sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um Presidente falador




Se eu não me candidato a Presidente da República, e por mais do que uma vez isso já me foi sugerido (principalmente por objectos inanimados e carraças falantes), é porque não tenho carisma, não fui abençoado com o dom da oratória e porque possuo a profundidade de pensamento de uma Ruth Marlene ou de um pelicano com Alzheimer.

Aparentemente, este tipo de características não são obstáculos para Cavaco Silva, o que não deixa de ser uma esperança para mim, já que há carraças bastante persuasivas e pedaços de ardósia que colocam argumentos bastante convincentes a favor de uma eventual candidatura minha à Presidência da República. E como outra das minhas características que me levam a pensar que jamais me deveria a candidatar a este cargo é a pouca firmeza das minhas convicções, é bastante provável que um piaçaba me venha a convencer a embarcar numa aventura destas. E como almocei feijoada à transmontana com molho de iogurte tenho passado bastante tempo com piaçabas.

A verdade é que ser Presidente da República não é muito difícil. A prova disso é que há pessoas que conseguem avaliar positivamente o mandato de Cavaco Silva sem se rirem. Inclusivamente, há pessoas que apoiam Cavaco Silva como se fosse uma coisa normal, sem que os seus amigos e familiares os tentem encaminhar para opções mais saudáveis, como heroína, a IURD, o bestialismo ou o clube de fãs do Tony Carreira.

Ser Presidente da República exige apenas uma grande competência: saber gerir silêncios. Gerir silêncios, como quem está para dizer alguma coisa importante mas acaba por não dizer. Tendo isto em conta, diria que os candidatos ideais à Presidência da República seriam bons exemplos de gestores de silêncio: um mimo, uma raposa morta e o Malato amordaçado.

A minha tese segundo a qual saber gerir silêncios é a única competência exigível ao detentor daquilo a que se convencionou chamar o mais alto cargo da Nação (já que todos sabemos que ser o número 10 do Benfica é o mais alto cargo da Nação) pode fazer com que muita gente avalie como positivo o mandato de Cavaco Silva. De facto, algumas das decisões mais correctas de Cavaco foram decisões do tipo:

Diálogo interior: "Como é que é? Comento isto ou não? É melhor não. Vou ficar calado que dá menos trabalho".

Isto leva à ideia errónea de grande parte das pessoas segundo a qual o Professor Cavaco é um homem ponderado, um homem de tabus, um homem que sabe estar calado. Mas enganam-se...

Cavaco falou quando quis celebrar o dia da raça a 10 de Junho. Não que não seja importante que se crie um dia da raça em que cada pessoa se vista de acordo com a sua raça de cães predilecta (seria a oportunidade de que tenho estado à espera para finalmente estrear o meu fato de chiuhahua), julgo que era a isso a que Cavaco se referia. Mas desde a escola primária que eu sei que 10 de Junho é o dia de Portugal e das comunidades, o que me coloca à frente de Cavaco numa eventual corrida à Presidência.

Cavaco falou sobre o estatuto dos Açores. Desconheço o que quer que seja sobre esta questão e um Presidente não devia perder tempo com estas inutilidades. Quando eu for Presidente vou preocupar-me apenas com coisas que sejam importantes para os portugueses como presunto, a vida privada de pessoas que não interessam a ninguém e filosofia alemã do século XIX.

Cavaco falou quando promulgou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, fazendo questão de dar a entender que era contra. Embora seja uma posição preconceituosa, intolerante, mais próxima da Idade Média do que de uma sociedade em que somos todos iguais perante a lei é uma posição à homem. E isso é sempre de elogiar. No entanto, fazer coisas à homem é algo que está sempre associado a alguma insegurança sexual (case in point: Zezé Camarinha). É paradoxal, mas a homofobia é uma coisa bem mais homossexual do que uma parada do Orgulho Gay.

Cavaco falou quando quis defender o seu assessor que, lembre-se, andou a soprar boatos de escutas para jornais. Disse que o seu e-mail estava "vulnerável" e sobre quanto isso o preocupou. O que em termos de discurso político é equivalente àquelas janelinhas do anti-virus que aparecem no canto inferior direito.

Cavaco falou quando faltou ao funeral do único Prémio Nobel da Literatura português. Justificou a sua ausência por estar nos Açores na sequência de uma promessa que tinha feito aos netos. Faltar ao funeral até é compreensível, a não ser que Cavaco tivesse na manga algum dito espirituoso e profundo sobre a perda deste grande vulto da nossa literatura ou um número de sapateado surpreendente, o que duvido, a sua presença é perfeitamente evitável. A questão é: levar os filhos aos Açores? Eu não tenho nada contra os Açores, mas isso é o equivalente em viagens a dar meias com raquetes no Natal. E um Presidente que dá meias com raquetes aos netos o que é que tem para dar aos portugueses? Uma caixa de Ferrero Rocher e umas ceroulas?

Cavaco Silva foi muito bom Presidente, excepto quando falou. Se tivesse trocado a maior parte das suas intervenções por canto gregoriano em falsete, dança do ventre ou qualquer combinação das três actividades anteriores teria sido o melhor Presidente de sempre. Assim não...
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