sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O papel do homicida involuntário em histórias de amor ("There is a light that never goes out")




"And if a double-decker bus crashes into us
To die by your side is such a heavenly way to die."

Romântico, não? O problema é que ninguém se coloca na perspectiva do condutor do autocarro, que vai ter que viver atormentado pelos remorsos de ter destruído o futuro e as esperanças de um casal tão apaixonado. O que é que ele vai dizer à mulher e aos filhos?

- Hoje matei um casal. Um deles estava muito feliz, o outro nem por isso. Lembram-se quando eu era uma pessoa feliz e optimista? Foi ontem. A partir de hoje vou ser alcoólico e abusador. E também fã da Casa dos Segredos. Se é para entrar numa espiral destrutiva ao menos vou até ao fim.

É que dificilmente vai conseguir encontrar consolo no facto de um dos elementos do casal desejar tão ardentemente uma morte dramática e romântica. Porque, se calhar, ele não quer mesmo ser atropelado por um autocarro. Se num contexto romântico dizemos a alguém que lhe oferecemos o Sol, é porque sabemos que ninguém nos vai cobrar o Sol. Numa relação normal, ambas as pessoas sabem que o Sol queima e não fica muito bem na sala de estar.

(É um elemento que distrai muito e impossibilita totalmente que se veja televisão. Provavelmente teria que o guardar na dispensa. Se querem oferecer alguma coisa, ofereçam flores, candeeiros de lava ou outras merdas do género.)

Ser atropelado por um autocarro está nesta categoria de coisas que se dizem da boca para fora.

Hoje ia passando pela experiência de ser o catalisador do desfecho trágico de uma história do Nicholas Sparks, quando um jovem casal quase ficava debaixo do meu carro. Os pombinhos nem se aperceberam que quase risquei o "para sempre" da última página do seu conto de fadas. De tal maneira estavam trancados numa bolha de amor isolada do resto do Mundo, que na sua perspectiva não passa de um adereço tão irrelevante como um quadro do Menino da Lágrima, que se esqueceram da realidade. A diferença é que enquanto o Menino da Lágrima não sai do quadro para nos assassinar (dava um péssimo filme de terror, não mais do que isso), na realidade existem carros, cogumelos venenosos e fogões a gás. E é importante ter isto em conta, porque o amor não tem assim tanta piada se não estivermos vivos para o aproveitar. Acabei por não assumir o papel de cicuta naquele "Romeu e Julieta" dos tempos modernos. E ainda bem. Nem todas as relações precisam de acabar como a de Romeu e Julieta e prefiro que esta acabe por motivos mais comezinhos como mensagens difíceis de justificar no facebook ou a transformação de um deles em groupie do Tony Carreira. E não debaixo do meu Peugeot 206. Acabei de o arranjar e tudo!
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