a não ser como resposta a alguma pergunta. No entanto, antes de dizer que ontem estive no Rock in Rio, vocês já o perceberam, tal o poder deste slogan. Estive presente num dos dias “rock” do evento. Um dos únicos dias que dá algum sentido ao nome do festival, que, apesar de ter rock no nome, de rock tem muito pouco. Já para não falar do rio, outro aspecto do nome do evento que não percebo… não percebo o que querem dizer: Rio de Janeiro? Não me parece, isso é lá no Brasil… Rio Tejo? Um bocado longe e, ainda que fosse perto não faria sentido na mesma já que Rock in Rio significa Rock dentro do Rio. Implicava calçarmos todos as nossas barbatanas e vestir uns escafandros para assistir a uns concertos subaquáticos, o que até tinha piada, mas não é o caso… Rio de urina? Pronto, acho que sim… aí, o nome já começa a fazer sentido. Usar aquela consequência desagradável da concentração de dezenas de milhares de pessoas (que fazem xixi e cocó e vomitam… como os Nenucos) para dar o nome ao festival é muito audaz da parte da Organização! Não sei quem é que, da organização, achou que seria positivo baptizar o festival em honra das condições sanitárias do mesmo. Apesar de já sabermos que no final do primeiro dia do festival, vai serpentear pelo recinto um gigantesco rio de urina não é muito boa manobra publicitária… Rock in Rio!

Sei que é uma analogia estúpida, isto do nome e das condições sanitárias do festival, mas já tiveram a oportunidade de ir à casa de banho de um evento destes? Eu sei que ser homem é uma grande vantagem e, graças à nossa versatilidade anatómica, podemos alimentar o leito do Rio de urina de qualquer lado… E as raparigas? E os sólidos? Eu deixei de me sentir intimidado com filmes de terror, com idas ao cemitério à noite e com jantares com o Conde Drácula depois de ter entrado numa Toi toi. É, simplesmente, o cenário mais assustador que vi na minha vida. Um exíguo espaço de um metro quadrado, com luz suficiente apenas para nos deixar imaginar que tipo de resíduos estão à nossa volta. E, como se não bastasse, depois de se fazer o que se tem que fazer, surge uma questão: onde se lavam as mãos? Em lado nenhum! Acabámos de sair do sítio mais imundo do Universo e não temos onde lavar as mãos… E com a nossa falta de higiene podemos nós bem… Então e os outros? É inevitável pensar nas mãos de todos os milhares de pessoas que tenham entrado na Toi toi, nas mãos daquele bêbado que se empoleirou em nós durante o concerto de Moonspell, nas mãos da senhora que nos serviu a bifana, nas mãos da nossa namorada que acabámos de beijar… Apercebemo-nos que as Toi tois, devido à transmissão de germes, estão omnipresentes em todo o festival.

Agora que me apercebi que acabei de escrever mais de 1000 páginas sobre as casas de banho dos festivais, depois de escrever um post sobre flatulência no mundo das celebridades, começo a ter uma noção daquilo que me vai na cabeça, por isso vou parar por aqui e deixo o resto à vossa imaginação. Acho que já a espevitei bem… Tão cedo não vou ter mais conteúdos escatológicos neste blog! Prometo!

Relativamente ao festival em si é sempre uma experiência enriquecedora. Antes sequer de entrarmos no recinto somos revistados cerca de 5 vezes. Vão às nossas garrafas de água e tiram-lhes a tampa, o que é completamente estúpido! Se levamos garrafas de água na mochila é para o caso de termos sede. É normal que elas estejam fechadas! Vamos abri-las quando tivermos sede e a tampa é para as fecharmos quando não tivermos mais sede… É uma bela invenção, com alguns anos, mas ainda assim admirável! E o que é que os polícias fazem? Abrem-nas e deitam fora a tampa: passando-nos a mensagem de que ou as bebemos de penalty ou vamos andar com elas abertas até termos sede. E qual é o argumento para isto? “Ah, é para não atirar aos artistas”. Amigos, se eu quisesse fazer o que quer que fosse aos artistas tinha um recinto cheio de pedras à minha disposição (fiz questão de reparar nisto) e se eu fizesse mesmo questão de lhes atirar com garrafas de água fechadas eles vendiam-nas dentro do festival… OK, vendiam-nas por 2 euros o que nos causaria alguma hesitação no momento de as atirar à cabeça do baixista dos Machine Head mas a oportunidade está lá... Eu não os quero acusar de nada, longe de mim fazer juízos de valor sobre as pessoas da organização, mas será que nos tiram as garrafas para sermos obrigados a gastar 2 euros lá dentro? Mais uma vez não estou a acusar ninguém, só estou a levantar a questão…

Ainda antes de entrar no recinto somos bombardeados com publicidade. Dão-nos chiclets, porta-chaves, panfletos… Tudo material extremamente útil que acaba, invariavelmente, no chão! O que vai de encontro à mensagem social do Rock in Rio: “Ah! Temos que salvar o planeta e não sei quê porque senão fritamos todos…” (isto é uma citação do vídeo que a Gisele Bundchen gravou para o Rock in Rio que passava entre os concertos… Ora aí está uma boa ideia! Acho que a solução para salvar o ambiente seria oferecer uma Gisele Bundchen a todos os homens… Não imagino melhor incentivo! Quais benefícios fiscais para quem usa energias renováveis! A solução era ter uma Gisele Bundchen atrás de nós a avisar-nos sempre que precisamos de fechar a luz oua dizer-nos que tipo de embalagem colocamos no recipiente amarelo ou a impedir-nos de gastar tanto em aquecimento naquelas noites frias… É preciso é haver vontade política, porque se realmente quisessem salvar o Mundo era muito fácil…).

