domingo, 16 de dezembro de 2012

A minha primeira reflexão política

A minha primeira reflexão política remonta a umas férias no Gerês. Tinha 9 ou 10 anos e estava na sala de estar da pensão. A televisão estava ligada e estava a dar o telejornal. Enquanto passava uma notícia sobre uma campanha para acabar com o trabalho infantil um senhor começou a gesticular em frente à televisão contra a iniciativa. A recordação é um bocado nebulosa mas, pelo que percebi, segundo esse senhor, o trabalho infantil era uma benção e a maneira ideal de criar homens a sério e de levar este País para a frente. Fiquei com a impressão que essa tinha sido a realidade dele e como resultou bem (ou não estivesse ele a passar umas férias no Gerês) tinha a opinião de que todos deviam passar por isso. "Não lhes faz mal nenhum, bem pelo contrário" dizia ele.

E eu fiquei um pouco assustado.

"Este homem quer que eu vá trabalhar", pensei. "Eu não quero ir trabalhar, eu não quero ir para as obras nem coser sapatos, eu quero brincar e ir à escola e aprender. Mas por outro lado, também quero ser um homem a sério e levar este país para a frente, se possível ser jogador de futebol. Mas cientista ou vendedor de gelados também não seria mau de todo". Isto num futuro longínquo, claro. Porque quando temos 10 anos, a ideia de sermos adultos é tão irreal como o Pai Natal (depois, por volta dos 13 anos, quando começamos a olhar para raparigas com outros olhos, aparece o acne para nos lembrar de que o futuro está mais próximo do que nós pensamos e que a vida não será tão idílica como imaginamos).

E foi essa uma das primeiras vezes em que tomei consciência de que nem todos tinham a mesma sorte do que eu, nem todos tinham a mesma liberdade do que eu para brincar e para ter uma vida despreocupada, cuja única responsabilidade era levar a escola a sério (o que, para miim, até era divertido). Havia miúdos da mesma idade do que eu que trabalhavam e passavam fome e eram vítimas de violência e não iam passar férias ao Gerês… Naquela altura tomei consciência da minha própria inocência e do privilégio que ela constituía. E não era eu que estava mal. ao contrário do que o outro senhor pudesse pensar, era a realidade que estava mal. E percebi que se há alguma coisa por que vale a pena lutar é para que todos os miúdos tenham a mesma sorte do que eu. Lembro-me de sair da sala um pouco melancólico e perceber que se o senhor que vociferava em frente à televisão tivesse tido as oportunidades que eu tive em vez de ter estado a trabalhar, talvez tivesse chegado à mesma conclusão. 

Se alguém ler isto e achar piada ao exercício pode partilhar a sua primeira reflexão política aqui ou no facebook
Enviar um comentário