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sexta-feira, 6 de maio de 2011

A conversa mais irrelevante de sempre


Aqui há uns tempos estava a passear, descontraidamente, numa rua deserta. E ouço uma voz atrás de mim.

- Olha! Desculpa lá...

Olhei para trás, um tipo completamente aleatório chamava alguém. Como não havia mais pessoas à minha volta, era muito provável que essa pessoa quisesse mesmo falar comigo.

Eu não tenho nada contra pessoas até porque a maior parte dos seres com quem interajo são pessoas. E dessas interacções, por vezes, acontecem coisas boas. Se não existissem essas interacções, perderíamos tudo aquilo por que vale a pena viver neste mundo... Outras vezes acontecem merdas que gostaríamos que não acontecessem. Quem já foi abordado por testemunhas de Jeová sabe do que estou a falar. E ser abordado por alguém desconhecido na rua não costuma ser um bom prenúncio. Tudo pode acontecer. Um assalto, divulgação de novas religiões, inquérito, solicitação de horas, assuntos relacionados com droga, encontrar o amor da nossa vida. Todas as hipóteses são válidas, mas umas são mais prováveis que outras. Principalmente as hipóteses dentro do campo que vai do muito negativo ao neutro.

Parei e o homem veio ter comigo. Não deu para fugir, nem para ignorar... O embate ia mesmo acontecer. Restava esperar que não me ocupasse muito tempo para eu o poder esquecer e seguir com a minha vida que, pode não ser perfeita, mas tinha até aquele momento um grande aspecto positivo, ele não fazia parte dela. Só que ele, naquele momento, sem eu lhe pedir absolutamente nada, aquela pessoa decidiu que isso ia acabar. Ele ia entrar na minha vida.

Sobre a sua aparência, lembro-me apenas que tinha uma cabeça com olhos, nariz e boca, pelo menos um braço, duas pernas e tudo o resto que seria de esperar que uma pessoa tivesse. Não tinha nada que o destacasse como cabeça de atum, cornos ou uma semelhança incrível com uma celebridade (como por exemplo o actor brasileiro Paulo Betti). O que é pena, porque assim poderia sempre tirar algo desta interacção: uma história.

O que não é muito, mas no mundo em que vivo uma boa história para partilhar pode tornar-me o herói da noite no meu grupo de amigos.

- Sabem com quem falei hoje? Com um sósia do actor brasileiro Paulo Betti!
- Espectáculo! Mais uma rodada em tua homenagem. Tens sempre as histórias mais incríveis!

Ocuparia pelo menos um capítulo da minha autobiografia. Mas, infelizmente, a pessoa em questão era um gajo médio e ninguém vai contar uma história sobre um gajo médio.

- Uma vez falei com um tipo absolutamente normal.

Isto não é história.

A não ser que...

...esse tipo absolutamente normal se tenha dado ao trabalho de me abordar, em pleno dia, numa rua deserta, para me dizer uma das coisas mais estúpidas que uma pessoa alguma vez disse a outra (pelo menos desde que há registo)...

- Essa t-shirt... – disse-me ele. Ah! Eu tinha uma t-shirt da banda punk Ramones - ...é dos Ramones.
- Sim... – disse eu.
- Uma vez ouvi-os e eles não são grande coisa, pois não?

A sério? Não gostas de Ramones? E decides ter essa conversa com uma pessoa sobre a qual a única coisa que sabes é que gosta o suficiente de Ramones para possuir e usar uma t-shirt dessa banda? Se precisavas mesmo de manifestar a tua opinião sobre uma banda que só ouviste uma vez podias ter escolhido entre os milhares de pessoas com quem te cruzas que estão a usar outro tipo de t-shirts (há vários tipos de t-shirts: do Benfica, pólos da Lacoste, Hello Kitty, etc.). Podias até ter-me abordado num dia em que não estivesse a usar essa t-shirt. E aí teríamos uma conversa constrangedora sobre os Ramones. Uma conversa do tipo "não percebo porque me vieste dizer isso, deves ter problemas, vou fazer um comentário, sair de fininho e esperar nunca vir a ter um filho como tu". Mas não podias aguentar, não era? Há quanto tempo é que não conseguias dormir por causa disso? Querias um debate?

“Se há duas coisas que eu tenho a certeza nesta vida é que os Ramones não são nada de especial e que alguém tem mesmo que saber que é essa a opinião que tenho deles... Depois disto já posso morrer em paz..."

O que é que esperavas que eu te dissesse?

“Tens razão. Não prestam. Eu tenho a mania de usar t-shirts de bandas que não gosto porque acho que isso é a melhor maneira de mostrar ao Mundo o quanto não gosto delas. Digo-te uma coisa: se também comprares uma t-shirt de Ramones, podemos fundar um clube dedicado ao tema "Não gostar de Ramones". Olha, até podemos formar um casal, visto que temos tanto em comum. Queres casar comigo? Esperei toda a vida para te conhecer. Como é que te chamas? Não interessa! Vamos fazer amor!”

Qual foi o sinal que eu te dei que te levou a tomar a decisão de ter essa conversa comigo? Viste-me a existir, a respirar e a andar e, nesse momento, pensaste que eu tinha que ouvir umas verdades.

Como é que é o teu dia típico? Das 8 às 10 levas o teu carro a uma concentração de motards e dizes-lhes que andar de carro é bom, mais seguro, amigo do ambiente e confortável e que as motas são para pessoas irresponsáveis que têm complexos com o tamanho do seu pénis. Das 10 à hora de almoço estás à porta da Igreja perguntar às pessoas que saem da missa se acreditam em Deus e a ficar surpreendido quando elas te dizem que sim. Passas a tarde a dizer a toxicodependentes que a droga é muito sobrevalorizada. E à noite vais ao Estádio da Luz mostrar a tua incredulidade aos adeptos de futebol por eles não partilharem a tua opinião de que o desporto que elas gostam consiste apenas em 22 homens a correr atrás de uma bola. Se te perguntarem o que é que fazes na vida, o que é que respondes? Que a tua profissão é ter o máximo de conversas que não levam a lado nenhum?