É então que entramos e percebemos que gastámos 53 euros não por causa dos concertos mas para entrar num espaço publicitário tridimensional. Acho que devia ser obrigatório colocarem a palavra “PUB” no canto inferior direito da nossa visão para podermos estar no Rock in Rio, tal é a invasão publicitária a que somos submetidos. O espaço abre às 15h para nos dar a oportunidade, a nós, que pagámos bilhete, de usufruir à vontade de toda a oferta publicitária disponível. E o incrível é que para usufruir da publicidade e recebermos os devidos brindes temos que passar meia hora em filas. É o Millenium que teve a ideia genial de oferecer Mohawks vermelhas (acho que fizeram um estudo de mercado em que descobriram que as pessoas têm uma maior preferência por bancos em que oferecem Mohawks vermelhas… será porque, com uma Mohawk vermelha, ficamos mais parecidos com o filho do Jardim Gonçalves?), é a Vodafone que tem uma pista de neve artificial em que temos que esperar meia hora para uma descida alucinante de 3 segundos numa bóia, é a zona da Toyota que tem o Nilton a dinamizar um jogo de tetris humano (o ponto alto da carreira de um humorista: dinamizar um jogo de tetris humano! Espero mesmo que tenham dado um carro ao homem…), é a Seguro Directo que dá umas bóias em forma de pato para o pessoal meter à cintura (será que é para não nos afogarmos no rio de urina? Pronto, chega de escatologia)… Concluindo, depois de uma hora na Cidade do Rock já parecemos um Pai Natal de brindes: peruca do Millenium, a bóia da Seguro Directo, t-shirt da LG, um carregamento industrial de pacotes de Trident, mochila da SIC, barrete de campino do Licor Beirão, sofá insuflável da Vodafone, lenço da CP (isto são tudo brindes verdadeiros, podia exagerar mas não o fiz… é escusado fazê-lo quando a realidade é exagerada que chegue…)… Enfim, transformamo-nos num painel publicitário ambulante! Perdemos a comodidade de quem não anda de peruca, sofá insuflável, bóia, etc. para nos tornarmos num outdoor publicitário! Um conceito genial! Nós achamos que estamos a ganhar brindes quando afinal estamos a vender-nos como painéis publicitários… Perdemos em comodidade aquilo que as marcas ganham em publicidade!

E sobre os concertos? Não há muito a dizer… Gostei muito de Machine Head! Da música que eles tocara durante hora e meia (pelo menos pareceu-me só uma música), que eles iam interrompendo de vez em quando para nos dizer quão fucking crazy e amazing nós éramos… E nós, orgulhosos, gritávamos por Portugal e dávamos sonoros “Yeahs” como se aquilo fosse o maior elogio que nos podiam dar, como se a Gisele Bundchen nos estivesse a dizer ao ouvido que nós éramos as pessoas mais sexys e com a melhor personalidade que ela conhece… É incrível como reagimos mais histericamente a um “fucking crazy” do vocalista dos Machine Head do que a um elogio da Gisele Bundchen. Seria engraçado responder a um elogio da Gisele Bundchen com um sonoro “Yeah!” na cara. Acho que ela ia gostar.

E porque diziam os Machine Head que nós somos malucos? Porque, de facto, somos malucos… Somos malucos ao ponto de, por livre e espontânea vontade, andarmos à porrada com completos desconhecidos (num ritual tremendamente homoerótico, diga-se de passagem...), correndo o risco de partir dentes, pernas, braços, só para apreciar a sua música… Os apreciadores de moshe dizem-me que essa é a melhor maneira de apreciar música pesada… Mas, é impressão minha ou passar duas horas à porrada, para além de ser uma excelente maneira de adquirir danos neuronais (ou neste caso, agravar os que já se têm), impede-nos de apreciar devidamente o espectáculo? A qualidade da música, a qualidade dos intérpretes, a mensagem passada… Estou a ser exagerado, eu próprio, depois de 15 minutos a ouvir Machine Head, já estava com vontade de partir tudo à minha volta! Acho que aquela música desliga-nos aquele interruptor no cérebro que impede que nos tornemos autênticos animais selvagens… Aquele que o Bruno Alves tem sempre desligado… O que não é mau de todo! Acho que se toda a gente fizesse moshe pelo menos uma vez por semana, este Mundo seria um lugar melhor! Temos muita raiva dentro de nós e qual a melhor maneira de libertá-la do que em desconhecidos? Assim não fazemos mal a quem nos rodeia… Acho que a solução para o problema do Médio Oriente passaria por aí… Moshes semanais…

Mas eu confesso: não sou homem, nem fucking crazy o suficiente para andar no moshe… Chamem-me cobarde, mas se conhecessem a minha história pessoal percebiam (mistério…).

Acho também piada ao facto de, num concerto, perdermos completamente a nossa identidade… Deixamos de ser o Manuel, o João ou o Alberto para sermos “o público”. E "o público" é capaz de tudo. Ou melhor, “o público” é capaz de fazer tudo o que o James Hetfield nos peça aos berros: desde cantar, gritar, gesticular furiosamente ou imolar-nos pelo fogo em nome de Alá… Enquanto somos “o público” somos capazes de tudo. E, para dizer a verdade, estar num concerto é o mais próximo que eu alguma vez estive de estar num comício do Partido Nacional Socialista… Não é que não goste, mas é poderosamente assustador… Sinto que estou rodeado de pessoas que gritariam “Morte aos Judeus” se o James mostrasse que ficaria relativamente bem impressionado se o fizessem…

Sempre preocupados com a conjuntura económica actual os Metallica cantaram “Give me fuel, give me fire, give me that wish I desire”, entrando na mente e expressando a vontade de milhares de portugueses e solidarizando-se com os nossos pescadores… Ficou-lhes bem! Até porque eu, para lhes fazer a vontade, “dei” 50 euros de fuel para os ir ver… Mas valeu a pena!

