
Aqui há uns tempos estava a passear, descontraidamente, numa rua deserta. E ouço uma voz atrás de mim.
- Olha! Desculpa lá...
Olhei para trás, um tipo completamente aleatório chamava alguém. A questão é que não havia mais pessoas à minha volta. E era possível que aquele tipo aleatório quisesse mesmo falar comigo.
Eu não tenho nada contra pessoas até porque a maior parte dos seres com quem interajo são pessoas. E dessas interacções, por vezes, resultam conversas bem interessantes. Se não existissem essas interacções, perderíamos tudo aquilo por que vale a pena viver neste mundo... Mas ser abordado por um tipo anónimo na rua não costuma prenunciar algo positivo. Costuma ser prenúncio de que vamos ser roubados, de que nos vão pedir dinheiro ou, na melhor das hipóteses, de que nos vão perguntar as horas.
Parei e o homem vem ter comigo. Não deu para fugir, nem para ignorar... Restava esperar que não me ocupasse muito tempo para eu o poder esquecer e seguir com a minha vida que, pode não ser perfeita, mas tinha até aquele momento um grande aspecto positivo, ele não fazia parte dela. Só que ele, naquele momento, sem eu lhe pedir absolutamente nada, aquela pessoa decidiu que isso ia acabar.
Sobre a sua aparência, lembro-me apenas que tinha uma cabeça com olhos, nariz e boca, pelo menos um braço, duas pernas e tudo o resto que seria de esperar que uma pessoa tivesse. Se, ao menos tivesse cabeça de atum e cornos haveria um motivo pelo qual eu gostava de ter interagido por ele. Permitia-me ter uma história:
- Uma vez falei com um gajo que tinha cabeça de atum e cornos.
O que não é muito, mas no mundo em que vivo é uma boa história para partilhar. Ocuparia pelo menos um capítulo da minha autobiografia. Mas nem isso. O tipo era um gajo médio e ninguém vai contar uma história sobre um gajo médio.
- Uma vez falei com um tipo absolutamente normal.
Isto não é história nenhuma. A não ser que esse tipo absolutamente normal se tenha dado ao trabalho de me abordar, em pleno dia, numa rua deserta, para me dizer uma das coisas mais estúpidas que uma pessoa alguma vez disse a outra...
- Essa t-shirt... – disse-me ele. Eu tinha uma t-shirt da banda punk Ramones - ...é dos Ramones.
- Sim... – disse eu.
- Uma vez ouvi-os e eles não são grande coisa, pois não?
A sério? Não gostas de Ramones? E porque é que não vais falar sobre isso com alguém que não gosta de Ramones? Porque é que incomodas uma pessoa, sobre a qual a única coisa que sabes é que gosta o suficiente de Ramones para possuir e usar uma t-shirt dessa banda para manifestar a tua opinião negativa sobre uma banda que só ouviste uma vez? Isso estava-te atravessado? Há quanto tempo é que não conseguias dormir por causa disso?
“Estes Ramones não prestam... Preciso mesmo de dizer a alguém que eles não são nada de especial. A minha vida depende disso.”
Se és assim tão maluco aceitava mais facilmente que me tivesses mandado um tiro na cabeça. Pelo menos estavas a passar a tua mensagem. É o que os malucos fazem. Mas abordar-me sem qualquer tipo de agressividade, como se fosse uma coisa normal, para me perguntar se, tal como tu, eu, que uso uma t-shirt a dizer "Ramones", não gosto dessa banda é surreal. O que é que esperavas que eu te dissesse?
“Tens razão. Não prestam. Eu tenho a mania de usar t-shirts de bandas que não gosto. Para mostrar ao Mundo o quanto não gosto delas. Digo-te uma coisa. Se também comprares uma t-shirt de Ramones, podemos fundar um clube dedicado ao tema "Pessoal que não gosta de Ramones". Olha, até podemos formar um casal, visto que temos tanto em comum. Queres casar comigo? Esperei toda a vida para te conhecer, pessoa aleatória.”
Qual foi o sinal que eu te dei que te levou a tomar a decisão de ter essa conversa comigo? Viste-me a existir, a respirar e a andar e nesse momento pensaste:
“Tenho mesmo que dizer umas verdades a este gajo. Ele está a pedi-las. Aquela maneira de respirar não me engana.”
