quarta-feira, 23 de abril de 2014

Onde arranjar banha da cobra de qualidade hoje em dia? - 4 exemplos da decadência da arte de bem aldrabar

Nos dias de hoje é cada vez mais difícil encontrar sítios de confiança onde comprar banha da cobra de qualidade.

Se calhar são as cobras que andam a emagrecer (provavelmente graças a uma dieta que é ela própria banha da cobra mas que ainda assim tem um efeito placebo).

É revoltante que a banha da cobra que anda por aí é tão claramente banha da cobra que é quase impossível sermos enganados. Segue-se uma lista de alguns dos exemplos mais estúpidos de banha da cobra que andam por aí:

Comprimidos brasileiros 


O que é que fazem? Não sei. Conheço apenas a sua nacionalidade e o facto de serem apresentados com a imagem de um rabo de mulher em boa forma, ao som de samba. E é só isto. Nem se dão ao trabalho de colocar um "cientista" de bata a emprestar a sua credibilidade (conferida principalmente pelo uso de bata) à substância, nem uma fotografia de "antes" e "depois", nem sequer um mau actor/celebridade em decadência a atestar a qualidade do produto. É que nem os podemos acusar de publicidade enganosa, já que tanto quanto sabemos os "comprimidos brasileiros" podem ser apenas rebuçados para a tosse ou, visto que o rabo é a sua imagem de apresentação, medicamentos para a flatulência.

Pulseiras PowerBalance TM


 Supostamente serviam para melhorar o nosso "equilíbrio" e foram vendidas aos milhões. Havia celebridades a usá-las (Cristiano Ronaldo, Eládio Clímaco, Cavaco Silva, Ruy de Carvalho, Fernando Pessoa, etc.). E, por isso, toda a gente queria uma! Têm pelo menos o mérito de se terem dado ao trabalho de reunir pseudociência para a apresentar: os iões de não sei quantos fabricados por cientistas da NASA (esses profissionais que de dia lançam satélites para o espaço e à noite, revoltados por verem tantas pessoas aos trambolhões pela rua, lutam incansavelmente contra esse flagelo que é a falta de equilíbrio). Só não percebo como é que depois destas pulseiras não arranjámos todos emprego como equilibristas no Cirque du Soleil.

Feiticeiros africanos 


São os meus preferidos! Principalmente pela abrangência da sua actuação: saúde, amor, dinheiro, sucesso, ciúme, cancro, constipações, conflito israelo-palestiniano. Resolvem tudo! Autênticos moços de biscate da banha da cobra. Mas serem generalistas é, também, a sua fraqueza. Duvido que ganhem o suficiente para pagar os tinteiros da impressora que utilizam para imprimir os flyers que colocam nos limpa pára-brisas dos carros. Nunca ninguém, ao ler um daqueles papelinhos manhosos escritos em Comic Sans MS, terá pensado:

"Perfeito! Vem mesmo a calhar... É da maneira que trato deste cancro do pâncreas e ainda lanço um feitiço maléfico ao meu chefe! E como já não preciso de ir à sessão de quimioterapia para a semana posso começar a dedicar-me a sério à minha nova carreira de equilibrista que começou há 15 minutos quando comprei esta pulseira PowerBalanceTM nos chineses."

É que o esquema é tão mau que nem os podemos acusar de aproveitarem o desespero das pessoas para ganharem dinheiro. É óbvio que uma pessoa desesperada está mais vulnerável a estas coisas, mas esta abordagem é tão absurda que chega a ser ofensiva! Trata-se muito simplesmente de um desperdício do sofrimento das pessoas, como diriam os pastores da IURD. Esses sim, autênticos especialistas na transformação de sofrimento alheio  em templos sumptuosos e orgias com prostitutas.

Gurus do Empreendedorismo 

São a nova moda no mundo da banha da cobra. Utilizando chavões como "Faça o seu negócio", "Torne-se rico", "Realize os seus sonhos" e "Seja o CEO de si próprio" tentam convencer-nos que o nosso sucesso só depende de nós. No fundo, a filosofia do empreendedorismo trata-se muito simplesmente de alguém ganancioso utilizar a ganância e/ou desespero de outras pessoas contra elas próprias (com o efeito pernicioso de as fazer sentir culpadas pelo seu próprio insucesso, se o sucesso depende delas, também o fracasso). Eu diria que nunca, NUNCA, um grande empreendedor terá ido a uma conferência de empreendedorismo. Vou mais longe, diria que há uma correlação positiva entre frequentar conferências de empreendedorismo e insucesso. Algum dia o Steve Jobs seguiria os 7 passos para o sucesso delineados com afinco por um destes grilos falantes? E aquelas dinâmicas e grupo? Quantas grandes ideias terão surgido depois de alguém mostrar que confia nos outros deixando-se cair nos braços de um grupo de desconhecidos?

"EUREKA! Agora que confio nos outros já posso mudar o Mundo através desta minha grande invenção que é... deixa-me pensar... o carro movido a água do mar! Como é que não tinha pensado nisto antes?"

Para além de a indústria petrolífera nunca permitir isto (confiem em mim, eu sei do que falo, tenho um carro movido a Chocapic encostado na garagem), as grandes ideias não surgem assim. É uma simplificação de um processo complexo que envolve trabalho, criatividade, muita sorte e, espantemo-nos, toda uma base de conhecimento e de investimento prévia facilitada pelo Estado (a némesis dos empreendedores). Vamos ser sérios, qual a probabilidade de sucesso de alguém que ambicione verdadeiramente ser o próximo Bill Gates? Bem inferior à de um cromo dos Ídolos que ambicione ser o próximo Mick Jagger! Mais vale acreditar com muita força que vai ganhar o Euromilhões. Pode ser que o consiga, não por acreditar com muita força mas porque teve uma sorte descomunal.

Uma economia sustentável não vive do empreendedorismo, mas falar de economia não motiva as pessoas. É chato e pouco convincente, principalmente quando não se gesticula e fala muito alto e não se contam histórias de "sucesso" (post it, descobrimentos, etc.) e não se utilizam posters em que modelos masculinos de fato e gravata voam sorridentes como Super Homens.


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