
Neste fim-de-semana tive a oportunidade de ver a mini série da BBC "House of Saddam" sobre a vida do ditador iraquiano que todos nós conhecemos e, nalguns casos, admiramos (esta é para vocês meus leitores sunitas! Para não dizerem que eu me esqueci de vocês).
A série é muito interessante e muito boa não só historicamente mas também artísticamente. Se quiserem posso emprestar-vos. É uma mistura de série histórica com Sopranos e, em algumas partes, com o "Música no Coração" (a parte em que a mulher de Saddam e as filhas são obrigadas a fugir devido à invasão americana é muito parecida com o fim do "Música no Coração") e tem, de facto, muita qualidade.
O único político português sobre quem se poderia fazer algo do género seria, talvez, o Major Valentim Loureiro: "House of Valentim". Só que, neste caso, seria uma mistura de série histórica, com Sopranos e, nalgumas partes com um teledisco dos Ban e um anúncio da Worten (por causa daquilo dos electrodomésticos... era uma piada...).
Aprendi mesmo muito com a série "House of Saddam", nomeadamente que Saddam falava fluentemente Inglês, embora com um leve sotaque iraquiano. Assim como quase todos os iraquianos que apareciam no filme. Desconhecia que a língua oficial do Iraque fosse o Inglês e a única vez em que ouvi uma língua diferente foi quando um militar americano interrogou um dos guarda-costas de Saddam em árabe. Este respondeu-lhe na mesma língua. Fê-lo por boa educação visto que, momentos antes, conversava animadamente com Saddam em Inglês.
De salientar que o referido guarda-costas de Saddam era extremamente parecido com o Prof. Neca (talvez fosse mesmo o Prof. Neca... quem sabe se numa das suas emigrações para o Médio Oriente ele não terá sido guarda-costas de Saddam? Ninguém sabe... Aliás, ninguém sabe sequer onde é que ele está agora... talvez esteja em Guantanamo com o Artur Jorge...).
A série deixou-me a imaginar como seria se, por artes mágicas, eu trocasse de lugar com Saddam (imaginando que este ainda era rei e senhor do berço da civilização). Numa bela manhã eu acordaria no lugar do tirano e este, por sua vez, acordaria no meu lugar.
Teria a sua piada ver o Saddam lá na empresa, a aturar ditadores bem piores do que ele, a ter que tirar fotocópias, a ter que fazer powerpoints e a ter que levar com o ar condicionado numa temperatura que um esquimó classificaria de "fria como o caraças" e que me permite, nos tempos mortos, dedicar-me à construção de bonecos de neve, a fazer corridas de trenó e a transformar copos de sumo de limão em Calipos... Não me parece que o Saddam tivesse estofo para ser estagiário e, muito provavelmente, passado uma hora estaria a chorar que nem um menino curdo cuja família tenha sido chacinada por armas químicas. Qual enforcamento qual quê! Castigo a sério seria pôr o Saddam no meu lugar!
Quanto a mim, acordaria nas calmas num dos palácios de Saddam, numa cama bem confortável e pensaria cá para comigo:
- Olha, estou no lugar do Saddam! - visivelmente surpreendido, pensaria nas consequências que este facto teria no meu futuro imediato - Porreiro! Já não tenho que entregar aquele relatório! - e pensaria, satisfeito no pobre Saddam apanhado de surpresa no meu lugar a sofrer as terríveis consequências da não entrega do referido relatório.
Virava-me para o lado e faria aquilo que sempre faço quando acordo no lugar de um ditador: continuava a dormir. O bom de acordar no lugar de um ditador é que, a fasquia está tão baixa que, por muito pouco que façamos, será sempre bem melhor do que aquilo que o nosso antecessor fez. Não iria matar curdos, nem opositores, nem os meus genros. Não tem muito a ver com a minha personalidade... Só o facto de dormir mais um bocadinho antes de açoitar o malandro do meu filho Uday que se safou demasiado impunemente de assassínios e violações e de deixar de chacinar opositores e povoações inteiras de curdos seriam vistos pela comunidade internacional como grandes progressos...