P. S. Para que ficou com a ideia que eu detestei o Rock in Rio desengane-se! Eu adorei, mesmo com a cena das casas de banho, da publicidade e da porrada… Usei este tom apenas para vos falar da minha experiência sem sair do espírito habitual deste blog! Foi um dia muito bem passado, na companhia de amigos e tive a oportunidade de ver uma das minhas bandas preferidas, a banda da minha adolescência: os Metallica! À terceira foi de vez! Finalmente consegui ir vê-los (a porcaria dos exames impediram-me das outras duas vezes) e foi memorável! Todos os artistas se aguentaram de pé e ganhei um belo barrete de campino para usar nos jogos da selecção! O que é que poderia querer mais? Ah e, a bem da justiça, até gosto de Machine Head! Não é a minha banda preferida, nem o meu género preferido, mas até são bons! E Apocalyptica e Moonspell estiveram muito, muito bem! Moonspell já esperava mas Apocalyptica é diferente de tudo o que eu já vi até agora. Quatro virtuosos do violoncelo e um baterista fazem maravilhas e mostraram-me que é possível fazer rock de todas as maneiras possíveis! O que é preciso é criatividade! O que consegui ver de Wray Gunn (visto que andava tão ocupado em compromissos publicitários distraí-me com as horas e não consegui estar lá desde o início...) foi também espectacular. O Paulo Furtado é o maior! E, apesar de sozinho ser também muito bom (Legendary Tiger Man) está muito bem acompanhado em Wray Gunn!

terça-feira, 3 de junho de 2008

Tal e qual como nós...




Nunca como agora a máxima de Andy Warhol fez tanto sentido. Numa altura em que vale tudo para conseguirmos os nossos 15 minutos de fama (gravando discos que ninguém ouve, sendo candidatos à liderança do PSD, sendo vizinhos de um serial killer, sendo serial killers, atravessando a ponte 25 de Abril usando apenas um chapéu de Napoleão e umas botas de salto alto enquanto gritamos “Parem de buzinar! Sou apenas um mensageiro do Deus da Água Posídon!”) as celebridades surgem-nos como uma espécie de divindades. Autênticos deuses que conseguiram eternizar os seus 15 minutos. São amadas, são admiradas, são perseguidas, são acusadas de pedofilia… São tudo menos humanas… Quantos de nós não ficariam embasbacados se nos cruzássemos amanhã com o Robert De Niro na fila para o autocarro? Quantos de nós não ficaríamos de boca aberta se víssemos a Angelina Jolie no Lidl a escolher o atum mais baratucho (para conseguir sustentar tantos filhos é normal que seja poupadinha...)? Quantos de nós não ficaríamos surpresos se estivéssemos presentes numa reunião com o Tom Cruise e com um grupo de marcianos a elaborar um plano para dominar o Mundo (eu, pelo menos, fiquei, não esperava isso do tipo do Top Gun...)? Quantos de nós não ficaríamos estupefactos se víssemos o Carlos Cruz numa casa de Elvas onde se fazem orgias com crianças?

É incrível o estatuto que as celebridades adquiriram! E, nomeadamente para nós, homens, as do sexo feminino. Autênticos ídolos da perfeição! Autênticas deusas! Figuras centrais das fantasias de milhares de homens por esse mundo fora. Tão inalcançáveis que as mulheres nem têm ciúmes… Quantos de vocês não fantasiaram com a Angelina Jolie? Quase todos! É inevitável! (No entanto garanto-vos que ela não é grande coisa na realidade. Não é aquilo que pintam. Vi-me obrigado a dispensá-la para o Brad Pitt que anda sempre a cheirar o meu caixote de lixo. Lá lhe deixei ficar com a Angelina, dei-lhe uma festa na cabeça e foi ele todo contente a abanar o rabo para a sua casota, como se tivesse conseguido uma grande coisa. O raio do bicho).

É por isso que quando Cameron Diaz e Eva Mendes se juntam para fazer concursos de gases ficamos completamente surpresos! Quem diria que elas eram companheiras de flatulência? Ou, numa linguagem mais moderna: "farting buddies" (gostaram deste estrangeirismo que inventei? Estão à vontade para usá-lo nos vossos jantares de família ou nos vossos encontros amorosos, situações mais propícias para este tipo de celebração acontecer)? Não conseguimos imaginá-las como humanas, muito menos como pessoas que se peidam à força toda, que empestam o ar com autênticas armas de destruição maciça gástricas, que libertam rajadas de metralhadora pelo ânus (é incrível a conotação bélica que eu dou aos traques!) e que, ainda por cima, se divertem com isso… E então, rapazes? Excitados? Ao fim ao cabo, elas são como nós… Tal e qual como nós...

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Força selecção!


De acordo com o calendário Maia o Mundo acabará algures em 2012... Isto só significa uma coisa: em princípio, só temos uma oportunidade para ganhar o Euro!

Força rapazes! Antes do cataclismo final dêem-nos essa alegria!

sábado, 31 de maio de 2008

Empreendorismo e criatividade num meio competitivo


Gosto muito de ver a Amy Winehouse a trabalhar. É uma pessoa extremamente competente na sua profissão de toxicodependente. De facto é muito raro encontrar bons profissionais nesta área mas, devido ao seu esforço, Amy atingiu um estatuto que é raro um toxicodependente conseguir atingir.

Geralmente, para conseguirem dinheiro para droga os toxicodependentes arrumam carros ou apontam seringas contaminadas com o HIV aos transeuntes. Reconheço que são métodos eficazes mas já começam a cansar. Embora estes métodos funcionem, ameaçar as pessoas (ainda que muitas vezes implicitamente) de que vão ter o seu carro riscado ou vão apanhar SIDA se não lhes financiarem o vício acaba por, a longo prazo, manchar a imagem dos toxicodependentes perante a sociedade e por estigmatizar uma classe que tanto tem lutado para se afirmar. Ao cantar umas musiquinhas para todos aqueles que lhe financiam a droga, Amy Winehouse afirma-se como uma toxicodependente empreendedora e consegue, muitas vezes, sacar mais dinheiro numa noite do que alguns drogados numa semana.