Como é que é o teu dia típico? Das 8 às 10 estás, no teu carro, numa concentração de motards a dizer-lhes que andar de carro é que é bom, que é mais seguro e confortável e que se deixem disso das motas. Das 10 à hora de almoço estás à porta da Igreja perguntar se as pessoas acreditam em Deus. Passas a tarde a dizer a toxicodependentes que isto da droga não presta. E à noite vais ao Estádio da Luz perguntar às pessoas se elas acham que o futebol são 22 homens a correr atrás de uma bola. Se te perguntarem o que é que fazes na vida, o que é que respondes? Que a tua profissão é ter conversas irrelevantes com pessoas desconhecidas?
Havia melhor maneira de passar a mensagem de que tenho uma opinião positiva sobre os Ramones do que usar uma t-shirt dizendo Ramones? Mesmo assim precisavas de confirmar? Se visses um tipo com uma mensagem a dizer “Morte aos Bielorrussos” ias perguntar-lhe o que é que ele achava sobre a Bielorrússia? Se visses um nazi ias perguntar-lhe o que é que ele achava de judeus? Se consegues interpretar sinais explícitos dessa maneira imagino o que é que fazes com sinais subtis. Deves fazer muito sucesso com as mulheres. Quando elas dizem que não gostam de ti, geralmente não gostam mesmo. A dificuldade em interpretar esses sinais subtis (sim, porque não há nada mais subtil do que “não”. Imagino que nem com t-shirts a dizer que não gostam de ti tu deixas as mulheres em paz) pode levar-te, em última, em instância a violar alguém. E depois, o que vais dizer?
- Quando ela disse “não”, eu pensei que fosse “sim”. O Meritíssimo sabe como é que é, não sabe?
- Não... E condeno-o a pena máxima!
- Isso quer dizer que estou livre?
Um conselho que talvez venha a salvar a vida a alguém. Quando uma pessoa chora de dor é porque lhe dói alguma coisa. Nesse momento, talvez seja mais sensato parares.
Já não tenho mais nada a dizer sobre ti. Mas o Benfica perdeu ontem e precisava de descarregar em alguém. Não sei porquê, lembrei-me de ti quando tive esta conversa com uma pessoa:
- Então? Está tudo bem?
- Não...
- Porquê?
- O Benfica perdeu...
- OK! Mas e contigo, está tudo bem?
- Olha! Desculpa lá...
Olhei para trás, um tipo completamente aleatório chamava alguém. A questão é que não havia mais pessoas à minha volta. E era possível que aquele tipo aleatório quisesse mesmo falar comigo.
Eu não tenho nada contra pessoas até porque a maior parte dos seres com quem interajo são pessoas. E dessas interacções, por vezes, resultam conversas bem interessantes. Se não existissem essas interacções, perderíamos tudo aquilo por que vale a pena viver neste mundo... Mas ser abordado por um tipo anónimo na rua não costuma prenunciar algo positivo. Costuma ser prenúncio de que vamos ser roubados, de que nos vão pedir dinheiro ou, na melhor das hipóteses, de que nos vão perguntar as horas.
Parei e o homem vem ter comigo. Não deu para fugir, nem para ignorar... Restava esperar que não me ocupasse muito tempo para eu o poder esquecer e seguir com a minha vida que, pode não ser perfeita, mas tinha até aquele momento um grande aspecto positivo, ele não fazia parte dela. Só que ele, naquele momento, sem eu lhe pedir absolutamente nada, aquela pessoa decidiu que isso ia acabar.
Sobre a sua aparência, lembro-me apenas que tinha uma cabeça com olhos, nariz e boca, pelo menos um braço, duas pernas e tudo o resto que seria de esperar que uma pessoa tivesse. Se, ao menos tivesse cabeça de atum e cornos haveria um motivo pelo qual eu gostava de ter interagido por ele. Permitia-me ter uma história:
- Uma vez falei com um gajo que tinha cabeça de atum e cornos.
O que não é muito, mas no mundo em que vivo é uma boa história para partilhar. Ocuparia pelo menos um capítulo da minha autobiografia. Mas nem isso. O tipo era um gajo médio e ninguém vai contar uma história sobre um gajo médio.
- Uma vez falei com um tipo absolutamente normal.
Isto não é história nenhuma. A não ser que esse tipo absolutamente normal se tenha dado ao trabalho de me abordar, em pleno dia, numa rua deserta, para me dizer uma das coisas mais estúpidas que uma pessoa alguma vez disse a outra...
