quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A arte de escolher melões: Uma farsa coreografada

Gosto de ver as pessoas a escolherem melões no supermercado. Aparentemente estão numa demanda pelo melão perfeito. Mas, no fundo, o que eu acho é que querem transmitir às pessoas que estão atrás deles na fila (sim, já apanhei fila em frente aos caixotes dos melões) que por mais que procurem não vão encontrar o melhor melão daquele conjunto de melões. Na melhor das hipóteses conseguem levar para casa o segundo melhor.

Também conseguem fazer com que pessoas como eu se sintam culpadas por escolherem o primeiro melão que lhes aparece à frente. Já dei por mim a apalpar melões só para não ser ridicularizado pelo meu estatuto de leigo na arte da selecção de melões. Faço um ar entendido, apalpo uns melões, abano-os um bocadinho, dou-lhes uma pancadinha e encosto-os ao ouvido. Não sei exactamente o que espero ouvir de dentro de um melão. Suponho que se ouvisse um bebé a chorar, um guitarrista virtuoso, o mar ou música techno poderia ignorar esse melão. Apesar de tudo, procurar o melão menos barulhento é sempre uma boa regra na escolha de melões. Isto é um facto e faz com que "ouvir o melão" seja a parte mais coerente do meu procedimento. Ninguém quer melões barulhentos! É um melão que estamos a escolher, não um fogo de artifício! Depois deste procedimento inventado escolho o terceiro melão que apalpo/ouço.

Por mais respeito que tenha pelos seleccionadores de melões, acho que 98% deles são uma fraude como eu. Não querem ficar mal e entram nessa missão estúpida de apalpar o máximo de melões possível antes de escolherem o felizardo que vão comer à sobremesa. Os restantes 2%, que têm mesmo o dom de ao apalpar um melão saberem o que se passa lá dentro, comem sempre melões deliciosos mas acabam por ser confundidos com aldrabões como eu.

O lado negativo desta farsa é que estou convencido de que a principal causa para a existência de melões maus é o facto de eles estarem sempre a ser apalpados. Aquilo não pode fazer bem à fruta. Não é só a palpação (que, por si só, é uma espécie de assédio), é o sentimento de rejeição.

"Tu apalpaste-me, deste-me a entender que tínhamos uma relação especial e trocaste-me por outro!"

Já comi alguns destes melões depressivos e, apesar de serem gratos por os termos escolhido, têm um lado negro e uma bagagem que é difícil de digerir. E ai de quem diga a uma fatia de presunto que a vamos emparelhar com um melão destes:

"Tenho os meus próprios problemas! Não estou para aturar os dos outros!"

Daí que acho que era boa ideia começarem a propagar o mito de que é possível apanhar uma doença grave através do toque em melões desconhecidos. Estou farto de apalpar melões só para não ficar mal perante todos esses especialistas em fruta que andam pelos supermercados. Gostava de os ver a terem que pôr preservativos nas mãos antes de apalparem um melão.


Se fizerem like nesta página ganham o poder de comunicar com morangos através de telepatia. É um poder que apesar de impressionar não tem grande utilidade prática. Os morangos são comunicativos mas não são muito interessantes, disfarçam a sua superficialidade com uma presunção extremamente irritante e com um cinismo e ironia forçados. Os morangos são hipsters. No outro dia houve um que me disse que tinha deixado de gostar dos Arcade Fire quando ouviu uma banana a cantarolar uma música deles. Que palhaço! Tive de o comer só para o calar e nem me apetecia morango. Ao falar com morangos percebemos que eles têm uma espécie de consciência, mas não deixam de ser fruta e a fruta faz bem à saúde.
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