Embora a toxicodependência no showbiz não seja original (sim, esta é para ti, Tony Carreira!) e apesar de muitas vezes os espectáculos da Amy sejam tão agradáveis como ser ameaçado com uma seringa ou tão decadentes como ouvir o Quim Jecta, o drogado da minha rua, a cantar o fado e a fazer sapateado enquanto espuma da boca, é sempre bom, num país com tantos incompetentes como o nosso, ver alguém a desempenhar a sua função de forma tão exímia.

Ontem, dezenas de milhares de portugueses pagaram droga à Amy Winehouse. Tudo em nome de um Mundo melhor, é claro…

sexta-feira, 23 de maio de 2008

O grande líder



Interrompo esta minha longa ausência para falar sobre George W. Bush que, como sabemos, é conhecido pela sua imitação hiper realista de um chimpazé a guinchar depois de levar com um coco no meio da cabeça. No entanto há algo que muitos de nós desconhecemos sobre este senhor: ele é Presidente dos Estados Unidos da América (um país que fica no continente americano). É fácil esquecer este facto devido às suas grandes prestações como imitador de chimpazés que acabam por abafar todos os outros feitos deste senhor mas não é de Bush imitador, sobre o qual já tanto foi dito que vou falar (para quem se interessa por esta faceta de Bush recomendo a obra "Man or Monkey" do jornalista do New York Times John McStevenson). Vou falar sobre essa faceta mais obscura desta personalidade que é a sua faceta de Presidente.

Bush é Presidente de um país que está em guerra. Facto facilmente comprovado pela multiplicação de campos de refugiados em Beverly Hills, no Upper East Side de Manhattan e em Miami Beach. É um país que está em crise, que sofre muito com a guerra que está a atravessar e a quem são exigidos imensos sacrifícios. É um povo que está de parabéns pela sua coragem e pela maneira audaz com que enfrentam esta guerra. É comovente ver na televisão todos aqueles habitantes de Orange County, esfomeados, com as suas senhas de racionamento, a aguentar corajosamente nas filas, sobrevoadas por abutres que esperam que o primeiro deles caia inanimado. No entanto, é preciso fazer justiça ao seu líder! Todos estes esforços são mais fáceis quando se tem um líder corajoso, que é o primeiro a dar o exemplo e que se junta ao seu povo no tremendo sacrífico que lhes é pedido...

Pois é, aquele que tanto nos anima com a sua imitação de um chimpanzé enraivecido, juntou-se ao sofrimento do seu povo e fez o último dos sacrifícios: deixou de jogar golf!
Não consigo imaginar o sacrifício de alguém que passa 4 anos sem jogar golf... Fico comovido ao imaginar o orgulho daquele veterano da guerra do Iraque que perdeu as pernas e os braços e que apresenta lesões neuronais que o impedem de pronunciar 3 palavras seguidas ou o orgulho daqueles pais que perdiram os seus filhos gémeos perante este acto do seu Líder: "ele está a sofrer connosco" dizem eles com a lágrima nos olhos. Imagino o temor do povo do Iraque, esses facínoras, perante um inimigo que consegue abdicar desse bem tão precioso e imprescindível que é uma partidinha de golf semanal: "Se ele foi capaz de fazer isto nem imagino o que fará connosco!" grunhem eles enquanto disparam tiros de metralhadora para o ar.
Há quem diga que o esforço é exagerado (um grupo de veteranos fez uma manifestação há uma semana a pedir para Bush acabar com o seu sofrimento... "Nem nós sofremos tanto" gritavam eles do alto das suas cadeiras de rodas), há até quem diga que tudo isto é bluff (o que é mentira visto que não há qualquer registo de entrada no seu Country Club desde Março de 2003... o que comprova o estóico esforço deste homem abençoado pelas estrelas) mas ninguém pode negar que quando vir este homem a imitar um chimpanzé pigmeu vai vê-lo com outros olhos, vai vê-lo como um grande líder que imita de forma sublime um chimpanzé. Ganhou, definitivamente, o seu lugar no Olimpo dos Grandes Líderes!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Esmeralda Superstar


Achei curioso terem decidido doar as receitas do Jesus Cristo Superstar aos pais afectivos da menina Esmeralda. É inevitável estabelecer um paralelismo entre a história desta menina e a história de Jesus. Também em bebé, Jesus foi abandonado pelo seu pai biológico, o que levou a que tivesse que ser adoptado por um pai afectivo, S. José, que lhe deu todo o amor e lições de carpintaria que precisava. Tal como no caso Esmeralda, também o pai biológico de Jesus recorreu à justiça (neste caso a divina) para reaver a custódia do seu filho. Isto permite concluir que se a justiça portuguesa for tão eficiente como a divina só aos 33 anos é que Esmeralda se vai juntar ao seu pai biológico Baltasar... A principal diferença entre os dois casos é que no caso de Jesus não vemos nenhum psicólogo ou pedopsiquiatra a falar do trauma que vai ser para a criança se for retirada aos seus pais afectivos, para ir viver com alguém que não conhece de lado nenhum! É o problema da nossa justiça: ter 2 pesos e duas medidas. Se formos um Baltasar somos tratados de uma maneira, se formos Deus somos tratados de outra... Sonho com uma justiça em que independentemente de sermos Baltasar ou Deus somos tratados da mesma maneira! Ainda por cima a maneira como Deus decidiu recuperar a sua criança é bem mais cruel do que a maneira que Baltasar escolheu, que, apesar de morosa, não envolve nem cruzes, nem coroas de espinhos... Se já assim o pobre Baltasar é fustigado pela opinião pública da maneira que é, queria ver se ele decidisse crucificar a menina Esmeralda... Era crucificado...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Revolta




