sábado, 10 de maio de 2008

A incrível saga de Celestino das moedas


O Celestino tinha uma loja da qual era único cliente. Todos os dias se levantava às 7 e 30 para trabalhar e procurava estar sempre bem arranjado e bem disposto para a sua clientela.

O Celestino vendia toda uma variedade de produtos que podem ser catalogados numa categoria: moedas de 5 cêntimos. O cliente chegava à loja com uma moeda de 5 cêntimos e comprava outra moeda de 5 cêntimos, quantas mais moedas de 5 cêntimos tivesse mais moedas de 5 cêntimos poderia comprar. Seguidamente Celestino vendia as moedas de 5 cêntimos que recebia a outra loja especializada em moedas de 5 cêntimos da qual também era proprietário. Tendo em conta o seu negócio seria de esperar que Celestino fosse o maior coleccionador de moedas de 5 cêntimos do Mundo, mas apenas possuía 3. A que ia usar como cliente, a que vendia na primeira loja e a que vendia na segunda loja.

O negócio corria-lhe de feição e já pensava num franchising, abrir mais meia dúzia de lojas até concretizar o seu objectivo de ter uma loja em cada capital de Distrito, incluindo Bragança. A sua utopia era chegar, um dia, às Honduras, o sítio no Mundo onde há uma maior procura de moedas de 5 cêntimos. No entanto, estragaram-lhe o esquema. Alguém abriu uma loja de 10 cêntimos. O coração de Celestino ficou destroçado, pela infelicidade de o seu negócio estar em risco e por um enfarte do miocárdio que o obrigou a 3 meses de internamento.

De facto, a loja de 10 cêntimos roubou toda a clientela de Celestino visto que esta não só trocava moedas de 10 cêntimos (mais douradas, vistosas e saborosas quando acompanhadas de um bom vinho tinto) como trocava moedas de 5 cêntimos, desde que juntas somassem os 10 cêntimos necessários para a loja aceitar fazer o negócio com o cliente em questão.

- Mas o que vou fazer agora? A minha vida está destroçada e está um péssimo tempo para a prática do Windsurf… - disse Celestino ao seu cão Jovalocskymsklov, que apesar de não ter respondido, deu a entender através do seu olhar e da sua irónica gargalhada que, para ele, o sentido metafísico da questão anulava toda as hipóteses viáveis de executar devidamente um salto mortal encarpado de uma falésia na praia de Peniche.

Celestino lembrou-se então que poderia processar o dono da loja de 10 cêntimos por se ter aproveitado de uma ideia que era sua, sem sequer se ter dado ao trabalho de lhe oferecer uma singela pancadinha no rabo. Recorreu então a um advogado, de seu nome Leonel Rascolnicão, que era conhecido por usar peruca em tribunal, por ter mandado um coice a um juiz quando este lhe pediu para, por favor, parar de lhe chupar o dedo grande do pé e por beber mais absinto que Fernando Pessoa nos seus dias bons. Dirigiu-se ao seu escritório que ficava logo ao dobrar da esquina, o que, devido a esta ainda não estar dobrada, lhe demorou cerca de 10 horas a fazer com a ajuda de 10 elefantes de carga.

Ao entrar no escritório de Leonel Rascolnicão, Celestino ficou agradavelmente surpreendido com a arrumação deste visto que tudo o que eram papéis e processos estavam organizados apenas numa única pilha, o que fazia com que apresentasse ligeiras semelhanças com o Empire State Building num dia de tempestade. No entanto, ao bater a porta Celestino fez ruir toda aquela pilha de documentos, o que levou a que tivessem que ser desencarcerados por cinco corporações de bombeiros voluntários de terras começadas pela letra V.

Foi só depois do desencarceramento e de 5 semanas de recobro num Spa de luxo em Estarreja que Celestino finalmente conseguiu reunir-se com o seu advogado.

- Boa tarde, senhor Dr.! – cumprimentou Celestino o seu advogado antes de levar com um ferro de engomar ligado no meio da cara.

- Isto é por ter derrubado a minha pilha de documentos! Agora vou ter que recomeçar tudo de novo, são 15 anos de trabalho!

- Sim, senhor. É merecido… - disse Celestino em falsete enquanto descolava o ferro da sua cara que parecia estar a derreter-se como cera de uma vela.

- Diga então o que é que o traz aqui, minha querida. – perguntou o advogado num tom mais simpático, sorrindo face aos esforços de Celestino que procurava retirar o ferro da sua cara sem danificar demasiado os seus belos e volumosos lábios.

- Eu queria processar uma loja…

- A IKEA? Esses bandidos venderam-me um armário de 20 euros e, neste momento, o orçamento da empresa de construção civil que contratei para o montarem já derrapou para os 100 milhões de euros! É uma vergonha, até porque queria construir um aeroporto no meu quintal e já não o vou poder fazer, vou ter que me limitar ao TGV entre a porta da minha cozinha e a latrina.

- Compreendo perfeitamente mas para já não quero processar a IKEA, quero processar a loja dos 10 cêntimos… não sei se ouviu falar…

- Claro que sim… Fiz lá um óptimo negócio no outro dia em que com 3 moedas de 2 cêntimos e 4 moedas de 1 cêntimo consegui uma moeda de 10 cêntimos… Fui todo contente para casa e obriguei a minha mulher a matar um cabrito para cozinhar ao jantar! Não é todos os dias que se fazem negócios destes! Pena foi que afinal aquilo não era um cabrito e levei uma carga de porrada de uma idosa, que era dona do caniche e que me deixou com este defeito na fala, que me impede de pronunciar correctamente o “h” mudo. Mas quer processá-los porquê?

- Porque roubaram-me a ideia.

- Isto está ganho, só tem que se deslocar à polícia para confessar o homicídio daquelas duas prostitutas e respectivas ovelhas em Ermesinde no ano passado…

- Mas eu nunca estive em Ermesinde…

- Não faz mal… É imprescindível fazê-lo se quiser ganhar o caso… As autoridades são muito mais tolerantes para quem confessa os crimes… Depois disso a questão da loja está no papo…

- OK! Sendo assim, vou fazê-lo… Sabe que tipo de pijama é que é mais aconselhável na prisão?

- Os meus clientes costumam preferir de flanela, mas não se esqueça da abertura para o rabo…

- Claro que não!

E foi assim que Celestino foi parar à prisão, onde tem um legítimo negócio de troca de peúgas, do qual é o único cliente…

Basta! Não me apetece continuar mais este disparate! Se quiserem continuem a saga de Celestino das moedas… Eu desisto!

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