Havia maneira mais explícita de mostrar que tenho uma opinião favorável sobre os Ramones do que usar uma t-shirt com a palavra Ramones? Mesmo assim precisavas de confirmar? Se visses um tipo com um cartaz a apelar à morte dos bielorrussos ias perguntar-lhe o que é que ele achava sobre a Bielorrússia? Se consegues interpretar sinais explícitos dessa maneira imagino o que é que fazes com sinais subtis. Deves fazer muito sucesso com as mulheres. Quando elas dizem que não gostam de ti, geralmente não gostam mesmo. A dificuldade em interpretar esses sinais subtis (sim, porque não há nada mais subtil do que “não”. Imagino que mesmo mulheres com t-shirts com a tua cara seguida das palavras "este gajo é merda" achas que tens hipóteses) pode tornar-te um violador. E depois, o que vais dizer no tribunal?

- Quando ela disse “não”, eu pensei que fosse “sim”. O Meritíssimo sabe como é que é, não sabe?
- Não... E condeno-o a pena máxima!
- Isso quer dizer que estou livre?

Um conselho que talvez venha a salvar a vida a alguém. Quando uma pessoa chora de dor é porque lhe dói alguma coisa. Nesse momento, talvez seja mais sensato parares.

Já não tenho mais nada a dizer sobre ti. Mas o Benfica perdeu ontem e precisava de descarregar em alguém. Não sei porquê, lembrei-me de ti quando tive esta conversa com uma pessoa:

- Então? Está tudo bem?
- Não...
- Porquê?
- O Benfica perdeu...
- OK! Mas e contigo, está tudo bem?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Bombástico: notícias de família



Recebi esta carta do meu primo Juan José Ramirez de Gallardo III. Ele é das FARC mas gosta de dar uma perninha na Jihad no Afeganistão para "desentorpecer os ossos". Iria jurar que já tinha morrido mas, finalmente, tive notícias dele:

Caro Sérgio,

Como já vem sendo hábito resolvi dar um saltinho à Bienal de armamento no Abu Dhabi. É a minha bienal preferida, logo a seguir à Bienal da Droga em Bogotá, à Bienal da Corrupção em Harare e à Bienal dos Melões em Almeirim.

"O que é que droga, armas e corrupção têm a ver com melões?"

Nada. Posso ser um facínora e gostar de melão com presunto antes de uma matança á moda antiga, não posso? Obrigado!

Adoro o ambiente criado em torno desta Bienal em que ditadores de pequenos países, guerrilheiros de pendor marxista, ultra-nacionalistas, mercenários, traficantes de droga, mafiosos, fundamentalistas islâmicos, taxistas entre outros maltrapilhos se juntam em harmonia para apreciar aquilo que mais os une: a violência pura e dura. Não há nada mais bonito do que ver um neo-nazi abraçado a um guerrilheiro Ruandês em puro êxtase perante a emoção da apresentação de uma nova anti-aérea. São impagáveis as suas caras de felicidade, enquanto imaginam a próxima aldeia que vão massacrar ou o próximo assassinato político.

São estas pessoas que, de Kalashnikov, na mão escrevem a nossa história. São o "tudo perdido" da célebre constatação: "isto está tudo perdido". São o "alguém" da interrogação: "como é que alguém pôde fazer isto?". São o "filho da puta" da expressão: "Quem foi o filho da puta que chacinou a minha família?". São um grupo de tipos castiços, com queda para a bebida que só quer passar um bom momento. Há quem diga que são perigosos... Eu acho que são simpáticos... E danados para a brincadeira...


Enquanto passeava pelo certame, um emocionado ditador dirigiu-se a mim e, embargado pela emoção, descreveu-me minuciosamente o que é que as sua recém adquirida bazuca faria ao seu principal opositor. São estas pequenas coisas, como a felicidade estampada no rosto deste pequeno homem, que fazem com que a vida valha a pena.

Por azar dele, o opositor que ele pretendia desfazer aos bocadinhos tinha-me pago uns trocos para o executar. Foi logo ali. Ao menos morreu feliz.


Esta bienal não vale apenas pela oportunidade de conhecer as últimas novidades na área do armamento. Vale pelas demonstrações. Em que outra ocasião teríamos a oportunidade de disparar um míssil teleguiado contra uma vaca? Em nenhuma, visto que jamais gastaríamos munições tão caras numa vaca. Mas acreditem que é um espectáculo fantástico. O "esfrangalhar" da vaca, como nós lhe chamamos, é um espectáculo único, muito diferente do "esfrangalhar" do ser-humano (é mais chicha) e é impagável a chuva de bifinhos de picanha na plateia, que se sucede a cada demonstração. Os clientes mais habituais já levam um pratinho com arroz, feijão preto e farofa para acompanhar esta picanha voadora que, se tem vindo a transformar numa especilidade da Bienal de Armamento. Devido à potência do armamento usado este ano estava bem passada demais para meu gosto, mas ainda assim é um espectáculo imperdível!

Impagável também é a oportunidade que esta bienal nos proporciona para a troca e partilha de conhecimento. É a única maneira que temos de sair dos nossos covis e aprender com os maiores peritos mundiais em áreas como a tortura, a lavagem cerebral, técnicas de manipulação da opinião pública ou falsificação de resultados eleitorais mesmo nas barbas dos inspectores da ONU. Saímos de lá pessoas diferentes e ansiosos para aplicar todas as novas técnicas que aprendemos. Quantas e quantas vezes tive eu de me conter para não começar a torturar o indivíduo que se sentou ao meu lado no avião? Eu sei que me percebes... Isto da violência é uma coisa de família...