Se há coisa que eu abomino é hipocrisia. Ou se é má pessoa ou não se é. Não vamos estar aí com rodeios e fingir-nos boas pessoas para, depois, essencialmente sermos uns crápulas. Se isto for feito conscientemente, admito que até possa ter piada. Como jogo psicológico, como um meio para atingir um fim... Por isso, o que me irrita mesmo são aqueles crápulas que acham mesmo, do fundo do coração, que são boas pessoas. Mas no fundo são maus como as cobras: são uns hipócritas! Vivemos numa sociedade em que existem dois tipos de pessoas. Há os que, como eu, são assumidamente más pessoas (somos uma minoria, caros leitores) e há os que acham que são boas pessoas, os hipócritas, que fazem tudo para pensarem que são boas pessoas e que são do mais asqueroso que se pode ser.
Onde é que eu quero chegar? Ouve-se falar muito dos direitos dos animais. “Coitadinhos dos animais para aqui, coitadinhos dos animais para ali, não os vamos comer, vamos tratá-los como se fossem pessoas, porque eles têm sentimentos…”. Basta! Sim, senhor que os animais têm direitos, nomeadamente o de irem parar ao tacho, mas como é possível defender que se pare de fazer mal aos animais quando se substitui essas supostas atrocidades por outras ainda maiores?
Sim, esses hipócritas que andam para aí a dizer não às roupas de pele e ao foie gras são os mesmos que se banqueteiam com quantidades monstruosas de soja. Aí estão eles, todos lambuzados, com aquelas mãos sujas com sangue de soja a defender os animaizinhos. E a soja? Ninguém pensa na soja? Ninguém pensa nas condições em que a soja é transportada, por exemplo? Sem luz, sem espaço, sem miminhos, uma temperatura insuportável! Quando bebem o vosso leitinho de soja não pensam naquilo que ela teve que sofrer ao ser espremida a sangue frio? Quando barram as vossas tostinhas integrais com paté de soja não pensam, por um momento que seja, em todas as etapas por que este vegetal passou até chegar ao vosso frigorífico cheio de suminho de soja, bife de soja e, espantemo-nos, chocolate de soja?
O que fazem aos animais é uma atrocidade. Atrevo-me mesmo a dizer que, em alguns casos, é um genocídio (tenho a certeza que, hoje em dia é mais impressionante entrar num aviário do que em Auschwitz em 1944), mas não substituam uma atrocidade por outra… A soja não tem culpa nenhuma e caminhamos progressivamente para um ponto em que toda a nossa alimentação vai ser à base de soja... Só de pensar nisto até me dá vontade de chorar… Somos uns predadores e sempre fomos, não é por passarmos a comer soja que vamos deixar de ser. Antes pelo contrário! Passamos de predadores de outras espécies para predadores de soja... Façam a vossa escolha... Para predadores de soja! Já viram isto? Acho que mais baixo não poderíamos chegar...
Se, tal como eu, estão revoltados com isto juntem-se a mim na Liga Protectora da Soja. Para entrar só têm que me dar 50 000 € e pedir a 10 amigos vossos que paguem, igualmente 50 000 €. Sendo que cada um dos vossos amigos terá que arranjar mais 10 e por aí fora. Só assim conseguiremos salvar a soja, que tanto precisa de nós! Chamei-lhe operação Pirâmide! São pequenos gestos que fazem toda a diferença.


Já que estou numa de me revoltar aqui vai mais uma. De certeza que já ouviram falar da campanha do Pirilampo Mágico. Como é possível que não tenham ouvido falar? Já existe há 21 anos… Há 21 anos! Perceberam isto? Será que os nossos deficientes não aprendem? É aceitável passar 18 anos a fazer bolas de cotão colorido com olhos e com um rastilho ridículo, que nem dá luz nem faz o pirilampo rebentar… É normal, coitadinhos dos deficientes, com as suas limitações não seria de esperar muito mais… A partir de 18 anos começa a roçar o absurdo… Já tinham mais do que tempo de ter pensado numa coisa melhor, mesmo sendo lentinhos!
Todos os anos é a mesma coisa, lá vou eu comprar uma bola de pelo com olhos para ajudar os deficientes. Já tenho 20 no tablier do carro, o que é tão bonito que é inevitável que compre mais um… No entanto, o nosso carro já não tem espaço no tablier para tanto pirilampo e se um pirilampozinho pode parecer inofensivo, 21 pirilampozinhos dão tanta luz que é inevitável que acabemos por ter um acidente provocado por encandeamento. É que, como devem saber, os pirilampos dão luz! E lá vamos nós juntar-nos ao clube daqueles que fazem pirilampos mágicos, porque fomos encandeados pela merda dos 21 pirilampozinhos (pergunto-me se tudo isto não será uma conspiração para aumentar significativamente a mão-de-obra dos Pirilampos Mágicos… Qual seria o tarado que teria uma ideia destas? Fica a pergunta: que outra pessoa, para além de mim, se lembraria desta merda?). Ainda por cima aquilo nem é um pirilampo, nem , tão pouco, é mágico! Se aquilo fosse mágico o que é que vocês ainda estão a fazer com a vossa deficiência mental?
Ao menos, podiam tentar outra coisa! Em vez de uma bola de pelo com olhos, podiam fazer uma bola de pelos com olhos… e com nariz! Deixava de ser um pirilampo para passar a ser uma coisa igualmente parva mas diferente. Talvez um limpa-chaminés mágico... Se uma bola com pelos e com olhos passa por pirilampo, uma bola com pelos e com nariz passa bem por limpa-chaminés mágico... E se optarem por isto dos limpa-chaminés, escusam de se preocupar com as corzinhas porque, como um limpa-chaminés anda sempre cheio de fuligem, podiam ser todos pretos e o rastilho seria uma espécie de uma lâmpada de mineiro que eles utilizam para verem melhor na chaminé... Perceberam ou querem um desenho?
Meus amigos especiais, perante tanta falta de criatividade só vos pergunto uma coisa: é para isto que andamos a juntar as nossas tampas das garrafas de água? Façam por merecê-lo! Tenho dito.


PS: A primeira vez que publiquei os dois últimos posts, estes estavam cheios de erros... Como era 13 de Maio acredito que houvesse uma espécie de intervenção divina para me impedir de publicar isto. Percebo e só tenho que me aguentar à bronca... Peço imensa desculpa...

