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sexta-feira, 6 de maio de 2011

A conversa mais irrelevante de sempre


Aqui há uns tempos estava a passear, descontraidamente, numa rua deserta. E ouço uma voz atrás de mim.

- Olha! Desculpa lá...

Olhei para trás, um tipo completamente aleatório chamava alguém. Como não havia mais pessoas à minha volta, era muito provável que essa pessoa quisesse mesmo falar comigo.

Eu não tenho nada contra pessoas até porque a maior parte dos seres com quem interajo são pessoas. E dessas interacções, por vezes, acontecem coisas boas. Se não existissem essas interacções, perderíamos tudo aquilo por que vale a pena viver neste mundo... Outras vezes acontecem merdas que gostaríamos que não acontecessem. Quem já foi abordado por testemunhas de Jeová sabe do que estou a falar. E ser abordado por alguém desconhecido na rua não costuma ser um bom prenúncio. Tudo pode acontecer. Um assalto, divulgação de novas religiões, inquérito, solicitação de horas, assuntos relacionados com droga, encontrar o amor da nossa vida. Todas as hipóteses são válidas, mas umas são mais prováveis que outras. Principalmente as hipóteses dentro do campo que vai do muito negativo ao neutro.

Parei e o homem veio ter comigo. Não deu para fugir, nem para ignorar... O embate ia mesmo acontecer. Restava esperar que não me ocupasse muito tempo para eu o poder esquecer e seguir com a minha vida que, pode não ser perfeita, mas tinha até aquele momento um grande aspecto positivo, ele não fazia parte dela. Só que ele, naquele momento, sem eu lhe pedir absolutamente nada, aquela pessoa decidiu que isso ia acabar. Ele ia entrar na minha vida.

Sobre a sua aparência, lembro-me apenas que tinha uma cabeça com olhos, nariz e boca, pelo menos um braço, duas pernas e tudo o resto que seria de esperar que uma pessoa tivesse. Não tinha nada que o destacasse como cabeça de atum, cornos ou uma semelhança incrível com uma celebridade (como por exemplo o actor brasileiro Paulo Betti). O que é pena, porque assim poderia sempre tirar algo desta interacção: uma história.

O que não é muito, mas no mundo em que vivo uma boa história para partilhar pode tornar-me o herói da noite no meu grupo de amigos.

- Sabem com quem falei hoje? Com um sósia do actor brasileiro Paulo Betti!
- Espectáculo! Mais uma rodada em tua homenagem. Tens sempre as histórias mais incríveis!

Ocuparia pelo menos um capítulo da minha autobiografia. Mas, infelizmente, a pessoa em questão era um gajo médio e ninguém vai contar uma história sobre um gajo médio.

- Uma vez falei com um tipo absolutamente normal.

Isto não é história.

A não ser que...

...esse tipo absolutamente normal se tenha dado ao trabalho de me abordar, em pleno dia, numa rua deserta, para me dizer uma das coisas mais estúpidas que uma pessoa alguma vez disse a outra (pelo menos desde que há registo)...

- Essa t-shirt... – disse-me ele. Ah! Eu tinha uma t-shirt da banda punk Ramones - ...é dos Ramones.
- Sim... – disse eu.
- Uma vez ouvi-os e eles não são grande coisa, pois não?

A sério? Não gostas de Ramones? E decides ter essa conversa com uma pessoa sobre a qual a única coisa que sabes é que gosta o suficiente de Ramones para possuir e usar uma t-shirt dessa banda? Se precisavas mesmo de manifestar a tua opinião sobre uma banda que só ouviste uma vez podias ter escolhido entre os milhares de pessoas com quem te cruzas que estão a usar outro tipo de t-shirts (há vários tipos de t-shirts: do Benfica, pólos da Lacoste, Hello Kitty, etc.). Podias até ter-me abordado num dia em que não estivesse a usar essa t-shirt. E aí teríamos uma conversa constrangedora sobre os Ramones. Uma conversa do tipo "não percebo porque me vieste dizer isso, deves ter problemas, vou fazer um comentário, sair de fininho e esperar nunca vir a ter um filho como tu". Mas não podias aguentar, não era? Há quanto tempo é que não conseguias dormir por causa disso? Querias um debate?

“Se há duas coisas que eu tenho a certeza nesta vida é que os Ramones não são nada de especial e que alguém tem mesmo que saber que é essa a opinião que tenho deles... Depois disto já posso morrer em paz..."

O que é que esperavas que eu te dissesse?

“Tens razão. Não prestam. Eu tenho a mania de usar t-shirts de bandas que não gosto porque acho que isso é a melhor maneira de mostrar ao Mundo o quanto não gosto delas. Digo-te uma coisa: se também comprares uma t-shirt de Ramones, podemos fundar um clube dedicado ao tema "Não gostar de Ramones". Olha, até podemos formar um casal, visto que temos tanto em comum. Queres casar comigo? Esperei toda a vida para te conhecer. Como é que te chamas? Não interessa! Vamos fazer amor!”

Qual foi o sinal que eu te dei que te levou a tomar a decisão de ter essa conversa comigo? Viste-me a existir, a respirar e a andar e, nesse momento, pensaste que eu tinha que ouvir umas verdades.

Como é que é o teu dia típico? Das 8 às 10 levas o teu carro a uma concentração de motards e dizes-lhes que andar de carro é bom, mais seguro, amigo do ambiente e confortável e que as motas são para pessoas irresponsáveis que têm complexos com o tamanho do seu pénis. Das 10 à hora de almoço estás à porta da Igreja perguntar às pessoas que saem da missa se acreditam em Deus e a ficar surpreendido quando elas te dizem que sim. Passas a tarde a dizer a toxicodependentes que a droga é muito sobrevalorizada. E à noite vais ao Estádio da Luz mostrar a tua incredulidade aos adeptos de futebol por eles não partilharem a tua opinião de que o desporto que elas gostam consiste apenas em 22 homens a correr atrás de uma bola. Se te perguntarem o que é que fazes na vida, o que é que respondes? Que a tua profissão é ter o máximo de conversas que não levam a lado nenhum?