Enfim, escrevo para te dizer que está tudo bem. Jamais me esquecerei da família e como ouvi dizer que estavas desempregado venho pôr-me à disposição para te arranjar qualquer coisinha para fazer. Em tempos de crise não há melhor negócio do que o da violência por isso podes contar comigo para te abrir portas, nem que seja à bomba! Envia-me o teu Curriculum Vitae que, não tarda nada, dizem-te alguma coisa. Ouvi dizer que os antigos dirigentes associativos têm muita saída neste negócio.
Manda cumprimentos aos teus pais!

Um grande abraço e três beijos na face deste teu primo que te adora,

Juan José Ramirez de Gallardo III aka "El Portugués"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Spot the lies

A Mona Lisa lançou-me um novo desafio e, desta vez, o objectivo é dizer 9 coisas sobre mim, sendo que 3 são mentira:

«Você diz 9 coisas aleatórias a seu respeito, não importando a relevância.Tendo de ter 6 verdades e 3 mentiras. Quem receber o Meme, deverá postar as 3 coisas que acha serem as mentiras do blogueiro que lhe passou o Meme».

Mona Lisa, se não te importas, vou traduzir:

"Dizes 9 coisas aleatórias a teu respeito, não importando a relevância: 6 verdadeiras e 3 falsas. Quem receber o Desafio (confesso que não sei bem qual é a tradução da palavra "Meme"), deverá postar as 3 coisas que acha que são mentira da pessoa (pessoa é uma boa tradução para "blogueiro", no fundo somos todos pessoas, acho eu. Com excepção do Pacheco Pereira conheço poucos blogueiros que não sejam pessoas) que lhe passou o desafio".

Este era dos difíceis já que não tenho muito mais do que 7 coisas para dizer sobre mim. Lá me esforcei e aqui vai:

1. Adoro astrologia e lanço cartas tarot.

2. Estou habilitado para ser instrutor de Yoga.

3. Sou bastante talentoso na área da culinária e presenteio, frequentemente, os meus amigos com belas refeições de comer e chorar por mais.

4. Sou um excelente dançarino e já venci campeonatos regionais de danças de salão.

5. Dizem-me frequentemente que, em termos de personalidade, sou igualzinho ao Nelson Mandela.

6. Só não sou profissional de hipismo porque me lesionei gravemente no joelho direito.

7. Tenho um familiar próximo que é protagonista de um conhecido livro.

8. Tenho 3 tatuagens e nenhuma delas é de um golfinho.

9. Passei um mês numa prisão da Turquia.

Conseguem adivinhar quais são as 3 mentiras?

Sobre as respostas da Mona Lisa já sei que aquilo do Cristiano Ronaldo é mentira. Vou continuar a apostar na das tardes da Júlia... Recuso-me a acreditar que passas uma tarde inteira a ver as tardes da Júlia por mais que digas que é verdade... A terceira é a da pepsi... Foste muito específica com isso da pepsi com gelo... Ninguém diz que bebe ou deixa de beber pepsi. Bebe-se coca-cola e pronto! Detesto quando os empregados de mesa me dizem "não temos coca-cola, só pepsi", como se eu fosse responder "Ah! Então traga-me antes um carioca de limão"... Não faz sentido nenhum! É óbvio que se quero uma Coca-cola não é por eles só terem pepsi que eu vou deixar de querer...

Passo este desafio a toda a gente que nasceu a uma 2.ª ou a uma 4.ª ou a uma 6.ª e cujo nome próprio tenha a letra "A". É bom que o façam, senão fico ofendido! E suicido-me...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O Mundo encantado dos corruptos



Este blog interrompe a sua emissão habitual para falar um pouco sobre um assunto sério que anda a massacrar a cabeça ao seu autor, ou seja, eu.

Deixo aqui estas três notícias:

Ex-presidente de associação de estudantes processada por desvio de fundos (IOL)

Ex-presidente de associação de estudantes diz-se tranquila (Sol)

Controvérsia marca eleições na Faculdade de Letras do Porto (vídeo de notícia da RTP)

Segundo os resultados de uma auditoria externa entre má gestão e. possivelmente, corrupção a Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da UP foi lesada nuns bons milhares de euros... Nada que me surpreenda, não só porque fui dirigente associativo mas porque a pessoa em questão é uma velha conhecida.

A propósito de um post em que assumi explicitamente o meu passado associativo discutiu-se a má imagem dos dirigentes associativos na sociedade e eu acabei por concordar que, de facto, essa imagem tem razão de ser. Estas notícias vêm comprovar isso mesmo. Por mais que lutemos, por muito que façamos, por mais coerentes que procuremos ser haverá sempre casos destes a manchar a reputação de quem leva o associativismo/voluntariado a sério.

Muito pior do que a destruição da imagem dos dirigentes associativos são as conclusões que podemos tirar deste tipo de coisas. Estou convencido que a minha (nossa) geração não vai contribuir com muito mais do que este tipo de escumalha para o desenvolvimento da sociedade. Não me estou a referir à menina da notícia, porque essa, em termos políticos já está queimada demais para ser mais do que Presidente da Junta. A sua inteligência também não lhe permite almejar voos mais altos (será uma bem sucedida empresária da noite e pouco mais, mas já nem digo nada)...