Aviso

Escrevo esta nota para justificar o post que está em cima. Toquei neste blog num tema que nunca tinha tocado e que é passível de incomodar muita gente (inclusivamente eu próprio): a deficiência.
Não há nada de engraçado na deficiência, nem nada que dê vontade de rir, antes pelo contrário...
Steve Merchant e Ricky Gervais que na sua série Extras (e mesmo em The Office) abordaram este tema, justificaram-se deste modo: disseram eles que não estavam a gozar com a deficiência, que é algo que não tem piada nenhuma, estavam a gozar connosco, com o embaraço de pessoas supostamente normais, com a sua dificuldade em lidar com estas questões e com a sua tendência de, muitas vezes, acabarem por vitimizá-los (o que, na minha opinião, é bem pior do que qualquer graçola). Isso sim, tem piada... A nossa estupidez tem piada. Um tipo de piada melancólica, característica da obra de Gervais e Merchant, mas ainda assim hilariante... Acho que é este tipo de humor que nos ajuda a abrir mentes, a lidar com os nossos medos e com as nossas próprias fraquezas... Ao fim ao cabo, a torna-nos pessoas melhores e, neste caso em particular, a tratar as pessoas com deficiência com a dignidade que merecem.
Sinto-me atingido por este tipo de humor porque sou um desses ditos "normais", já que o que escrevi incomodou-me tanto que senti necessidade de me justificar... Se ao menos fosse da Opus Dei teria resolvido o assunto com umas vergastadas nas costas mas, infelizmente, não sou...
É de louvar o sentido de humor de pessoas como o génio Stephen Hawking que não tem problemas em brincar com a sua própria situação, dando-nos a todos nós uma lição de moral e uma bofetada de luva branca por o vitimizarmos a ele e a todos os que, como ele estão numa condição que lhes impede de ter uma vida dita "normal, o que, jamais, deve ser impeditivo de serem tratados como qualquer um de nós. Pessoas assim são, sem dúvida e sem qualquer tipo de paternalismo, especiais!
Perdoem-me o moralismo mas não podia deixar de fazer este apontamento...

sábado, 10 de maio de 2008

A incrível saga de Celestino das moedas


O Celestino tinha uma loja da qual era único cliente. Todos os dias se levantava às 7 e 30 para trabalhar e procurava estar sempre bem arranjado e bem disposto para a sua clientela.

O Celestino vendia toda uma variedade de produtos que podem ser catalogados numa categoria: moedas de 5 cêntimos. O cliente chegava à loja com uma moeda de 5 cêntimos e comprava outra moeda de 5 cêntimos, quantas mais moedas de 5 cêntimos tivesse mais moedas de 5 cêntimos poderia comprar. Seguidamente Celestino vendia as moedas de 5 cêntimos que recebia a outra loja especializada em moedas de 5 cêntimos da qual também era proprietário. Tendo em conta o seu negócio seria de esperar que Celestino fosse o maior coleccionador de moedas de 5 cêntimos do Mundo, mas apenas possuía 3. A que ia usar como cliente, a que vendia na primeira loja e a que vendia na segunda loja.

O negócio corria-lhe de feição e já pensava num franchising, abrir mais meia dúzia de lojas até concretizar o seu objectivo de ter uma loja em cada capital de Distrito, incluindo Bragança. A sua utopia era chegar, um dia, às Honduras, o sítio no Mundo onde há uma maior procura de moedas de 5 cêntimos. No entanto, estragaram-lhe o esquema. Alguém abriu uma loja de 10 cêntimos. O coração de Celestino ficou destroçado, pela infelicidade de o seu negócio estar em risco e por um enfarte do miocárdio que o obrigou a 3 meses de internamento.

De facto, a loja de 10 cêntimos roubou toda a clientela de Celestino visto que esta não só trocava moedas de 10 cêntimos (mais douradas, vistosas e saborosas quando acompanhadas de um bom vinho tinto) como trocava moedas de 5 cêntimos, desde que juntas somassem os 10 cêntimos necessários para a loja aceitar fazer o negócio com o cliente em questão.

- Mas o que vou fazer agora? A minha vida está destroçada e está um péssimo tempo para a prática do Windsurf… - disse Celestino ao seu cão Jovalocskymsklov, que apesar de não ter respondido, deu a entender através do seu olhar e da sua irónica gargalhada que, para ele, o sentido metafísico da questão anulava toda as hipóteses viáveis de executar devidamente um salto mortal encarpado de uma falésia na praia de Peniche.

Celestino lembrou-se então que poderia processar o dono da loja de 10 cêntimos por se ter aproveitado de uma ideia que era sua, sem sequer se ter dado ao trabalho de lhe oferecer uma singela pancadinha no rabo. Recorreu então a um advogado, de seu nome Leonel Rascolnicão, que era conhecido por usar peruca em tribunal, por ter mandado um coice a um juiz quando este lhe pediu para, por favor, parar de lhe chupar o dedo grande do pé e por beber mais absinto que Fernando Pessoa nos seus dias bons. Dirigiu-se ao seu escritório que ficava logo ao dobrar da esquina, o que, devido a esta ainda não estar dobrada, lhe demorou cerca de 10 horas a fazer com a ajuda de 10 elefantes de carga.

Ao entrar no escritório de Leonel Rascolnicão, Celestino ficou agradavelmente surpreendido com a arrumação deste visto que tudo o que eram papéis e processos estavam organizados apenas numa única pilha, o que fazia com que apresentasse ligeiras semelhanças com o Empire State Building num dia de tempestade. No entanto, ao bater a porta Celestino fez ruir toda aquela pilha de documentos, o que levou a que tivessem que ser desencarcerados por cinco corporações de bombeiros voluntários de terras começadas pela letra V.

Foi só depois do desencarceramento e de 5 semanas de recobro num Spa de luxo em Estarreja que Celestino finalmente conseguiu reunir-se com o seu advogado.

- Boa tarde, senhor Dr.! – cumprimentou Celestino o seu advogado antes de levar com um ferro de engomar ligado no meio da cara.