Havia maneira mais explícita de mostrar que tenho uma opinião favorável sobre os Ramones do que usar uma t-shirt com a palavra Ramones? Mesmo assim precisavas de confirmar? Se visses um tipo com um cartaz a apelar à morte dos bielorrussos ias perguntar-lhe o que é que ele achava sobre a Bielorrússia? Se consegues interpretar sinais explícitos dessa maneira imagino o que é que fazes com sinais subtis. Deves fazer muito sucesso com as mulheres. Quando elas dizem que não gostam de ti, geralmente não gostam mesmo. A dificuldade em interpretar esses sinais subtis (sim, porque não há nada mais subtil do que “não”. Imagino que mesmo mulheres com t-shirts com a tua cara seguida das palavras "este gajo é merda" achas que tens hipóteses) pode tornar-te um violador. E depois, o que vais dizer no tribunal?

- Quando ela disse “não”, eu pensei que fosse “sim”. O Meritíssimo sabe como é que é, não sabe?
- Não... E condeno-o a pena máxima!
- Isso quer dizer que estou livre?

Um conselho que talvez venha a salvar a vida a alguém. Quando uma pessoa chora de dor é porque lhe dói alguma coisa. Nesse momento, talvez seja mais sensato parares.

Já não tenho mais nada a dizer sobre ti. Mas o Benfica perdeu ontem e precisava de descarregar em alguém. Não sei porquê, lembrei-me de ti quando tive esta conversa com uma pessoa:

- Então? Está tudo bem?
- Não...
- Porquê?
- O Benfica perdeu...
- OK! Mas e contigo, está tudo bem?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O elo perdido entre "Voltei, voltei" de Dino Meira e "Vem Devagar, Emigrante" de Graciano Saga



A vida do emigrante português foi sempre uma temática muito explorada pela música popular portuguesa. A ideia romântica de um povo em êxodo, espalhado por países ricos a exercer profissões de baixo estatuto, com grandes dificuldades e espírito de sacrifício tem alimentado vários artistas, mostrando-nos que o romantismo, embora bonito, nem sempre é fácil de digerir. E provoca azia.

O momento do regresso à pátria ainda que fugaz provoca todo o tipo de emoções e é alvo de orações durante todo um ano de sofrimento. Ano que começa a 1 de Setembro e acaba a 31 de Julho. Portugal, um país de descobridores, marcado pela saudade, pelo desejo constante de regresso.

Um país de viajantes, com o coração em Portugal e o corpo num subúrbio em Paris (e podia ser Goa, Mombaça, Japão... os tempos mudam o sentimento é o mesmo). Viajantes que trocaram as caravelas por Renaults 5 em segunda mão e Roulotes.

E é esse o tema central das duas obras que analiso aqui: "Voltei, voltei" de Dino Meira e "Vem devagar Emigrante" de Graciano Saga.

Comecemos por "Voltei, voltei". Dino Meira passou fugazmente por este Mundo. Deixou-nos com apenas 43 anos, o que faz dele o Jim Morrison da música portuguesa. Não só pela qualidade lírica mas também porque Jim Morrison quando morreu tinha o aspecto de um emigrante português de 43 anos de idade (e, que eu saiba, nunca carregou um saco de cimento na vida). Será sempre conhecido pelos hits "Voltei, voltei", "Meu querido mês de Agosto", "Juli Juli Julia", "Adeus Paris, até Lisboa", "Zum zum zum", "Viver viver amar amar" e "Oh Michelle". Era possuidor de uns frondosos caracóis e a sua tendência para a repetição de vocábulos indiciava uma certa gaguez (cf. "Voltei, voltei", "Juli Juli Julia", "Zum, zum, zum" e "Viver viver amar amar").



Na música "Voltei, voltei" Dino Meira expressa um sentimento de ansiedade relativamente ao seu regresso à Terra Mãe. Dino Meira "já não suportava ficar longe" do seu lar. Já estava cansado de ser explorado, do frio do país e das pessoas, das baguetes, da Torre Eiffel, de tudo. "Tanto pediu esse milagre" que, eis que chega Agosto e toca a fazer as malas. É a hora do regresso.

E, depois de tanta ansiedade, chega a Portugal! O que, nas palavras de Dino Meira, é um "milagre". Um "milagre", repito e deixo tempo para pensar...........................................................................................................

A não ser que Dino Meira tenha regressado de França montado num unicórnio ou a bordo de um tapete voador, é bem complicado descortinar a que é que ele se está a referir quando equipara a sua chegada a Portugal a um "milagre". É este o grande enigma de Dino Meira. Qual é o seu "milagre"?

Será que o sacrifício de estar emigrado em França era tão grande que até Agosto, esse extraordinário acontecimento de 31 dias que se verifica todos os anos logo a seguir a 31 de Julho, parece obra do nosso Senhor? Parece-me que esta é a interpretação mais óbvia. Mas algo me diz que o autor de "Arrebita" e de "O Homem vestido de branco" era dado a outras subtilezas.

Não estou a ver Dino Meira, que por debaixo daquela carapinha era guardião de uma sólida e vigorosa massa encefálica, a rezar a Nossa Senhora no dia 31 de Julho para que no dia seguinte apareça 1 de Agosto e ele possa, por amor de Deus, regressar à terrinha. Ele era mais complexo do que isso. Mesmo correndo o risco de abusar de referências aos belos caracóis desta personagem, não posso deixar de afirmar que a profundidade da sua alma era de tão difícil penetração como o emaranhado dos seus caracóis (reza a lenda que os caracóis de Dino Meira possuiam o dom da imunidade aos piolhos. Eram tão labirínticos que estes morriam à fome antes que pudessem degustar o couro cabeludo do artista). Mas isso não me deteve. O desafio era grande mas posso anunciar que, depois de muita reflexão e de noites perdidas a ouvir em loop esta obra emblemática da música produzida por homens brancos que usam afro, consegui quebrar o enigma de Dino Meira, ou como este é conhecido em meios mais eruditos, o Enigmeira.