Se o Mundo não acabar entretanto por causa do aquecimento global ou por nos termos comido uns aos outros ou se Deus me der saudinha para chegar até lá, quando tiver 50 anos vou olhar para o passado e sentir vergonha da minha geração. Estamos a deixar para trás as pessoas com valor, em detrimento dos graxistas, dos lambe-botas e dos corruptos. A bajulação é valorizada em detrimento da coragem, da rebeldia e da genuinidade. Somos uma geração de meninos das jotas que nunca fizeram nada pela vida e que através de falinhas mansas, facadas nas costas e favores mais ou menos lícitos conseguiram subir por aí fora até se tornarem "cidadãos respeitáveis". Cidadãos que vão ter assento nos Conselhos de Administração das empresas e estabelecer contacto com as mais altas individualidades, desde o Presidente dos EUA, passando pelo papa, até à Máfia Napolitana. São esses meninos que vão conseguir ter tanto dinheiro que vão comprar a sua própria justiça, como quem vai ao Supermercado comprar latas de atum. São esses meninos que vão subindo uma escada de favores de outros meninos, num esquema pirâmide em que a base somos todos nós. São esses meninos que vão premiar outros meninos como eles e perpetuar esta selecção natural, em que só o mais forte subsiste. Sendo que, neste caso, ser mais forte significa ter uma coluna vertebral que lhe permita aguentar com todo o tipo de falcatruas ou ter um sono tão pesado que lhes permita adormecer com o peso de que se está a contribuir para uma entropia acelerada do Mundo. Eles sabem-no bem, mas não lhes importa. Só eles interessam e, comparado com isso, o Mundo é muito pequeno.

Atiram-nos todos os dias areia para os olhos, alegando que vivemos num Estado de direito democrático. Permitem-nos escolher, de 4 em 4 anos, entre vários "líderes". Independentemente da maneira "democrática" como estes foram eleitos, quer esta tenha sido através de votos de militantes arranjados à pressa e a quem alguma alma mais voluntariosa pagou as quotas via Multibanco na véspera das eleições, quer este tenha sido através de umas eleições, previamente combinadas, em que o voto é feito de braço no ar.

Vivemos numa sociedade em que, se chamarmos as coisas pelos nomes, corremos o risco de levar com um processo em cima. Se chamar corrupto a um corrupto é difamação, chamar político a um corrupto é pleonasmo.

As pessoas com valor, inteligentes, com princípios, com uma vontade genuína de fazer alguma coisa acabam por se afastar com a certeza e a frustração de que isso é algo impossível. Este sistema acaba por transformar aqueles que têm valor em pessoas frustradas, revoltadas e alienadas.

E é a esses que eu apelo. Temos que nos mexer. Sendo cidadãos activos e com impacto dentro da nossa comunidade ou do nosso emprego. Sendo sempre coerentes e não compactuando com coisas em que não acreditamos, por muitos dissabores que isso nos traga (e normalmente traz muitos). Cultivando-nos intelectualmente e emocionalmente, tornando-nos assim mais cultos e mais fortes para lidar melhor com a mediocridade que vai estar acima de nós e para defender os direitos de quem está abaixo e que não tem as mesmas oportunidades que nós.

Aos bocadinhos conseguimos mudar alguma coisa. Não podemos é ser coniventes com as tretas que nos impingem todos os dias: "Ele roubou? Claro... Toda a gente faz, ele é só mais um..." ou "Eu não vou votar porque eles são todos iguais e não acredito que mude alguma coisa". Irrita-me que haja pessoas que se acomodam na evidência de que isto está mau e que dificilmente vai mudar. Todo este sistema vive desta atitude, desta passividade destrutiva. Independentemente da sua cor, cada deputado que entre na Assembleia da República com o espírito de missão e o orgulho de que se está a contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, é um tiro neste sistema corrupto. O mal dos nossos políticos é que o nosso bem-estar é a última das suas prioridades. Um cargo na Comissão Europeia, um tacho no Conselho de Administração de uma empresa pública ou o cargo de CEO de uma empresa com que se negociou enquanto se esteve no poleiro estão bem à frente do nosso bem-estar na lista de prioridades dos nossos políticos.

Apesar de ser difícil, temos a obrigação de ser tolerantes com quem pensa de maneira diferente e aproveitar essa divergência saudável para fins construtivos. As opiniões diferentes não nos devem separar porque se estivermos a lutar para o mesmo fim, as nossas diferenças só nos vão enriquecer. Aquilo que nos deve separar de alguém é o desrespeito pelo princípio ético universal que nos guia e que é (ou devia ser) o pilar da nossa sociedade: a liberdade. A liberdade pressupõe o respeito pelos outros, a igualdade de direitos, a justiça... Será que somos livres hoje em dia? Ou a liberdade não passa de uma palavra bonita escrita num livro que ninguém respeita?

Para sermos verdadeiramente livres não podemos permitir que nos desrespeitem. E o desrespeito não é uma piada, uma boca ou um comentário desagradável. Desrespeito é quando, deliberadamente pisam os nossos princípios e tudo aquilo em que acreditamos à nossa frente. Não reagir a isso é entrar em incoerência. É ser conivente com essas atitudes, é deixarmos de ser nós próprios.

Acho que todos já passámos por isso. Eu já, pelo menos. E é das piores sensações que existem, já que, inevitavelmente, odiamo-nos a nós próprios. Temos é que aproveitar esse mal-estar para nos tornarmos pessoas melhores, porque sentirmo-nos mal com as nossas incoerências, é a prova de que ainda sentimos. É uma mensagem da nossa consciência a dizer-nos que não estamos a agir bem. É o sistema de segurança que nos permite avançar como Homens. A partir do momento em que deixamos de nos sentir mal é porque vendemos a alma. É sinal de que nos acomodámos aos "benefícios" de engolir sapos. É sinal que nos transformámos numa das rodas dentadas deste relógio distorcido, que avança apenas para destruir tudo o que nos rodeia.

