segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

"Estou fazendo amor com outra pessoa"

A música "Depois do Prazer" de Alexandre Pires tem os primeiros versos mais intrigantes da música ligeira brasileira. O artista declara:

"Estou fazendo amor com outra pessoa,
Mas meu coração vai ser para sempre seu"

Para já está a cantar afinado demais para quem está a fazer amor. Mas aceito. Dizem que o Sinatra gravou a "My Way" durante um ménage à trois.

Depois é uma falta de consideração para com a pessoa com quem está a fazer amor. Não só tem que o ouvir cantar, o que por si só já é bastante mau, como ainda tem que ser confrontada(o) com uma declaração de amor feita a outra pessoa. Uma versão alternativa da música focada nesta pessoa começaria assim:

"O meu coração é de outra pessoa,
Mas meu pénis está a entrar e a sair de dentro de si."

Poder-se-á especular acerca do meio de comunicação utilizado nesta declaração de amor. E há duas possibilidades: por telemóvel e cara a cara. Por telemóvel seria muito bizarro e mesmo a utilização de um auricular bluetooth não diminuiria o absurdo de alguém estar a falar ao telemóvel durante o acto sexual.

Mas cara a cara é bem pior. É um cenário no mínimo macabro e com o potencial de destruir a sanidade mental de todos os envolvidos:

Duas pessoas estão a fazer sexo. Uma dessas pessoas declara o seu amor a uma terceira pessoa que, por algum motivo, está presente no local (Esqueceu-se de alguma coisa? Enganou-se na porta e deixou-se ficar para o caso de algum dos amantes precisar de alguma coisa? Tinha que entregar uns papéis e precisava mesmo da assinatura do tipo que a amava?).

Enfim, de Alexandre Pires pode esperar-se tudo.

É difícil imaginar pior timing para se declarar amor a alguém do que o momento em que se está a foder outra pessoa. Pelo menos, podia ter esperado pelo período refractário. Mas nem isso. Tinha que ser durante o acto, que isto do romantismo é muito bonito mas um homem também tem necessidades.

É que nem na pior comédia romântica isso acontece, como se pode ver nesta cena que vou descrever:

Na cena final, o Hugh Grant com um ramo de flores na mão arromba a porta do quarto onde está a Meg Ryan a fazer sexo com outro. Ele fica a olhar, especado e sem palavras. Ao fim ao cabo, ver a pessoa que amamos prestes a atingir o orgasmo da vida dela pelo mérito da acção de um tipo com o aspecto de um modelo da Calvin Klein não é uma situação fácil de digerir.

Mas ela, ao ver o ramo de flores, percebe o erro que cometeu e declara o seu amor de uma forma bastante emocionada e, aparentemente, sincera. Enquanto se beijam ao som de uma música qualquer dos Coldplay, são interrompidos por uma graçola do indivíduo que está ali a mais, o tal modelo:

- O amor é tão bonito... És um homem com sorte! - diz o desgraçado a choramingar enquanto, todo nu e, ainda com uma semi-erecção, abraça um constrangido Hugh Grant.

No final do filme, e para evitar que fiquemos com pena dele, vemos que este indivíduo também acaba por encontrar o amor. No casamento dos protagonistas apaixona-se por uma amiga de Meg Ryan. Amiga essa que apesar de passar o filme todo a expressar um cepticismo sarcástico em relação ao amor, no fundo também espera encontrar o seu príncipe encantado. E esse príncipe é a pessoa que estava a fazer sexo com a amiga no momento em que ela declarava amor eterno ao seu agora marido. Aquelas saídas a quatro vão ser hilariantes!

"Lembras-te daquela vez em que eu estava na cama com a tua mulher e ela disse que te amava?"
"Claro que sim! Ah! Ah! Ah!"

Os motivos pelos quais haviam de convidar para o casamento o gajo que estava a fazer sexo com a Meg Ryan quando esta finalmente se declarou ultrapassam-me. Mas não é suposto estes filmes terem grande lógica.

Declarar-se a uma pessoa enquanto se faz amor com outra é como... Posso comparar isto com quê? É como comprar o álbum do David Carreira. É chunga. Também é chunga interpretar uma letra do Alexandre Pires de forma literal. Mas penso sempre nisto quando ouço estes versos. Não comprem o álbum do David Carreira. 


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