A chave para a explicação do "milagre" está no refrão, que todos trauteamos com agrado mas a cuja densidade poucos prestam atenção:

"Voltei, voltei, voltei de lá.
Ainda ontem estava em França e agora já estou cá"

Pois, o grande "milagre" de Meira era ter conseguido chegar vivo depois de andar que nem um Fangio pelas estradas de três países e pelos Pirinéus. O sofrimento era muito, as saudades ainda mais. E é o peso de tudo isto no acelerador que fez com que o emigrante ontem estivesse em França e hoje em Portugal. E isto com quase 2000 km no bucho é milagroso.

Segundo o Google Maps, hoje em dia é possível fazer a viagem Paris Lisboa em 16 horas e 26 minutos. Mas muito mudou desde os anos 80, em termos de parque automóvel e de qualidade das estradas. E quando ouvimos esta música não pensamos num BMW a circular numa auto-estrada, pensamos num Renault 5 com 8 ocupantes a circular numa estrada nacional, com o tejadilho cheio de bagagem e paragens ocasionais para emborcar vinho tinto com gasosa. Fazer França-Portugal nestas condições em 24 horas é milagre, como nos diz Dino Meira. E é milagre que tanto emigrante tenha sobrevivido a esta tentativa de genocídio musical. Ainda hoje fico fascinado com a taxa de sobrevivência de viagens entre França e Portugal com esta cassete no auto-rádio.

Esta constatação levou a que um obscuro, mas não menos brilhante, artista surgisse para salvar os nossos emigrantes de uma morte na estrada.



Esse artista é Graciano Saga, autor do hit "Porque choras, criancinha?", que inaugurou todo um género musical que pode ser classificado como goth pimba. Este vem criar o antídoto para "Voltei, voltei" (completando a díade da Segurança Rodoviária da música Pimba). Esse antídoto é "Vem Devagar Emigrante". Já muito foi dito sobre esta anúncio de serviço público em forma de música popular, por isso vou contar a versão resumida.

A exemplo do apelido do autor, esta música narra a saga de um emigrante sem nome, que fazia uma viagem entre a Alemanha (país que transpira sensatez e racionalidade, ao contrário da França que transpira suor através de axilas peludas) e Portugal, possivelmente a ouvir Dino Meira, com o objectivo de visitar o seu pai que estava às portas da morte. O pathos ditou que o emigrante acabasse por falecer antes do seu pai, bem como a sua mulher e o seu "filhinho" numa estrada em Espanha (ou talvez em Benavente, fica a dúvida) na sequência de um choque frontal. As causas apontadas são o cansaço de horas de viagem e, como o uso da palavra "devagar" no título parece indicar, o excesso de velocidade. Esta tragédia culminou com a morte por desgosto do "paizinho" ao saber da notícia.

Incrivelmente toda a gente morre nesta música, menos o narrador que fica aqui para avisar todos os emigrantes dos perigos da estrada e do risco que correm se se continuarem a sujeitar às mensagens subliminares de Dino Meira. "Há tempo para cá chegar" diz Graciano.

Estas duas músicas surgem-nos como o yin yang da música pimba de prevenção rodoviária. Enquanto Dino Meira tenta puxar os emigrantes para uma morte certa ao volante, Graciano Saga pretende incutir regras e incentivá-los ao cumprimento do código da estrada, no que diz respeito ao excesso de velocidade e à necessidade de paragens de descanso, algo essencial em viagens longas. Para citar o velho ditado citado por Graciano Saga: "Mais vale um minuto na vida do que perder a vida num minuto". E eu acrescento este velho ditado: "Não há país mais belo que Portugal, principalmente se não estivermos estropiados devido a um choque frontal".

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terça-feira, 3 de março de 2009

Só para não dizerem que eu não escrevo nada...

Não que tenham ido para a porta de minha casa de caçadeira na mão a exigir explicações por eu não ter escrito nada... Embora deva admitir que gostava de ter esse tipo de atenção da vossa parte... Porque é que ninguém vem para a porta de minha casa de caçadeira? É algo para vocês ficarem a pensar.

Às vezes um blogger precisa deste tipo de mimos para continuar... A motivação não vem só de dentro de nós, estes pequenos incentivos também são muito importantes...

Qualquer pessoa que tenha um blog sonha, um dia, aparecer nos meios de comunicação social por ter sido baleado por uma horda de leitores enfurecidos (e escusam de negá-lo porque já estudei profundamente esta questão)... É completamente legítimo pensar assim! Em que é que o Nino Vieira é melhor do que nós? Já começo a deixar de acreditar que isso venha a acontecer mas ainda alimento a esperança de ir a passar na rua e levar um calduce. É o mínimo que podem fazer por mim...

Deixo-vos aqui um vídeo com a entrevista mais genial de todos os tempos... Consegue ser mais hilariante do que qualquer coisa que envolva o Pôncio Monteiro! Consegue ser mais hilariante do que o Pôncio Monteiro no Bolhão de peruca loura a recitar a Odisseia em francês, vestido de texugo, enquanto dá palmadinhas no rabo a um Pinto da Costa disfarçado de castor a roer um inhame cru.

Um espectáculo que já começa a cansar. É óbvio que não deixa de ser hilariante mas, da maneira como o repetem até à exaustão já começa a enjoar um bocado. Pelo menos, já trocavam de disfarces. Gostava muito mais de ver o Pinto da Costa a levar palmadinhas no rabo vestido de babuíno... E o Pôncio Monteiro, ou melhor, o Dr. Pôncio Monteiro ficaria extremamente charmoso disfarçado de Suricate... Mas isto são gostos...