Neste momento não tenho grandes esperanças na minha geração. Conheço muita gente que pode fazer a diferença. Espero que encontrem um furo no sistema que lhes permita superar os meninos das jotas. Ou então, que o sistema se auto-regule e, de um momento para o outro, tome consciência que assim não vamos a lado nenhum...

E foi um desabafo... Normalmente sou mais optimista, mas estou mesmo fodido...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Perspectivas de futuro ou Guia para a Felicidade




Agora que estou prestes a ficar sem emprego é tempo de pensar no futuro. E todo um leque de de oportunidades se abre diante de mim.

Antes de abordar o meu brilhante futuro e para esclarecer qualquer mal-entendido que possa haver, devo desejar as melhores felicidades ao chimpanzé que me vai substituir:

Meu caro Barnabé, tenho a certeza que tudo vai correr pelo melhor. Tenho a certeza que, como chimpanzé bem treinado, vais ter bastante mais sucesso do que eu a desempenhar as minhas (e agora tuas) tarefas. Acredito que se te empenhares a sério ainda consegues chegar a director. Sem ressentimentos!

Não podia deixar o Barnabé a pensar que a nossa relação vai mudar só porque ele me tirou o emprego. Não sou daqueles humanos que culpam os animais por ficarem com os seus empregos. Os animais são essenciais para o desenvolvimento do país e, ainda por cima, aceitam trabalhos que os humanos não aceitam. Qual era o humano que gostava de ganhar a vida a puxar uma carroça? Qual era o humano que gostava que lhe dessem hormonas desde pequenino para crescer rápido a fim de servir para a alimentação de outros? Aí já não se importam, mas quando um animal luta por uma vida um pouco melhor do que a que tem já vêm para a rua gritar "animais, vão para casa".

Aceito, com todo o fair play, que um chimpanzé tenha ficado com o meu trabalho! E devo admitir que tem potencial para o desempenhar com uma maior competência.

Sobre o meu futuro, como já disse, não faltam oportunidades:


Ir para o Brasil gravar uma cassete com versões forró das músicas dos Abba

Sucesso garantido! Tenho a certeza que, em pouco tempo, o Mundo cantará, dançará e karaokerá o "Mamãe Minha" ou o "Rainha Dançante".


Destronar a google como líder da internet

Apesar de não ser tão aliciante como gravar êxitos dos Abba versão forró é capaz de dar algum dinheirito. O plano passará por fazer um motor de busca melhor, mais potente e mais inovador do que o Google. É daqueles planos tão simples que o falhanço é impossível. Mesmo assim elaborei um plano B que é contentar-me com o 2.º lugar. Não é tão bom mas monetariamente é igualmente aliciante...


Ganhar o prémio Nobel

Nada me fará ter mais sucesso junto do sexo feminino do que um prémio Nobel. Nunca vi um Prémio Nobel a queixar-se da sua vida amorosa, com excepção do Prémio Nobel da Economia de 1973 (chato, feio, mau hálito) e da Madre Teresa de Calcutá. É por isso que quero ganhar um Prémio Nobel. Ainda não sei qual... Talvez o da Física. Parece-me o mais fácil, até porque ultimamente ninguém tem feito nada de jeito nessa área. Para isso, tenho que fazer duas coisas: tirar o curso de Física (não sem antes ter explicações de Física do 12.º porque vim de Humanidades) e, depois, criar um paradigma que revolucionará a Ciência nos próximos 100 anos. Se Einstein e Newton conseguiram, porque é que eu não hei-de conseguir? Não sou menos do que eles e até tenho mais estilo... Já me estou a ver a entrar na discoteca, a subir à coluna e a sacar da medalha... O mulherio todo a entrar em estado de loucura e a pedir-me para recitar o discurso da cerimónia... Pode ser até que tenha oportunidade de conhecer a Merche Romero! Vale a pena ganhar o Nobel, acreditem...


Fazer algo altruísta

É óbvio que a vida não pode ser só dinheiro, sucesso e mulheres. É por isso que tenho que fazer algo altruísta como tornar-me um Médico Sem Fronteiras.

Ah! Mas tu não és médico...


Pois não, mas já tenho solução para isso...

Lá vem ele com a piada de que tem um plano de duas fases que passa por tirar o curso de Medicina e depois tornar-se médico sem fronteiras... Pelo menos é mais realista do que a questão do prémio Nobel, embora igualmente estúpido...

Enganas-te, não vou tirar curso nenhum de Medicina... Não preciso...

Não precisas? Como é que vais ser Médico Sem Fronteiras sem seres Médico?

Eu explico-te... Os Médicos Sem Fronteiras, normalmente, andam por sítios em que a vida das pessoas está por um fio. Dificilmente sobreviverão. Precisam apenas de uma palavra de esperança, de alguém que se preocupe genuinamente com eles e de antibióticos. Perante a morte, eu, como Médico Sem Fronteiras, só teria que fazer um ar abalado e, de lágrima no canto do olho, dizer emocionado:

- Voltámos a perder uma vida... Mesmo não querendo apegamo-nos sempre a esta gente...

E depois disto, disparar um grande e pertinente discurso sobre a merda de sociedade que permite que estas coisas aconteçam... Ocasionalmente teria que abrir uma pessoa ou outra a meio com o bisturi para provar que percebo do assunto... E até pode ser que consiga salvar algumas, já que sei mais ou menos onde está o apêndice... Tenho a certeza que a Angelina Jolie vai ficar impressionada...