E é quando, perdido nestes devaneios, me vêm acordar:
- Sua eminência, sua eminência, precisa de acordar, nem imagina o que é que aconteceu...
- Calma... como é que te chamas?
- Mohamed, senhor. Aqui todos nos chamamos Mohamed.
- OK, Mohamed... dou-te... sei lá... um milhão de dólares se me deixares dormir mais 5 minutos...
- Sim, sua eminência...
Passados 5 minutos:
- Sua eminência, sua eminência, precisa de acordar, nem imagina o que é que aconteceu... Mas primeiro gostaria de receber o meu milhão de dólares... se fosse possível...
- Faço-te já uma transferência bancária... Diz lá então o que se passou...
- Um grupo de rebeldes infiltrou-se na televisão e disse coisas horríveis sobre a sua pessoa... - Mohamed olha para baixo, com um ar culpado, não escondendo o medo da ira do seu líder.
- Calma, Mohamed... Não pode ser assim tão mau... Mas foi sobre mim ou sobre a minha pessoa? - a língua árabe tem destas maravilhosas chalaças e permite-nos, mais do que o português, este tipo de humor inteligente e elaborado característico de empregados de mesa.
- Sobre si, sua Eminência... Eles disseram que... e estou só a citar, Sua Eminência.... eles disseram que a Sua Eminência "cheirava mal dos sovacos e tem sempre ranho no nariz" - ao dizer isto Mohamed esconde-se debaixo da cama presidencial.
- Ah! Ah! Ah! Isso tem muita graça... Eu sabia que esta minha sinusite me iria trazer problemas... Quanto aos sovacos, com 50 ºC o que é que eles queriam? Se me quiserem recomendar um desodorizante que o façam, é que eu já tentei tudo... E que mais disseram eles?
Um Mohamed incrédulo com uma resposta nada habitual do seu senhor responde-me:
- Não disseram mais nada, Senhor... É que...
- "É que" o quê? Desembucha lá, Mohamed...
- Eles foram decapitados...
É neste momento que eu caio em mim e vejo que ser tirano não tem mesmo grande piada e que prefiro de longe ser estagiário...
(O meu objectivo era continuar esta história e desenvolver uma série de ideias que tenho mas, sinceramente, não me apetece... Além disso, como é muito pouco provável eu acordar no lugar de quem quer que seja, tenho que fazer o tal relatório... Mas daria uma bela comédia do Ralph Schneider... Pode ser que continue esta saga mais tarde...)
A série é muito interessante e muito boa não só historicamente mas também artísticamente. Se quiserem posso emprestar-vos. É uma mistura de série histórica com Sopranos e, em algumas partes, com o "Música no Coração" (a parte em que a mulher de Saddam e as filhas são obrigadas a fugir devido à invasão americana é muito parecida com o fim do "Música no Coração") e tem, de facto, muita qualidade.
O único político português sobre quem se poderia fazer algo do género seria, talvez, o Major Valentim Loureiro: "House of Valentim". Só que, neste caso, seria uma mistura de série histórica, com Sopranos e, nalgumas partes com um teledisco dos Ban e um anúncio da Worten (por causa daquilo dos electrodomésticos... era uma piada...).
Aprendi mesmo muito com a série "House of Saddam", nomeadamente que Saddam falava fluentemente Inglês, embora com um leve sotaque iraquiano. Assim como quase todos os iraquianos que apareciam no filme. Desconhecia que a língua oficial do Iraque fosse o Inglês e a única vez em que ouvi uma língua diferente foi quando um militar americano interrogou um dos guarda-costas de Saddam em árabe. Este respondeu-lhe na mesma língua. Fê-lo por boa educação visto que, momentos antes, conversava animadamente com Saddam em Inglês.