- Isto é por ter derrubado a minha pilha de documentos! Agora vou ter que recomeçar tudo de novo, são 15 anos de trabalho!

- Sim, senhor. É merecido… - disse Celestino em falsete enquanto descolava o ferro da sua cara que parecia estar a derreter-se como cera de uma vela.

- Diga então o que é que o traz aqui, minha querida. – perguntou o advogado num tom mais simpático, sorrindo face aos esforços de Celestino que procurava retirar o ferro da sua cara sem danificar demasiado os seus belos e volumosos lábios.

- Eu queria processar uma loja…

- A IKEA? Esses bandidos venderam-me um armário de 20 euros e, neste momento, o orçamento da empresa de construção civil que contratei para o montarem já derrapou para os 100 milhões de euros! É uma vergonha, até porque queria construir um aeroporto no meu quintal e já não o vou poder fazer, vou ter que me limitar ao TGV entre a porta da minha cozinha e a latrina.

- Compreendo perfeitamente mas para já não quero processar a IKEA, quero processar a loja dos 10 cêntimos… não sei se ouviu falar…

- Claro que sim… Fiz lá um óptimo negócio no outro dia em que com 3 moedas de 2 cêntimos e 4 moedas de 1 cêntimo consegui uma moeda de 10 cêntimos… Fui todo contente para casa e obriguei a minha mulher a matar um cabrito para cozinhar ao jantar! Não é todos os dias que se fazem negócios destes! Pena foi que afinal aquilo não era um cabrito e levei uma carga de porrada de uma idosa, que era dona do caniche e que me deixou com este defeito na fala, que me impede de pronunciar correctamente o “h” mudo. Mas quer processá-los porquê?

- Porque roubaram-me a ideia.

- Isto está ganho, só tem que se deslocar à polícia para confessar o homicídio daquelas duas prostitutas e respectivas ovelhas em Ermesinde no ano passado…

- Mas eu nunca estive em Ermesinde…

- Não faz mal… É imprescindível fazê-lo se quiser ganhar o caso… As autoridades são muito mais tolerantes para quem confessa os crimes… Depois disso a questão da loja está no papo…

- OK! Sendo assim, vou fazê-lo… Sabe que tipo de pijama é que é mais aconselhável na prisão?

- Os meus clientes costumam preferir de flanela, mas não se esqueça da abertura para o rabo…

- Claro que não!

E foi assim que Celestino foi parar à prisão, onde tem um legítimo negócio de troca de peúgas, do qual é o único cliente…

Basta! Não me apetece continuar mais este disparate! Se quiserem continuem a saga de Celestino das moedas… Eu desisto!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Carta aberta aos leitores

Caros leitores,

Este blog ainda está a começar e, por isso, ainda sinto algumas dificuldades em definir o tipo de conteúdos que vou colocando aqui. Basicamente, até aqui, o meu critério é escrever aquilo que me apetece e as primeiras coisas que me vêm à cabeça, sem nenhuma estrutura definida e sem objectivo nenhum em concreto.
Agora que o blog já existe há algum tempo, já é possível conhecer o tipo de leitores que os conteúdos deste blog atraem. Cheguei à conclusão que o perfil do leitor do Corta-unhas melancólico é um facínora que gosta de manicure. Pois é, é muito provável que você, que está a ler isto seja um facínora com queda para a manicure (o que, permitam-me acrescentar, é uma combinação divinal)! O que me deixa muito orgulhoso por poder ajudar toda a comunidade malfeitora do país, que é uma comunidade que muito admiro e à qual pertenço desde que electrocutei o gato da minha vizinha, quando tinha 4 anos...
Como é que eu cheguei a esta conclusão? Através do Google Analytics qual foi a pesquisa efectuada pelas pessoas que aqui chegaram através de um motor de busca.
Houve uma pessoa que chegou a este blog a partir da pesquisa "não olhar a meios para atingir os nossos fins". Apesar de nunca ter escrito nada sobre este tema, o acto de não olhar a meios para atingir os fins sempre foi algo que me fascinou! É com muito prazer que vos tento ajudar a não olhar a meios para atingir os fins. Há muitas maneiras de o fazer, uma delas é não olhar a meios, outra delas é pensar apenas nos fins... Assim garanto-vos que eliminam todos os obstáculos que vos impedem de conseguirem o que querem, basta não pensarem neles ou, então, só pensarem nos fins... Ou as duas alternativas...
Outra pessoa chegou até aqui através da pesquisa "como uma pessoa pode fazer tanto mal a outra". Meu caro leitor, pode dizer-se que eu sou um especialista nesta área. Já tenho assistido a inúmeras conferências e, eu próprio já fui convidado a reger uma cadeira sobre este tema na Universidade do Miskatonic... Não me vou alongar muito sobre como se pode fazer mal a outras pessoas, visto que não há limites para as crueldades a que podemos submeter os outros. Por muito mal que achemos que estamos a fazer a alguém, há sempre uma coisa pior. Não há nenhuma biblioteca no Mundo que consiga armazenar toda a informação sobre como fazer mal aos outros e, não cabe a este blog assumir para si essa ingrata e utópica missão. No entanto, podem contar com uma dica ou outra de vez em quando. Por exemplo, no caso da Áustria, berço do nazismo, país extremamente desenvolvido no que toca a submeter pessoas ao mal e em que 75% das famílias têm uma cave com uma pessoa sequestrada, quando nós achávamos que o tipo que raptou a Natascha Kampusch atingiu um lugar de topo na galeria das coisas mais cruéis que se podem fazer a alguém, aparece sempre um indíviduo que fechou a filha numa cave durante 20 e tal anos, durante os quais criou uma ninhada de filhotes, quais cocktails de consanguinidade, provando-nos que não há limites para o mal! É esta a beleza do mal! Com alguma criatividade e uma total falta de escrúpulos o céu é o limite!
Houve ainda outra pessoa que chegou aqui através da pesquisa "ipo voluntariado blog"... Como não me parece que tenha alguma informação sobre este tema, só posso imaginar o que é que este abutre queria ir fazer ao IPO e por muito que imagine há sempre algo pior... Inscrever-se como voluntário para depois... Nem quero pensar nisso... Belos facínoras que este blog atrai...
Há também uma pesquisa que me permite adicionar ao perfil de malfeitor um certo gosto pela manicure visto que alguém chegou aqui através da pesquisa "como começar a fazer unhas". Não sei responder a esta questão mas prometo que vou tentar informar-me melhor sobre vernizes, manicure e técnicas de tortura envolvendo unhas para ir de encontro às preferências dos meus caros leitores!
Para já é tudo... Continuem a praticar o mal!