Realizar um sonho de criança

Que melhor altura do que esta, em que estou sem emprego, para realizar um dos meus sonhos de criança? Pois é.... Vou aproveitar para me tornar jogador do Benfica. Estou convencido que, mal o Rui Costa me veja a dar um toque numa bola me contrata... Só tenho que ir para a porta de casa dele com uma bola, esperar que ele saia, dar dois toques e assinar o contrato. O Aimar que se cuide... Se pensarmos bem nesta questão, se houve pessoa a quem o chimpanzé tirou o emprego foi o Aimar... Este meu pezinho direito não perdoa...


Ser mais rápido, mais forte e chegar mais alto

Gostava de ganhar mais de 20 medalhas nos Jogos Olímpicos de Londres, destronando o Michael Phelps como o atleta mais medalhado de sempre. Como os Jogos são só em 2012 ainda tenho mais do que tempo para me preparar...

Já disse no Twitter e volto a dizê-lo, o Phelps não é nada de especial. Se eu me disciplinar durante um ou dois meses consigo facilmente batê-lo e limpar todas as medalhas da natação. Basta treinar três vezes por semana, comer mais massa e apanhar apenas duas bebedeiras semanais (depois dos treinos que é para estar descansadinho durante os dias de ressaca). Exige alguma disciplina e sacríficio mas acho que consigo...

Mas não é possível ganhar mais de 20 medalhas na natação.

Bem visto! Se não fosses tu não sei o que faria... Facilmente consigo limpar as medalhas do tiro (beber bem antes para não estar com delirium tremens), do hipismo (arranjar um bom cavalo e controlar-me com a bebida), do salto à vara (já fiz coisas mais difíceis graças ao álcool) e do taekwondo (quando bebo ninguém me pára)... Tendo em conta aspectos que não vou revelar também é possível que me deixem participar na prova de halterofilismo feminino.


Entrar numa grande produção de Hollywood

Entrar numa grande produção de Hollywood era algo a que achava piada apesar de ter um grande senão: não gosto nada de me ver na televisão. Teria que arranjar soluções como pôr o Keanu Reeves a fazer de duplo da minha cara ou obrigá-los a fazerem uma versão com a minha cara distorcida. Nada que não se resolva...


Acabar com a pobreza

Se tiver tempo gostaria de acabar com a pobreza. É algo que me incomoda muito e um dos grandes problemas da sociedade. Detesto quando vou na rua preocupado com questões tão pertinentes como o comprimento do pescoço da maior girafa do Mundo ou o verdadeiro significado da columbofilia e vêm ter comigo a pedir dinheiro ou comida. Chateia-me! É por isso que quero acabar com a pobreza! Não gosto que me abordem na rua! Chamem-me egoísta por querer acabar com este mal! Já que vou ser milionário (com o disco, medalhas, Prémio Nobel, etc.) permitam-me que desfrute de alguns luxos como acabar com algo que me dá cabo do juízo, que é a pobreza...


Aprender dança

Finalmente, gostava de entrar no mundo da dança. Acho que o Marco de Camilis é, de longe, o português com mais estilo de todos os tempos. Aprender a dançar tornar-me-ia mais próximo deste deus da dança e meu grande ídolo de infância. Marco, se estiveres a ler isto, um grande e apertado abraço... Continua assim...


Como vêem, tenho um futuro risonho à minha espera.

Imagino que tenham uma pergunta a passear nas vossas cabeças na expectativa de sair a qualquer momento. Eu antecipo-me: porque é que uma mente tão brilhante como a minha e com tantas perspectivas estava a fazer um trabalho que um chimpanzé bem treinado faria melhor? Eu respondo... Porque sempre foi o meu sonho fazer o trabalho de um chimpanzé...

Beijinhos fofos para todos e um especial para o Barnabé que tem como vantagem em relação a mim o facto de não interromper o trabalho para ir actualizar o Twitter... Se o fizesse diria certamente coisas mais pertinentes...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Quando a privacidade nos invade




No outro dia tive que viajar de comboio, coisa que já não fazia há algum tempo. Apercebi-me que, com excepção de algumas idas ao shopping, já há muito tempo que não me aproximava do "povo" desta maneira.

"Aristocrata!"

Não, burocrata...

Não há melhor retrato da sociedade do que aquele que fazemos numa viagem de comboio e, acabamos por dar por nós, quais voyeurs involuntários, envolvidos em situações que não esperávamos. Ao passar por duas raparigas consegui apanhar o seguinte fragmento da sua conversa:

- Ia dizer-lhe que era dele? Para ele dizer que eu tinha feito de propósito?

Senti-me enfiado, contra a minha vontade, numa cena de telenovela. Eu não procuro saber assim tanto sobre uma pessoa que não conheço e, posso estar muito enganado, mas a rapariga estava ou achava que estava grávida... Contudo, podia estar a falar de pastelaria ou de cozinha gourmet... Espero que sim... Mas ter apanhado este fragmento fora do contexto fez-me pensar no pior... Ou no melhor, depende...

Felizmente passei a viagem a ouvir música e não tive a oportunidade de invadir a privacidade de ninguém, ou melhor, de ser invadido pela privacidade de alguém. Apesar disso, era notório que a privacidade de muita gente andava pelo ar a pedir que eu a invadisse. No intervalo entre duas músicas consegui ouvir qualquer coisa a respeito do furúnculo de uma senhora de idade que estava sentada no banco atrás do meu... Tive a sorte de os acordes dos Radiohead terem entrado a tempo de me salvar do bombardeamento de privacidade que se adivinhava. Se não fossem eles, nessa noite teria sonhado com a visita da rapariga da conversa anterior que, com um sorriso nos lábios, me daria a novidade do nascimento de um belo e saudável furúnculo da seguinte maneira:

- Este é o Joaquim, o teu filho... Parabéns!

Por sorte não aconteceu...