Os Sigur Ros são os maiores a dar entrevistas... Há, neste vídeo, toda uma conjugação de factores que fazem desta a melhor entrevista do início deste milénio: o jornalista, com as suas questões fechadas (que estava a pedi-las), a definição, por parte do vocalista, do dialecto que supostamente criou como "fucking bullshit", a maneira como o grupo vai validando as afirmações/questões do jornalista com simples "Sim, é isso...", a desvalorização do seu reconhecimento na Islândia (um país com apenas 300.000 habitantes)... É dos melhores momentos de embaraço que já vi!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Parabéns aos Coldplay...

...pelo Grammy de melhor canção do ano!



E já agora ao seu autor, Joe Satriani, que também merece.

Slumdog Millionaire! Ainda não vi. Mas custa-me perceber uma coisa. Se o filme anda à volta da participação de um jovem indiano no "Quem quer ser Milionário?", se o título do filme em inglês é "Slumdog MILLIONAIRE" porque raio é que a tradução do título em português é "Quem quer ser bilionário?". Será por causa dos direitos de autor? Olhem para os Coldplay! O que é que isso vale? Quando ouvi falar do filme até pensei que ele tivesse ganho o Euromilhões ou casado com o Américo Amorim. E mesmo assim a palavara "bilionário" era um bocado forçada... Toda a gente sabe que o Américo Amorim está a passar um mau bocado...

Aquele piloto que aterrou o avião no rio Hudson encontrou-se com os passageiros em dois programas de televisão... Emocionante... Ouvi dizer que no domingo à tarde vai estar a dar autógrafos na discoteca Big Cansil em São João de Vêr com o Telmo do Big Brother.

O Pedro Proença vai abandonar a arbitragem de futebol para ser júri da modalidade de saltos ornamentais para a piscina. Ele não queria mostrar o cartão amarelo a Yebda mas sim, dar a nota 10 a Lisandro Lopez... Um erro de vocação...

Fumadores frequentes de marijuana têm mais 70 por cento de risco de ter cancro dos testículos... E mais 90% de hipóteses de ganhar a Volta à França.

O Ministério da Educação propõe novo escalão para professores que não consigam categoria de titular... Chama-se "prateleira". Apenas porque "Auschwitz" tem uma conotação muito negativa.

O Ministério Público vai analisar "eventuais anomalias" às diligências efectuadas no âmbito do caso Freeport... Caso sejam encontradas as anomalias, estas diligências serão colocadas à venda, por metade do preço, no outlet que dá o nome ao caso. Grande oportunidade!

Eu, acabei de bater o record de links ao jornal Público no mesmo post... Para comemorar o feito vou colocar aqui este vídeo de Tony Carreira e amigos:



Peço desculpa por este bocadinho! E por não ter colocado a minha piada sobre a Eluana, a mulher que esteve em coma durante 17 anos... Não teria esse mau gosto... Por quem me tomam?

domingo, 21 de setembro de 2008

A música (?) de João Pedro Pais


Uma música do artista João Pedro Pais foi escolhida para tema da nova novela da TVI. Esperava mais de João Pedro Pais visto que uma pessoa que estudou na Casa Pia, o que o levou a frequentar os círculos mais restritos da alta sociedade, tem o dever de ambicionar algo mais do que fazer música para telenovelas.

Mas temos que fazer pela vida e há que dar um desconto ao João Pedro visto que, neste momento, a sua idade já não o permite frequentar os ambientes privilegiados a que estava habituado nos tempos da Casa Pia.

De qualquer maneira não podia passar indiferente ao regresso deste hino não sabe bem a quê de João Pedro Pais que a TVI resolveu reciclar, intitulado “Mais que uma vez”.
Admiro muito o processo criativo de João Pedro Pais. Partindo do exemplo da música “Mais que uma vez”, este parece consistir basicamente em fazer uma lista de palavras e juntá-las de uma maneira completamente aleatória. É então este Jackson Pollock da música ligeira portuguesa que homenageio aqui, transcrevendo e comentando a letra da sua música “Mais que uma vez”.

Mais que uma vez - João Pedro Pais


Da próxima vez, vou estar atento à tua fisgada
Encruzilhar-me na tua bancada
Ficar num canto e não me mexer.


João Pedro Pais entra em grande nesta música garantindo que vai estar atento à “tua fisgada”. Não se percebe bem a quem é que ele se está a referir. Será que ele se está a referir à nossa fisgada ou à fisgada de outra pessoa qualquer a quem ele dirige a música? Se se está a dirigir a mim não tenho nenhuma fisgada e, muito menos uma bancada onde ele se possa encruzilhar. O que é também um grande conceito, esse de alguém se encruzilhar numa bancada… Quanto a “ficares num canto e não te mexeres”, é o melhor que tens a fazer JP (posso chamar-te JP, não posso?). É a única maneira que tens de te protegeres de alguém que não goste assim tanto que estejas atento à sua fisgada… Há pessoas que não reagem muito bem a esse tipo de ameaças. Experimenta dizer isso a alguém em Nápoles...

Mais uma vez, vou seguir todos os teus caminhos
Fugir fingindo que me vês sorrindo

P'ra te fitar quando eu puder

Confesso que não percebo bem esta estrofe. Depois de nos garantir que estará atento à nossa fisgada, oferece-se para nos perseguir, para fugir enquanto finge que nós o vemos sorrindo e para nos fitar quando puder. É algo demasiado abstracto para conseguir ser percebido… É algo que nem um esquizofrénico paranóide usando um colete de forças diria… Mas dito com uma guitarra na mão e com aquela vozinha de anjo do JP até parece algo romântico… Agora que penso nisso, acho que não parece... Ao menos o colete de forças contextualizaria um pouco esta frase... Dito com uma guitarra na mão parece bem mais maluco...