PS: Agora uma palavra mais séria, talvez motivada pelos remorsos de ter escrito estes disparates todos: houve mesmo pessoas a chegarem aqui através destas pesquisas! No entanto, não acho que vocês sejam todos facínoras, aliás a maioria de vocês até são pessoas espectaculares! O melhor público que já tive até hoje! Bem, acho que já me redimi de vos ter chamado facínoras...

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Morte académica


Ao criar o estatuto de estudante a tempo parcial o Governo finalmente regulamenta uma situação que já era mais que comum nas nossas Universidades. Desde há muito tempo que os estudantes eram obrigados a conciliar o seu papel de estudante propriamente dito com o papel de alcoólicos, de praticantes de pandeireta acrobática (modalidade que só se pode praticar com a devida dose de álcool), de mestres de tortura psicológica a jovens imberbes que acabaram de entrar na Universidade… Pouco tempo sobra para estudar, daí que esta medida deva ser veementemente aplaudida! (depreendo que esta medida do Governo tenha a ver com isso é que, como é óbvio, não li a notícia… é que eu não sei ler nem escrever… Só estou no 5.º ano do Ensino Superior… estes posts são ditados por mim ao meu estropiado e repulsivo servo Vladimiro, a quem faltam as duas mãos e um olho e que tem apenas dois dentes… “como é que o Vladimiro escreve sem mãos?” perguntam vocês. Usa o seu nariz… o que é um espectáculo bonito de se ver… no Natal o Vladimiro também desenha postais, que vocês, como pessoas solidárias e altruístas que são vão comprar… Não há nada mais comovente do que ver um aleijadinho como o Vladimiro dar assim a volta por cima e fazer autênticas obras de arte. Nada me deixa mais feliz! Foi com o dinheiro dos postais que eu construí a minha marquise no ano passado… Este ano preciso de uma alcatifa nova por isso toca a comprar!).

Já que estou a falar sobre Ensino Superior aproveito para sair um pouco do tom normal deste blog e falar um pouco sobre a minha experiência pessoal. Como meus fiéis e assíduos leitores merecem saber que eu estou a morrer… É verdade! Como todas as vidas, também a vida académica tem um fim e, neste momento, estou a dar os meus últimos suspiros. A minha morte académica aproxima-se a passos largos.

E, ao contrário da morte propriamente dita, aquela em que vamos finalmente reencontrar-nos com o Criador ou, se formos ateus, em que vamos servir de banquete a larvas e vermes subterrâneos, a morte académica não é um momento de tristeza: não se faz um funeral, ninguém fica propriamente triste, apenas nostálgico… A morte académica celebra-se e celebra-se efusivamente… Para além do último ano ser, já de si, diferente a Semana da Queima das Fitas é o auge da celebração da nossa morte académica. E eu, como moribundo, estou muito nostálgico… Sinto toda a minha vida académica a passar-me pelos olhos. O cliché de quem esteve entre a vida e a morte... Até faz sentido! Não quero morrer!

Não é por querer que a minha vida académica se prolongue, nem pensar nisso! A esperança média de vida académica é de cerca de 5 anos, sendo que é aceitável que alguém demore mais algum tempo. No entanto, é inevitável cruzarmo-nos com indivíduos bastante idosos em termos académicos, que eternizam a sua vida de estudante, acabando por, muitas vezes, ser colegas dos seus próprios filhos… Por isso, quando digo que não estou a gostar nada da minha morte académica, não estou a dizer que gostaria que ela durasse mais um ou dois anos ou três ou vinte. Não! Não quero nem mais um ano de vida académica! Porque acho que só conseguiria desfrutar da minha vida académica enquanto ela faz sentido. Ou seja, quando as coisas seguem o seu ciclo natural e vivemos todas as fases de uma maneira saudável. Neste momento, só tenho que aceitar que estou a morrer e, como toda a gente, vou festejar… Isto implica andar a levar marretadas na cabeça com uma bengala, beber, escrever dedicatórias em fitas como se estivesse numa linha de montagem, beber… Acho que se me eternizasse como estudante as coisas perderiam toda a piada e cairia no ridículo… Tal como não brinco com carrinhos não faria muito sentido estar, daqui a 20 anos, armado em estudante universitário… Cada coisa no seu tempo… E novos tempos estão a chegar… É inevitável que olhe para trás com nostalgia da mesma maneira que olho para a frente com uma grande expectativa! Se as coisas fossem eternas não seriam tão boas (nem tão más) como são. Acho que nem sequer seriam. Qualquer tentativa para nos eternizarmos onde quer que seja, para além de fortuita, será completamente frustrante!

P.S. Para quem só chegou agora a este blog, este não é o tipo de posts mais representativo… Os posts abaixo serão uma melhor ajuda para perceberem se querem adicionar ou não este blog aos favoritos. Este post serve também para justificar uma não tão frequente actualização na próxima semana… É a minha última queima, tenho que saborear a minha última refeição!

Para os meus leitores na China, imagino que não percebam bem o que é a nossa tradição académica. Podem colocar as vossas dúvidas na caixa de comentários e terei todo o prazer em respondê-las. Não se inibam até porque acho que iriam gostar muito da nossa tradição académica. Para vos aguçar o apetite posso dizer-vos que ela envolve humilhação, alienação do indivíduo enquanto ser único, palavras de ordem, confrontos…