sábado, 24 de novembro de 2012

Recomendações para comedy nerds: As estórias de Kevin Smith


"Tough shit: Life Advice From a Fat, Lazy Slob Who Did Good" é o novo livro do realizador Kevin Smith. É um misto de episódios autobiográficos, conselhos de auto-ajuda e piadas sobre o órgão sexual masculino. Acima de tudo é indispensável para geeks de comédia e altamente recomendado para cinéfilos em geral.

Kevin Smith conta a sua história de vida até agora passando por várias fases, infância e juventude como um geek de New Jersey, ascensão meteórica no mundo do cinema independente e recente anúncio de fim de carreira cinematográfica. Durante a narrativa somos confrontados com histórias do meio cinematográfico como a sua relação de amor-ódio com o mítico mogul do cinema Harvey Weinstein e a sua desilusão com o Bruce Willis (que o ex-fã Kevin Smith considera uma besta depois de ter trabalhado com ele no flop "Copped Out"); homenagens aos seus ídolos (destacando-se George Carlin, John Hughes, Quentin Tarantino e o jogador de hóquei no gelo Wayne Gretzky); conselhos de vida (o típico e falacioso "façam como eu, persigam os seus sonhos e lutem por eles, que vão conseguir", não que as intenções de Kevin Smith não sejam boas mas, convenhamos, já todos conhecemos estas "lições", a realidade é complexa demais para se considerar que o "desejar com muita força" e, até, o talento e o trabalho são as únicas variáveis que influenciam o sucesso/insucesso de alguém… são indispensáveis, mas há muitas outras); a bonita história de amor dele e da sua mulher Jennifer Schwalbach ("Skinny good-looking chicks rarely choose the corpulent fella unless you're watching a sitcom."); o tardio consumo de cannabis; as dificuldades relacionadas com excesso de peso (que, entre outras coisas, levaram a que fosse expulso de um avião recentemente e à inevitabilidade de ter que ficar sempre por baixo durante o sexo, situação cujo cenário descreve do seguinte modo: "Hell, had she realized all a fat man's gonna offer in bed is the Snoopy's Doghouse (he lies down, someone climbs on top of him, and he gets fucked), she likely would've run screaming from her apartment."), e muitas, muitas piadas sexuais.

Apesar de estar constantemente a depreciar o seu talento Kevin Smith é especial (e ele sabe-o, é só um mecanismo de defesa, não sejamos ingénuos). É um excelente comunicador que vive agora de inúmeros podcasts (nos quais estou viciado e que podem ser encontrados neste site) e de concorridas sessões de Q&A/stand up comedy que vem fazendo há alguns anos e onde reflecte durante horas sobre tudo um pouco (por exemplo, aqui fala de Tim Burton, felizmente a internet está repleta de vídeos destes momentos de contacto directo com os fãs de Kevin Smith). Acima de tudo, é um erro desvalorizar a obra cinematográfica que hoje permite a Kevin Smith viver de mandar umas bocas (e digo isto do modo mais elogioso possível, o homem eleva o mandar uns bitaites sobre tudo e todos a uma forma de arte sublime).

Se hoje é moda ser geek, muito se deve a Kevin Smith. Com "Clerks" (um filme auto-financiado e, mais tarde, adquirido pela Miramax, que se centra na rotina de dois empregados de uma loja de conveniência que passam a vida a ter diálogos "quentintarantinescos" sobre Star Wars e… pilas) Kevin Smith abriu as portas do cinema independente ao tipo de comédia que vemos hoje Judd Apatow a fazer com ganhos na ordem das centenas de milhões de dólares. Uma pessoa abre um site de humor instantâneo tipo 9gag e 90% das piadas parecem vindas de um filme de Kevin Smith! Com "Chasing Amy" mostra uma grande maturidade conseguindo misturar comédia com cenas mais sentimentais e essas merdas e com "Dogma" (o penúltimo dos filmes que realizou no "View Askewniverse") consegue fazer um filme brilhante sobre religião. Não sendo revolucionário como "A Vida de Brian", tem igualmente muito mérito, é basicamente ensaio íntimo de Kevin Smith sobre a sua própria fé. Teve alguns flops, como Jersey Girl, que nunca vi ou o mediano "Zack and Miri Make a Porno" em que tentou surfar a onda de blockbuster à Judd Apatow (que ironicamente ele próprio criou) mas nem o wonderboy de Apatow Seth Rogen o safou de um relativo fracasso de bilheteira. No meio disto tudo, mostrou ser um tipo com uns grandes tomates, que nunca teve medo de arriscar em prol daquilo em que acreditava, como por exemplo quando abdicou de uma carreira confortável a realizar blockbusters para a Warner Bros com o fim de realizar o seu projecto pessoal e último filme "Red State", um filme completamente diferente daquilo a que nos habituou e que distribuiu de um modo totalmente independente. Se tudo isto não bastasse, a dupla que formou com o seu amigo de muitos anos Jason Mewes, Jay e Silent Bob, tem o seu lugar bem seguro na história do cinema.

É de admirar a ascensão improvável de Kevin Smith, que passou de cinéfilo inveterado a trabalhar numa loja de conveniência a nome maior do cinema independente. Nunca esqueceu as origens e procura incluir sempre que possível os seus amigos de infância nos seus projectos, o que é uma prova tremenda de lealdade e gratidão (gratidão não necessariamente desinteressada... será que sem a ajuda do seu amigo Jason "Jay" Mewes a interpretar uma versão de si próprio o seu sucesso seria o mesmo? Há sobretudo um grande mérito de Smith em ter identificado o potencial humorístico deste stoner desbocado). Este livro é como ter uma conversa bem humorada e inspiradora com um tipo porreiro, com quem dá vontade de ir tomar um copo que, por acaso, conseguiu subir em Hollywood.
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