Quero ser, personagem de banda desenhada
Onde me assumo numa cena errada
E em que todos me vão descobrir

Não sei exactamente que personagem de banda desenhada é que o JP quer ser… Ao que parece é uma personagem que estaria a precisar de sair do armário… O Incrível Hulk? O Tintim? O Lucky Luke? O Batman? Agora que penso nisso talvez seja o Robin, o companheiro do Batman… É o único que me estou a lembrar que poderia ter algo a assumir… Escusado será dizer que não encontro ligação às estrofes anteriores… Parece que no meio daquela maluqueira toda o João Pedro se lembrou que queria ser uma personagem de banda desenhada... Era bem pior se este se lembrasse que seria boa ideia ir passear para o shopping montado num elefante... Ao menos, o querer ser personagem de banda desenhada até pode ter o seu lado positivo, pode ser que ele se lembre de pôr uma capa aos ombros e se atire de um prédio ou que tente parar uma locomotiva com as mãos... Essas coisas que as personagens de banda desenhada costumam fazer...

Quero ficar um pouco mais dentro do teu casulo
Faço de conta, que sou teu e tu és meu assunto
Onde me entrego e tu te dás a conhecer

Depois de se encruzilhar na nossa bancada, ou na bancada de outra pessoa qualquer a quem João Pedro Pais se dirige, pessoa essa que, neste momento, deve estar bastante assustada e a quem eu aconselharia a pedir uma ordem de restrição ao tribunal, João Pedro Pais diz quer “ficar um pouco mais dentro do teu casulo”. Isto leva-nos a pensar que, se calhar, João Pedro Pais está a dirigir-se a um bicho da seda… É isso! Agora tudo faz mais sentido… Podemos dizer o que quisermos a um bicho da seda que a única coisa que ele vai fazer é construir o seu casulo, comer folhas de amoreira, fazer cocó, transformar-se numa borboleta, pôr ovos e morrer… Acho que a única maneira de esta música de João Pedro Pais fazer sentido é dirigida a um bicho da seda… É que este está-se a cagar para aquilo que o João Pedro Pais está a cantar, assim como o próprio João Pedro Pais… Acho que é uma teoria bastante plausível…

Que ninguém vá, onde vou
Nunca estás, onde estou
Que ninguém fale, de quem falou

Nunca digas quem eu sou

Este é o refrão mais espectacular da música pop portuguesa desde o “Soltem os prisioneiros” dos Delfins. Se para o refrão dos Delfins a nossa reacção era:
- Mas quê? Os pedófilos também, Miguel Ângelo? E os traficantes de droga? Então e queres que solte também o serial killer de Santa Comba Dão? OK, é na boa, todos menos o Vale e Azevedo…
Para o refrão desta música de João Pedro Pais a nossa reacção é:
- What the fuck?
João Pedro Pais começa por ordenar que ninguém vá para onde ele vai, deixando um certo secretismo a pairar no ar. A que sítios é que ele se estará a referir? Provavelmente a um sítio especial, onde ele goste de estar sozinho, para reflectir e pensar na vida e em bichos da seda… Ou então a um sítio especial da sua infância… Talvez a casa de Elvas… Não sabemos… A única coisa que sabemos é que ele não quer partilhar esse sítio com ninguém… Novamente em jeito de ordem, João Pedro Pais exige “que ninguém fale de quem falou”. Eu espero que obedeçam mesmo à ordem dele, já que se há mensagem que esta música passa é que o seu autor é menino para nos mandar uma machadada na cabeça caso não lhe obedeçamos… No entanto, não percebo a quem ele se refere, logo não há maneira nenhuma de evitar falar de quem falou… Na dúvida é melhor não falar em ninguém à beira de João Pedro Pais… Aquela ameaça final “nunca digas quem eu sou” podia muito bem ser rematada com algo do género:
- Nunca digas quem eu sou… senão eu enfio-te uma granada na boca…
Ou então:
- Nunca digas quem eu sou… ou eu amarro-te a uma cama de espinhos e obrigo-te a ouvir as minhas músicas durante o resto da tua vida…
Este JP consegue mesmo convencer-nos a obedecê-lo. Depois desta ameaça jamais direi quem ele é… jamais direi que o João Pedro Pais é um músico medíocre, um praticante de luta greco-romana razoável e, possivelmente, um esquizofrénico paranóide… Ooops!

Da próxima vez vou querer toda a tua atenção
Vou esperar que me estendas a mão
E que me deixes cair a seguir.

Nesta quadra JP descreve-nos aquilo que para ele é obter a atenção de uma pessoa. Para João Pedro Pais, o máximo que ele pode esperar de alguém que lhe dedica toda a sua atenção é que ela lhe estenda a mão e o deixe cair a seguir… Terá sido o que o Sr. Embaixador fez quando o, outrora pequeno, João Pedro fez 14 anos?

Mais que uma vez puseste à prova o teu sexto sentido
Depois dás o dito por não dito
Como eu gostava de te compreender...

Que raio de pessoa é esta a quem João Pedro Pais se dirige? Uma pessoa que por mais do que uma vez põe à prova o seu sexto sentido e, como se não bastasse, ainda dá o dito por não dito? Shame on you! Isso não se faz… Das duas uma ou pomos à prova o sexto sentido ou assumimos o que dizemos, mas fazer isto ao rapaz? Depois não admira que ele fique assim… Será que por andar a ouvir João Pedro Pais estou a ficar como ele? Em termos de coerência, este último parágrafo quase que pode equiparar-se a algo que ele diria.

