segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Bombástico: notícias de família



Recebi esta carta do meu primo Juan José Ramirez de Gallardo III. Ele é das FARC mas gosta de dar uma perninha na Jihad no Afeganistão para "desentorpecer os ossos". Iria jurar que já tinha morrido mas, finalmente, tive notícias dele:

Caro Sérgio,

Como já vem sendo hábito resolvi dar um saltinho à Bienal de armamento no Abu Dhabi. É a minha bienal preferida, logo a seguir à Bienal da Droga em Bogotá, à Bienal da Corrupção em Harare e à Bienal dos Melões em Almeirim.

"O que é que droga, armas e corrupção têm a ver com melões?"

Nada. Posso ser um facínora e gostar de melão com presunto antes de uma matança á moda antiga, não posso? Obrigado!

Adoro o ambiente criado em torno desta Bienal em que ditadores de pequenos países, guerrilheiros de pendor marxista, ultra-nacionalistas, mercenários, traficantes de droga, mafiosos, fundamentalistas islâmicos, taxistas entre outros maltrapilhos se juntam em harmonia para apreciar aquilo que mais os une: a violência pura e dura. Não há nada mais bonito do que ver um neo-nazi abraçado a um guerrilheiro Ruandês em puro êxtase perante a emoção da apresentação de uma nova anti-aérea. São impagáveis as suas caras de felicidade, enquanto imaginam a próxima aldeia que vão massacrar ou o próximo assassinato político.

São estas pessoas que, de Kalashnikov, na mão escrevem a nossa história. São o "tudo perdido" da célebre constatação: "isto está tudo perdido". São o "alguém" da interrogação: "como é que alguém pôde fazer isto?". São o "filho da puta" da expressão: "Quem foi o filho da puta que chacinou a minha família?". São um grupo de tipos castiços, com queda para a bebida que só quer passar um bom momento. Há quem diga que são perigosos... Eu acho que são simpáticos... E danados para a brincadeira...


Enquanto passeava pelo certame, um emocionado ditador dirigiu-se a mim e, embargado pela emoção, descreveu-me minuciosamente o que é que as sua recém adquirida bazuca faria ao seu principal opositor. São estas pequenas coisas, como a felicidade estampada no rosto deste pequeno homem, que fazem com que a vida valha a pena.

Por azar dele, o opositor que ele pretendia desfazer aos bocadinhos tinha-me pago uns trocos para o executar. Foi logo ali. Ao menos morreu feliz.


Esta bienal não vale apenas pela oportunidade de conhecer as últimas novidades na área do armamento. Vale pelas demonstrações. Em que outra ocasião teríamos a oportunidade de disparar um míssil teleguiado contra uma vaca? Em nenhuma, visto que jamais gastaríamos munições tão caras numa vaca. Mas acreditem que é um espectáculo fantástico. O "esfrangalhar" da vaca, como nós lhe chamamos, é um espectáculo único, muito diferente do "esfrangalhar" do ser-humano (é mais chicha) e é impagável a chuva de bifinhos de picanha na plateia, que se sucede a cada demonstração. Os clientes mais habituais já levam um pratinho com arroz, feijão preto e farofa para acompanhar esta picanha voadora que, se tem vindo a transformar numa especilidade da Bienal de Armamento. Devido à potência do armamento usado este ano estava bem passada demais para meu gosto, mas ainda assim é um espectáculo imperdível!

Impagável também é a oportunidade que esta bienal nos proporciona para a troca e partilha de conhecimento. É a única maneira que temos de sair dos nossos covis e aprender com os maiores peritos mundiais em áreas como a tortura, a lavagem cerebral, técnicas de manipulação da opinião pública ou falsificação de resultados eleitorais mesmo nas barbas dos inspectores da ONU. Saímos de lá pessoas diferentes e ansiosos para aplicar todas as novas técnicas que aprendemos. Quantas e quantas vezes tive eu de me conter para não começar a torturar o indivíduo que se sentou ao meu lado no avião? Eu sei que me percebes... Isto da violência é uma coisa de família...

Enfim, escrevo para te dizer que está tudo bem. Jamais me esquecerei da família e como ouvi dizer que estavas desempregado venho pôr-me à disposição para te arranjar qualquer coisinha para fazer. Em tempos de crise não há melhor negócio do que o da violência por isso podes contar comigo para te abrir portas, nem que seja à bomba! Envia-me o teu Curriculum Vitae que, não tarda nada, dizem-te alguma coisa. Ouvi dizer que os antigos dirigentes associativos têm muita saída neste negócio.
Manda cumprimentos aos teus pais!

Um grande abraço e três beijos na face deste teu primo que te adora,

Juan José Ramirez de Gallardo III aka "El Portugués"
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