- Essa t-shirt... – disse-me ele. Eu tinha uma t-shirt da banda punk Ramones - ...é dos Ramones.
- Sim... – disse eu.
- Uma vez ouvi-os e eles não são grande coisa, pois não?
A sério? Não gostas de Ramones? E porque é que não vais falar sobre isso com alguém que não gosta de Ramones? Porque é que incomodas uma pessoa, sobre a qual a única coisa que sabes é que gosta o suficiente de Ramones para possuir e usar uma t-shirt dessa banda para manifestar a tua opinião negativa sobre uma banda que só ouviste uma vez? Isso estava-te atravessado? Há quanto tempo é que não conseguias dormir por causa disso?
“Estes Ramones não prestam... Preciso mesmo de dizer a alguém que eles não são nada de especial. A minha vida depende disso.”
Se és assim tão maluco aceitava mais facilmente que me tivesses mandado um tiro na cabeça. Pelo menos estavas a passar a tua mensagem. É o que os malucos fazem. Mas abordar-me sem qualquer tipo de agressividade, como se fosse uma coisa normal, para me perguntar se, tal como tu, eu, que uso uma t-shirt a dizer "Ramones", não gosto dessa banda é surreal. O que é que esperavas que eu te dissesse?
“Tens razão. Não prestam. Eu tenho a mania de usar t-shirts de bandas que não gosto. Para mostrar ao Mundo o quanto não gosto delas. Digo-te uma coisa. Se também comprares uma t-shirt de Ramones, podemos fundar um clube dedicado ao tema "Pessoal que não gosta de Ramones". Olha, até podemos formar um casal, visto que temos tanto em comum. Queres casar comigo? Esperei toda a vida para te conhecer, pessoa aleatória.”
Qual foi o sinal que eu te dei que te levou a tomar a decisão de ter essa conversa comigo? Viste-me a existir, a respirar e a andar e nesse momento pensaste:
“Tenho mesmo que dizer umas verdades a este gajo. Ele está a pedi-las. Aquela maneira de respirar não me engana.”
Como é que é o teu dia típico? Das 8 às 10 estás, no teu carro, numa concentração de motards a dizer-lhes que andar de carro é que é bom, que é mais seguro e confortável e que se deixem disso das motas. Das 10 à hora de almoço estás à porta da Igreja perguntar se as pessoas acreditam em Deus. Passas a tarde a dizer a toxicodependentes que isto da droga não presta. E à noite vais ao Estádio da Luz perguntar às pessoas se elas acham que o futebol são 22 homens a correr atrás de uma bola. Se te perguntarem o que é que fazes na vida, o que é que respondes? Que a tua profissão é ter conversas irrelevantes com pessoas desconhecidas?
Havia melhor maneira de passar a mensagem de que tenho uma opinião positiva sobre os Ramones do que usar uma t-shirt dizendo Ramones? Mesmo assim precisavas de confirmar? Se visses um tipo com uma mensagem a dizer “Morte aos Bielorrussos” ias perguntar-lhe o que é que ele achava sobre a Bielorrússia? Se visses um nazi ias perguntar-lhe o que é que ele achava de judeus? Se consegues interpretar sinais explícitos dessa maneira imagino o que é que fazes com sinais subtis. Deves fazer muito sucesso com as mulheres. Quando elas dizem que não gostam de ti, geralmente não gostam mesmo. A dificuldade em interpretar esses sinais subtis (sim, porque não há nada mais subtil do que “não”. Imagino que nem com t-shirts a dizer que não gostam de ti tu deixas as mulheres em paz) pode levar-te, em última, em instância a violar alguém. E depois, o que vais dizer?
- Quando ela disse “não”, eu pensei que fosse “sim”. O Meritíssimo sabe como é que é, não sabe?
- Não... E condeno-o a pena máxima!
- Isso quer dizer que estou livre?
Um conselho que talvez venha a salvar a vida a alguém. Quando uma pessoa chora de dor é porque lhe dói alguma coisa. Nesse momento, talvez seja mais sensato parares.
Já não tenho mais nada a dizer sobre ti. Mas o Benfica perdeu ontem e precisava de descarregar em alguém. Não sei porquê, lembrei-me de ti quando tive esta conversa com uma pessoa:
- Então? Está tudo bem?
- Não...
- Porquê?
- O Benfica perdeu...
- OK! Mas e contigo, está tudo bem?

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