Quero ser, a solução do teu problema
Participando nesse mesmo esquema
Que só tu sabes entender

Eu aqui a dizer mal do JP mas o rapaz afinar só quer resolver o problema da pessoa a quem dirige a música… Se, como tenho vindo a assumir, a pessoa a quem ele dirige a música somos nós ouvintes, eu aproveito para dizer ao João Pedro Pais que grande parte dos meus problemas estariam resolvidos se ganhasse o Euromilhões ou se ele deixasse de cantar… Se queres mesmo participar neste esquema, faz isso, que o meu problema fica resolvido… Atenção, a minha vida não é tão desinteressante que o meu maior problema seja a música do João Pedro Pais. A questão é que eu ponho-me a pensar em que é que o ele poderia contribuir para resolver os meus problemas e, de facto, a única coisa que me vem à cabeça é ele deixar de cantar… Mas não faço assim tanta questão… Só estava a ser bem educado perante tanta solicitude da parte dele em resolver os meus problemas…

Queria ter, só um pouco desse teu talento
Tiro as vogais e ponho os acentos
Estou preparado p'ro que der e vier

João Pedro, não sei a que talento te referes... Se é comigo que estás a falar não me lembro assim de grandes talentos… Eu sou muito forte a beber finos de penalty, a imitar chimpanzés e, quando era miúdo, jogava relativamente bem ao berlinde… Se te estás a referir a alguém mesmo talentoso acho que é a coisa mais inteligente que disseste nesta música. De facto, reconheceres a tua falta de talento demonstra uma grande humildade e honestidade. Reconhecer é o mais difícil, só te falta mesmo dar o passo seguinte: deixar a música. Estou contigo nessa luta! Desejo-te toda a força para conseguires concluir esse desafio profissional com sucesso!
Gostei bastante do verso que ele meteu ali no meio para rimar com talento: “tiro as vogais e ponho os acentos”. Fantástico! É a única coisa que posso dizer! Não consigo imaginar verso mais estúpido acabado em “entos” ou "ento"… Posso dar alguns exemplos:
“Fecho os olhos e conto até quinhentos”
“Fico à espera de termos muitos rebentos” “Corto o cabelo como o Paulo Bento”
“Encho um balão que depois rebento”
De qualquer maneira, nada do que eu possa inventar chega aos calcanhares de “tiro as vogais e ponho os acentos”…

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Amy Waxhouse

(lá vou eu bater outra vez na Amy mas, como não tenho mais nada para escrever, tem que ser)

Amy Winehouse vai ter a sua estátua de cera no Madame Tussauds, em Londres... Podiam esperar mais um mês ou dois e, em vez de ter uma Amy Winehouse de cera, tinham a Amy Winehouse embalsamada...

(mais uma à la Carlos Borrego...)

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Eu fui


“Eu fui”. Duas palavrinhas: um pronome e um verbo que, por si só, não significariam nada, a não ser como resposta a alguma pergunta. No entanto, antes de dizer que ontem estive no Rock in Rio, vocês já o perceberam, tal o poder deste slogan. Estive presente num dos dias “rock” do evento. Um dos únicos dias que dá algum sentido ao nome do festival, que, apesar de ter rock no nome, de rock tem muito pouco. Já para não falar do rio, outro aspecto do nome do evento que não percebo… não percebo o que querem dizer: Rio de Janeiro? Não me parece, isso é lá no Brasil… Rio Tejo? Um bocado longe e, ainda que fosse perto não faria sentido na mesma já que Rock in Rio significa Rock dentro do Rio. Implicava calçarmos todos as nossas barbatanas e vestir uns escafandros para assistir a uns concertos subaquáticos, o que até tinha piada, mas não é o caso… Rio de urina? Pronto, acho que sim… aí, o nome já começa a fazer sentido. Usar aquela consequência desagradável da concentração de dezenas de milhares de pessoas (que fazem xixi e cocó e vomitam… como os Nenucos) para dar o nome ao festival é muito audaz da parte da Organização! Não sei quem é que, da organização, achou que seria positivo baptizar o festival em honra das condições sanitárias do mesmo. Apesar de já sabermos que no final do primeiro dia do festival, vai serpentear pelo recinto um gigantesco rio de urina não é muito boa manobra publicitária… Rock in Rio!

Sei que é uma analogia estúpida, isto do nome e das condições sanitárias do festival, mas já tiveram a oportunidade de ir à casa de banho de um evento destes? Eu sei que ser homem é uma grande vantagem e, graças à nossa versatilidade anatómica, podemos alimentar o leito do Rio de urina de qualquer lado… E as raparigas? E os sólidos? Eu deixei de me sentir intimidado com filmes de terror, com idas ao cemitério à noite e com jantares com o Conde Drácula depois de ter entrado numa Toi toi. É, simplesmente, o cenário mais assustador que vi na minha vida. Um exíguo espaço de um metro quadrado, com luz suficiente apenas para nos deixar imaginar que tipo de resíduos estão à nossa volta. E, como se não bastasse, depois de se fazer o que se tem que fazer, surge uma questão: onde se lavam as mãos? Em lado nenhum! Acabámos de sair do sítio mais imundo do Universo e não temos onde lavar as mãos… E com a nossa falta de higiene podemos nós bem… Então e os outros? É inevitável pensar nas mãos de todos os milhares de pessoas que tenham entrado na Toi toi, nas mãos daquele bêbado que se empoleirou em nós durante o concerto de Moonspell, nas mãos da senhora que nos serviu a bifana, nas mãos da nossa namorada que acabámos de beijar… Apercebemo-nos que as Toi tois, devido à transmissão de germes, estão omnipresentes em todo o festival.

Agora que me apercebi que acabei de escrever mais de 1000 páginas sobre as casas de banho dos festivais, depois de escrever um post sobre flatulência no mundo das celebridades, começo a ter uma noção daquilo que me vai na cabeça, por isso vou parar por aqui e deixo o resto à vossa imaginação. Acho que já a espevitei bem… Tão cedo não vou ter mais conteúdos escatológicos neste blog! Prometo!