De salientar que o referido guarda-costas de Saddam era extremamente parecido com o Prof. Neca (talvez fosse mesmo o Prof. Neca... quem sabe se numa das suas emigrações para o Médio Oriente ele não terá sido guarda-costas de Saddam? Ninguém sabe... Aliás, ninguém sabe sequer onde é que ele está agora... talvez esteja em Guantanamo com o Artur Jorge...).
A série deixou-me a imaginar como seria se, por artes mágicas, eu trocasse de lugar com Saddam (imaginando que este ainda era rei e senhor do berço da civilização). Numa bela manhã eu acordaria no lugar do tirano e este, por sua vez, acordaria no meu lugar.
Teria a sua piada ver o Saddam lá na empresa, a aturar ditadores bem piores do que ele, a ter que tirar fotocópias, a ter que fazer powerpoints e a ter que levar com o ar condicionado numa temperatura que um esquimó classificaria de "fria como o caraças" e que me permite, nos tempos mortos, dedicar-me à construção de bonecos de neve, a fazer corridas de trenó e a transformar copos de sumo de limão em Calipos... Não me parece que o Saddam tivesse estofo para ser estagiário e, muito provavelmente, passado uma hora estaria a chorar que nem um menino curdo cuja família tenha sido chacinada por armas químicas. Qual enforcamento qual quê! Castigo a sério seria pôr o Saddam no meu lugar!
Quanto a mim, acordaria nas calmas num dos palácios de Saddam, numa cama bem confortável e pensaria cá para comigo:
- Olha, estou no lugar do Saddam! - visivelmente surpreendido, pensaria nas consequências que este facto teria no meu futuro imediato - Porreiro! Já não tenho que entregar aquele relatório! - e pensaria, satisfeito no pobre Saddam apanhado de surpresa no meu lugar a sofrer as terríveis consequências da não entrega do referido relatório.
Virava-me para o lado e faria aquilo que sempre faço quando acordo no lugar de um ditador: continuava a dormir. O bom de acordar no lugar de um ditador é que, a fasquia está tão baixa que, por muito pouco que façamos, será sempre bem melhor do que aquilo que o nosso antecessor fez. Não iria matar curdos, nem opositores, nem os meus genros. Não tem muito a ver com a minha personalidade... Só o facto de dormir mais um bocadinho antes de açoitar o malandro do meu filho Uday que se safou demasiado impunemente de assassínios e violações e de deixar de chacinar opositores e povoações inteiras de curdos seriam vistos pela comunidade internacional como grandes progressos...
E é quando, perdido nestes devaneios, me vêm acordar:
- Sua eminência, sua eminência, precisa de acordar, nem imagina o que é que aconteceu...
- Calma... como é que te chamas?
- Mohamed, senhor. Aqui todos nos chamamos Mohamed.
- OK, Mohamed... dou-te... sei lá... um milhão de dólares se me deixares dormir mais 5 minutos...
- Sim, sua eminência...
Passados 5 minutos:
- Sua eminência, sua eminência, precisa de acordar, nem imagina o que é que aconteceu... Mas primeiro gostaria de receber o meu milhão de dólares... se fosse possível...
- Faço-te já uma transferência bancária... Diz lá então o que se passou...
- Um grupo de rebeldes infiltrou-se na televisão e disse coisas horríveis sobre a sua pessoa... - Mohamed olha para baixo, com um ar culpado, não escondendo o medo da ira do seu líder.
- Calma, Mohamed... Não pode ser assim tão mau... Mas foi sobre mim ou sobre a minha pessoa? - a língua árabe tem destas maravilhosas chalaças e permite-nos, mais do que o português, este tipo de humor inteligente e elaborado característico de empregados de mesa.
- Sobre si, sua Eminência... Eles disseram que... e estou só a citar, Sua Eminência.... eles disseram que a Sua Eminência "cheirava mal dos sovacos e tem sempre ranho no nariz" - ao dizer isto Mohamed esconde-se debaixo da cama presidencial.
- Ah! Ah! Ah! Isso tem muita graça... Eu sabia que esta minha sinusite me iria trazer problemas... Quanto aos sovacos, com 50 ºC o que é que eles queriam? Se me quiserem recomendar um desodorizante que o façam, é que eu já tentei tudo... E que mais disseram eles?