Mas nem os Radiohead me salvaram da privacidade que me invadiu, desta feita, no Metro.

Metro cheio. Eu de pé encostado à parede. Ao meu lado, um jovem e apaixonado casal...

Não tenho nada contra a paixão, muito pelo contrário. Emociono-me, como ninguém, com demonstrações puras de afecto. Choro sempre que vejo uma avioneta com uma faixa a dizer "Amo-te Marlene!" ou quando leio uma mensagem no rodapé da Praça da Alegria a dizer "Jorge Samuel, és o amor da minha vida" ou quando ligam para os discos pedidos para dedicar uma música dos Só Pra Contrariar à sua alma gémea ou quando um indivíduo se põe subitamente de pé na cadeira do restaurante a gritar, em plenos pulmões: "Eu amo esta mulher! Ouçam todos: Eu amo esta mulher que está aqui sentada chamada Lucinda Micaela". Sou um romântico. Apesar disso, não gosto assim tanto de demonstrações públicas de afecto quando sinto que, se virar ligeiramente a cabeça para a direita, estou a tornar-me um activo participante nas mesmas.

Fiz grande parte da viagem com aquele "chuac, chuac" nos ouvidos, sem poder mudar de lugar e a invadir a privacidade da pessoa que estava na direcção do único ângulo de visão que me era permitido, visto que qualquer outra posição em que colocasse a cabeça levaria à minha perticipação num ménage a trois com aqueles pessoas. E eu não queria isso apesar da insistência do jovem casal em incluir-me na sua relação.

Não gosto de invadir a privacidade de ninguém e detesto quando sou invadido pela privacidade de pessoas que não conheço. Como aquelas pessoas que se levantam a meio de reuniões e se sentem na obrigação de dar uma explicação dizendo, no regresso:

- Desculpem lá, mas tenho andado cá com uma diarreia que nem vos digo...

Pois, mas disseste... Não precisávamos de saber isso. Ninguém perguntou. Mas, de qualquer maneira, as melhoras! Bebe muita Coca-cola e evita os fritos!

Ou aqueles D. Juans que fazem da mesa da sua esplanada um púlpito para anunciar a todos aqueles que têm o azar de estar num raio de 50 metros, as suas novas conquistas. Aí não estamos a falar de invasão nenhuma visto que o mais provável é nada daquilo ter acontecido. Mas a questão é que se estivesse interessado em romances de cordel tinha ficado em casa a ler os livros do Nicholas Sparks ou do Harlequin e Bianca. Que é o que faço a maior parte das vezes.

Caros anónimos, não quero saber nada das vossas necessidades fisiológicas nem, tão pouco, da vossa (fictícia) vida sexual. São coisas que dispenso ou dispensaria, se vocês me deixassem... É pedir muito?

Devo acrescentar que, apesar deste desabafo, gosto muito das conversas nos transportes públicos. Quando as pessoas, em vez de ensimesmadas nos seus problemas e nos seus MP3 falam umas com as outras e criam aquele clima em que um passageiro diz uma coisa, outro diz outra e de repente somos todos grandes amigos que, por acaso, partilharam o 78 nesse dia. Faz-me acreditar numa sociedade mais aberta e comunitária como contraponto de uma sociedade alienada e egocêntrica. E aí nem me importo que partilhem alguma coisa da sua vida, porque, neses casos, estou a abrir um canal de comunicação que permite isso. Já tive algumas conversas interessantes em transportes públicos.

Não gosto é quando a privacidade de outras pessoas me atinge como um paralelo na cabeça.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O país dos Doutores


Descobri algo em que nunca tinha reparado mas que me irrita um bocadinho. Pelo menos o suficiente para vir aqui escrever sobre isso. Pessoas que, quando estão a citar algo que alguém lhes disse, em discurso directo, dizem o seu próprio nome. Isso não vos irrita? Ah! Não perceberam... Então vou explicar melhor... Imaginem que alguém disse ao Rufino que era melhor ele aproveitar agora, que ainda lhe sobram alguns trocos, para ir comprar, finalmente, o busto de Napoleão para pôr em cima da lareira. Imaginem que o Rufino quer descrever esta conversa a outra pessoa qualquer... ao João António, por exemplo...

- Ele disse-me: "Ó Rufino, se calhar é melhor aproveitar agora, que ainda te sobram alguns trocos, para ir comprar, finalmente, o busto de Napoleão para pôr em cima da lareira", e foi o que eu fiz...

E o João António responde, por exemplo:

- Não pode ser, Rufino... Ele, a mim, disse-me: "Tem cuidado com o Rufino, João António... Vê se ele não estoura o dinheiro todo na porcaria do busto de Napoleão...".

Já é um bocado estúpido tentar recriar textualmente a conversa. Se não o vamos conseguir nem devemos tentar, é para isso que serve o discurso indirecto. Mas pôr a outra pessoa, que estamos a citar literalmente, a dizer o nosso próprio nome é completamente absurdo e irrelevante, já que a partir do momento em que estamos a falar de algo que nos foi dito é escusado estarmos a pôr o nosso nome lá pelo meio... É como se estivéssemos a sublinhar que a pessoa que estamos a citar até sabe o nosso nome. E, mais do que isso, trata-nos com tanta familiaridade que até faz questão de usar o nosso primeiro nome na conversa. Pior do que isso seria se o Rufino dissesse:

- Ele disse-me: "Ó Professor Doutor Rufino..."...

Aí, eu diria ao Rufino, ou melhor, ao Professor Doutor Rufino, que até nem é mau tipo, para pôr o busto de Napoleão num sítio que eu cá sei...

"Mas que sítio?"

No cu...