Relativamente ao festival em si é sempre uma experiência enriquecedora. Antes sequer de entrarmos no recinto somos revistados cerca de 5 vezes. Vão às nossas garrafas de água e tiram-lhes a tampa, o que é completamente estúpido! Se levamos garrafas de água na mochila é para o caso de termos sede. É normal que elas estejam fechadas! Vamos abri-las quando tivermos sede e a tampa é para as fecharmos quando não tivermos mais sede… É uma bela invenção, com alguns anos, mas ainda assim admirável! E o que é que os polícias fazem? Abrem-nas e deitam fora a tampa: passando-nos a mensagem de que ou as bebemos de penalty ou vamos andar com elas abertas até termos sede. E qual é o argumento para isto? “Ah, é para não atirar aos artistas”. Amigos, se eu quisesse fazer o que quer que fosse aos artistas tinha um recinto cheio de pedras à minha disposição (fiz questão de reparar nisto) e se eu fizesse mesmo questão de lhes atirar com garrafas de água fechadas eles vendiam-nas dentro do festival… OK, vendiam-nas por 2 euros o que nos causaria alguma hesitação no momento de as atirar à cabeça do baixista dos Machine Head mas a oportunidade está lá... Eu não os quero acusar de nada, longe de mim fazer juízos de valor sobre as pessoas da organização, mas será que nos tiram as garrafas para sermos obrigados a gastar 2 euros lá dentro? Mais uma vez não estou a acusar ninguém, só estou a levantar a questão…

Ainda antes de entrar no recinto somos bombardeados com publicidade. Dão-nos chiclets, porta-chaves, panfletos… Tudo material extremamente útil que acaba, invariavelmente, no chão! O que vai de encontro à mensagem social do Rock in Rio: “Ah! Temos que salvar o planeta e não sei quê porque senão fritamos todos…” (isto é uma citação do vídeo que a Gisele Bundchen gravou para o Rock in Rio que passava entre os concertos… Ora aí está uma boa ideia! Acho que a solução para salvar o ambiente seria oferecer uma Gisele Bundchen a todos os homens… Não imagino melhor incentivo! Quais benefícios fiscais para quem usa energias renováveis! A solução era ter uma Gisele Bundchen atrás de nós a avisar-nos sempre que precisamos de fechar a luz oua dizer-nos que tipo de embalagem colocamos no recipiente amarelo ou a impedir-nos de gastar tanto em aquecimento naquelas noites frias… É preciso é haver vontade política, porque se realmente quisessem salvar o Mundo era muito fácil…).

É então que entramos e percebemos que gastámos 53 euros não por causa dos concertos mas para entrar num espaço publicitário tridimensional. Acho que devia ser obrigatório colocarem a palavra “PUB” no canto inferior direito da nossa visão para podermos estar no Rock in Rio, tal é a invasão publicitária a que somos submetidos. O espaço abre às 15h para nos dar a oportunidade, a nós, que pagámos bilhete, de usufruir à vontade de toda a oferta publicitária disponível. E o incrível é que para usufruir da publicidade e recebermos os devidos brindes temos que passar meia hora em filas. É o Millenium que teve a ideia genial de oferecer Mohawks vermelhas (acho que fizeram um estudo de mercado em que descobriram que as pessoas têm uma maior preferência por bancos em que oferecem Mohawks vermelhas… será porque, com uma Mohawk vermelha, ficamos mais parecidos com o filho do Jardim Gonçalves?), é a Vodafone que tem uma pista de neve artificial em que temos que esperar meia hora para uma descida alucinante de 3 segundos numa bóia, é a zona da Toyota que tem o Nilton a dinamizar um jogo de tetris humano (o ponto alto da carreira de um humorista: dinamizar um jogo de tetris humano! Espero mesmo que tenham dado um carro ao homem…), é a Seguro Directo que dá umas bóias em forma de pato para o pessoal meter à cintura (será que é para não nos afogarmos no rio de urina? Pronto, chega de escatologia)… Concluindo, depois de uma hora na Cidade do Rock já parecemos um Pai Natal de brindes: peruca do Millenium, a bóia da Seguro Directo, t-shirt da LG, um carregamento industrial de pacotes de Trident, mochila da SIC, barrete de campino do Licor Beirão, sofá insuflável da Vodafone, lenço da CP (isto são tudo brindes verdadeiros, podia exagerar mas não o fiz… é escusado fazê-lo quando a realidade é exagerada que chegue…)… Enfim, transformamo-nos num painel publicitário ambulante! Perdemos a comodidade de quem não anda de peruca, sofá insuflável, bóia, etc. para nos tornarmos num outdoor publicitário! Um conceito genial! Nós achamos que estamos a ganhar brindes quando afinal estamos a vender-nos como painéis publicitários… Perdemos em comodidade aquilo que as marcas ganham em publicidade!

E sobre os concertos? Não há muito a dizer… Gostei muito de Machine Head! Da música que eles tocara durante hora e meia (pelo menos pareceu-me só uma música), que eles iam interrompendo de vez em quando para nos dizer quão fucking crazy e amazing nós éramos… E nós, orgulhosos, gritávamos por Portugal e dávamos sonoros “Yeahs” como se aquilo fosse o maior elogio que nos podiam dar, como se a Gisele Bundchen nos estivesse a dizer ao ouvido que nós éramos as pessoas mais sexys e com a melhor personalidade que ela conhece… É incrível como reagimos mais histericamente a um “fucking crazy” do vocalista dos Machine Head do que a um elogio da Gisele Bundchen. Seria engraçado responder a um elogio da Gisele Bundchen com um sonoro “Yeah!” na cara. Acho que ela ia gostar.