Um Mohamed incrédulo com uma resposta nada habitual do seu senhor responde-me:
- Não disseram mais nada, Senhor... É que...
- "É que" o quê? Desembucha lá, Mohamed...
- Eles foram decapitados...
É neste momento que eu caio em mim e vejo que ser tirano não tem mesmo grande piada e que prefiro de longe ser estagiário...
(O meu objectivo era continuar esta história e desenvolver uma série de ideias que tenho mas, sinceramente, não me apetece... Além disso, como é muito pouco provável eu acordar no lugar de quem quer que seja, tenho que fazer o tal relatório... Mas daria uma bela comédia do Ralph Schneider... Pode ser que continue esta saga mais tarde...)

6 comentários:
Por acaso já ouvi falar (e muito bem) dessa série e já está em fase de "sacanço" mas obrigada pelo possível empréstimo.
Depois dou-te a minha opinião.
Tudo que meta sarcasmo tem sempre a sua piada mas realmente essa situação está esclarecedora do dia-a-dia de um ditador.
Acho que até nem ficavas mal, só um bigodinho já te dava logo um ar mais in mas é bom que continues estagiário por enquanto, como pertenço à família e quê...
Mais vale ter esperança de um vale de descontos do Continente ou de um carregamento Optimus no natal do que um funeral na Agência Celina Soares e Emília Lda. (a publicidade também ajuda, olha que o negócio ainda pode vir a ser nosso) :P
Beijinhos**
Pareces-me demasiado simpático para tirano...!
A série é boa e vale a pena!
Não trocava a minha vida pela de nenhum ditador. Primeiro porque não tinha jeito. Segundo porque até gosto da minha vida, embora como técnica de humor goste de a pintar mais negra do que o que é na realidade. Que piada é que tinha isto se eu viesse para aqui dizer que sou o maior e que a minha vida é espectacular, que tenho um emprego de sonho e que as mulheres não me largam? A piada que um gabarolas tem... nenhuma...
Descontos no Continente? Carregamentos Optimus? Nem a tarde do dia 24 de Dezembro, quanto mais...
Oferecer um funeral é grande brinde! As pessoas é que vêm o lado negativo... Se eu soubesse que já tinha o funeral pago (vá, devo ter algumas facilidades) andava de cabeça erguida... ou seja, tinha onde cair morto...
Mas fica feita a publicidade, acho que a clientela vai disparar...
lua
Muito obrigado :) Realmente não tenho jeito nenhum para tirano e, por personalidade, prefiriria que me cortassem a cabeça do que cortassem a cabeça a outras pessoas por minha causa... Isto dito assim parece estúpido... Mas para resumir, gosto de me considerar altruísta...
Gosto de acreditar que a maioria das pessoas são boas de mais para serem tiranas no entanto cada vez me apercebo mais que em mais gente do que o que gostaria está um potencial tirano... Muita gente apanha-se com um poder (por mais insignificante que esse poder seja) e transformam-se em autênticos Saddams... É um bocado assustador...
Eu também gostaria de acreditar que as pessoas são boas de mais para serem tiranas, gostaria mesmo (!!), mas a minha experiência de vida tem mostrado (infelizmente) o oposto!
Ditadores é coisa que não falta!!:S Um destes dias dou-te um ou dois exemplos que se passaram na minha vida profissional!
O Saddam comparado com alguns colegas de trabalho que eu já tive, até devia de ser um gajo porreiro!!
Lu.a
Também aturo a minha dose de pessoas execráveis. Muito mais do que gostaria... Se calhar é por uma questão de conforto, para me sentir melhor com a vida e com o Mundo, mas gosto de acreditar que, apesar de agirem como pessoas más, as pessoas são genuinamente boas e que há um longo caminho a percorrer até se tornarem "encarnações do mal".
Isto é o que eu penso nos dias bons... Nos dias maus tenho tão pouca fé na humanidade como qualquer pessoa...
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