E porque diziam os Machine Head que nós somos malucos? Porque, de facto, somos malucos… Somos malucos ao ponto de, por livre e espontânea vontade, andarmos à porrada com completos desconhecidos (num ritual tremendamente homoerótico, diga-se de passagem...), correndo o risco de partir dentes, pernas, braços, só para apreciar a sua música… Os apreciadores de moshe dizem-me que essa é a melhor maneira de apreciar música pesada… Mas, é impressão minha ou passar duas horas à porrada, para além de ser uma excelente maneira de adquirir danos neuronais (ou neste caso, agravar os que já se têm), impede-nos de apreciar devidamente o espectáculo? A qualidade da música, a qualidade dos intérpretes, a mensagem passada… Estou a ser exagerado, eu próprio, depois de 15 minutos a ouvir Machine Head, já estava com vontade de partir tudo à minha volta! Acho que aquela música desliga-nos aquele interruptor no cérebro que impede que nos tornemos autênticos animais selvagens… Aquele que o Bruno Alves tem sempre desligado… O que não é mau de todo! Acho que se toda a gente fizesse moshe pelo menos uma vez por semana, este Mundo seria um lugar melhor! Temos muita raiva dentro de nós e qual a melhor maneira de libertá-la do que em desconhecidos? Assim não fazemos mal a quem nos rodeia… Acho que a solução para o problema do Médio Oriente passaria por aí… Moshes semanais…

Mas eu confesso: não sou homem, nem fucking crazy o suficiente para andar no moshe… Chamem-me cobarde, mas se conhecessem a minha história pessoal percebiam (mistério…).

Acho também piada ao facto de, num concerto, perdermos completamente a nossa identidade… Deixamos de ser o Manuel, o João ou o Alberto para sermos “o público”. E "o público" é capaz de tudo. Ou melhor, “o público” é capaz de fazer tudo o que o James Hetfield nos peça aos berros: desde cantar, gritar, gesticular furiosamente ou imolar-nos pelo fogo em nome de Alá… Enquanto somos “o público” somos capazes de tudo. E, para dizer a verdade, estar num concerto é o mais próximo que eu alguma vez estive de estar num comício do Partido Nacional Socialista… Não é que não goste, mas é poderosamente assustador… Sinto que estou rodeado de pessoas que gritariam “Morte aos Judeus” se o James mostrasse que ficaria relativamente bem impressionado se o fizessem…

Sempre preocupados com a conjuntura económica actual os Metallica cantaram “Give me fuel, give me fire, give me that wish I desire”, entrando na mente e expressando a vontade de milhares de portugueses e solidarizando-se com os nossos pescadores… Ficou-lhes bem! Até porque eu, para lhes fazer a vontade, “dei” 50 euros de fuel para os ir ver… Mas valeu a pena!

P. S. Para que ficou com a ideia que eu detestei o Rock in Rio desengane-se! Eu adorei, mesmo com a cena das casas de banho, da publicidade e da porrada… Usei este tom apenas para vos falar da minha experiência sem sair do espírito habitual deste blog! Foi um dia muito bem passado, na companhia de amigos e tive a oportunidade de ver uma das minhas bandas preferidas, a banda da minha adolescência: os Metallica! À terceira foi de vez! Finalmente consegui ir vê-los (a porcaria dos exames impediram-me das outras duas vezes) e foi memorável! Todos os artistas se aguentaram de pé e ganhei um belo barrete de campino para usar nos jogos da selecção! O que é que poderia querer mais? Ah e, a bem da justiça, até gosto de Machine Head! Não é a minha banda preferida, nem o meu género preferido, mas até são bons! E Apocalyptica e Moonspell estiveram muito, muito bem! Moonspell já esperava mas Apocalyptica é diferente de tudo o que eu já vi até agora. Quatro virtuosos do violoncelo e um baterista fazem maravilhas e mostraram-me que é possível fazer rock de todas as maneiras possíveis! O que é preciso é criatividade! O que consegui ver de Wray Gunn (visto que andava tão ocupado em compromissos publicitários distraí-me com as horas e não consegui estar lá desde o início...) foi também espectacular. O Paulo Furtado é o maior! E, apesar de sozinho ser também muito bom (Legendary Tiger Man) está muito bem acompanhado em Wray Gunn!

sábado, 31 de maio de 2008

Empreendorismo e criatividade num meio competitivo


Gosto muito de ver a Amy Winehouse a trabalhar. É uma pessoa extremamente competente na sua profissão de toxicodependente. De facto é muito raro encontrar bons profissionais nesta área mas, devido ao seu esforço, Amy atingiu um estatuto que é raro um toxicodependente conseguir atingir.

Geralmente, para conseguirem dinheiro para droga os toxicodependentes arrumam carros ou apontam seringas contaminadas com o HIV aos transeuntes. Reconheço que são métodos eficazes mas já começam a cansar. Embora estes métodos funcionem, ameaçar as pessoas (ainda que muitas vezes implicitamente) de que vão ter o seu carro riscado ou vão apanhar SIDA se não lhes financiarem o vício acaba por, a longo prazo, manchar a imagem dos toxicodependentes perante a sociedade e por estigmatizar uma classe que tanto tem lutado para se afirmar. Ao cantar umas musiquinhas para todos aqueles que lhe financiam a droga, Amy Winehouse afirma-se como uma toxicodependente empreendedora e consegue, muitas vezes, sacar mais dinheiro numa noite do que alguns drogados numa semana.

Embora a toxicodependência no showbiz não seja original (sim, esta é para ti, Tony Carreira!) e apesar de muitas vezes os espectáculos da Amy sejam tão agradáveis como ser ameaçado com uma seringa ou tão decadentes como ouvir o Quim Jecta, o drogado da minha rua, a cantar o fado e a fazer sapateado enquanto espuma da boca, é sempre bom, num país com tantos incompetentes como o nosso, ver alguém a desempenhar a sua função de forma tão exímia.

Ontem, dezenas de milhares de portugueses pagaram droga à Amy Winehouse. Tudo em nome de um Mundo melhor, é claro…