Porque pior do que as pessoas que põem os outros a tratarem-nos pelo próprio nome são as pessoas que exigem que lhes chamem Doutor ou Professor ou Engenheiro...

Porque é que o Amílcar, que até era conhecido como Pívias na adolescência (entretanto evoluiu para Pivz, alcunha essa que ainda usa no messenger), há-de exigir a outra pessoa que o trate por "Doutor", só porque andou 7 anos a pagar propinas numa privada qualquer? Em que país, para além de Portugal, é que é mais prestigiante tratar alguém por "Doutor" ou "Engenheiro" do que pelo nome próprio? São pessoas que preferem escudar-se num suposto prestígio que lhes instituíram, do que assumirem uma identidade própria. O que é sintoma de que, provavelmente, não a têm.

"O que é que disse, Dr. Sérgio? Não percebi nada... Dá-me a ideia que o Senhor Doutor está armar-se em intelectual..."

Eu explico-te, apesar de me estares a provocar com isso do "Doutor Sérgio"... Deixa-me dizer-te que tens muita graça... Isso é por eu ainda não ter acabado o curso? Ou é por eu ter acabado de criticar as pessoas que exigem ser tratadas por "Doutor"? Para a próxima vez parto-te os dentinhos...

Ao exigir que as tratem pelo seu grau académico, as pessoas estão a mostrar que valem pouco mais do que isso... Antes de ser Doutor Sérgio eu era o Sérgio. E, darei sempre primazia ao meu lado "Sérgio" do que ao meu lado de "Doutor Sérgio".

"Mas o Dr. Sérgio ainda não acabou o curso."

Só estava a explicar-te, que foi o que me pediste, ó Dr. "Vozinha-estúpida-dentro-da-minha-cabeça-que-pelos-vistos-já-acabou-o-Doutoramento"...

"Não é Doutor, é Engenheiro... Tirei a licenciatura de Engenharia de Minas na FEUP..."

Olha a grande coisa! E o que é que fazes agora? Porque é que em vez de estares numa mina, a fazer aquilo para que estudaste, estás dentro da minha cabeça a chatear-me por dá cá aquela palha? Não estavas melhor a trabalhar na secção de frescos do Continente?

"Já mandei para lá o meu Curriculum Vitae, mas tenho habilitações a mais... Também não gosto de estar na sua cabeça, ó Dr. Sérgio. Não fui eu que escolhi estar aqui... Mas não arranjei melhor... A única vantagem é que isto é bem arejado"

Tenho ali um anti-psicótico de que és capaz de gostar, ó Senhor Engenheiro de Minas... Vê lá se te calas que já estás a meter nojo...

O que me irrita mais é que o argumento que estas pessoas usam para serem tratadas pelo seu grau académico é a necessidade de manter as distâncias e de se darem ao respeito. Até espumo de raiva quando ouço este argumento... Metaforicamente, é claro. Não me ficava nada bem espumar de raiva em frente ao Senhor Engenheiro... Aliás, a minha reacção normal, quando ouço este argumento é:

- Com certeza, Senhor Engenheiro - enquanto olho para o chão, faço uma vénia e saio da sala silenciosamente para não perturbar o sossego do Senhor Engenheiro e, antes de sair, ainda faço questão de perguntar - Precisa de alguma coisa Senhor Engenheiro? Um cafézinho?

Mas agora que estou entre amigos e não preciso de ser tão cobarde ou submisso posso dizer o que realmente penso sobre este argumento e espumar de raiva à vontade (não muito alto porque o Senhor Engenheiro está na sala ao lado e ainda me ouve). Que raio de respeito é que vocês querem manter com esta porcaria do grau académico? Fique sabendo "Senhor Engenheiro" que enquanto finjo beber os seus belos ensinamentos e opiniões sobre o que nos rodeia, enquanto me esforço para ser a pessoa que se ri mais alto das suas piadas, enquanto dou tudo por tudo para preparar o café como o Senhor Engenheiro gosta, estou realmente a pensar em como seria bom esvaziar as piscinas do Slide & Splash, untá-lo de banha de porco e atirá-lo do Kamikaze (e isto é quando estou bem disposto). Fique sabendo, Senhor Engenheiro, que a distância que tanto gosta de criar só serve para que outros potenciais "Senhores Engenheiros" o queiram pôr a milhas. Fique sabendo que o respeito não se consegue com distância, consegue-se com proximidade, honestidade, genuinidade e com um hálito mais agradável, meu grande bisonte albino e hermafrodita... (acho que já me estou a esticar... Amanhã vou ter que caprichar nos cafés e nas fotocópias para compensar esta falha...)

Como defesa, arranjei um estratagema que é fazer questão de tratar todos os "Doutores" e "Engenheiros" que conheço apenas pelo grau académico. O que fica extremamente ridículo... E dá-me um gozo tremendo... É tão bizarro tratar alguém só por Doutor. Do tipo:

- Ó Doutor, isto não me parece assim tão bem porque não sei quê, não sei que mais...

É que, com essa atitude, eles só conseguem isto: que eu os trate como uma sopeira hipocondríaca trata o médico de família... "Ó Doutor isto, ó doutor aquilo...". É o que os Doutores merecem...

O pior destas coisas é que, por causa da cagança de meia dúzia de "Doutores" e "Engenheiros", as pessoas, na dúvida, começam a tratar toda a gente por "Doutor" e "Engenheiro". O que acaba por sobrar para tipos como eu, que odeiam quando são tratadas por "Doutor" e "Engenheiro".

"E que ainda por cima não acabaram o curso"


Já paravas com isso, ó Engenheiro Donaldim! Graças às tuas intervenções, este post parece um número de ventriloquismo...

"Isso faz de ti aquele senhor careca que costuma estar na árvore das patacas"

Nem sei que te diga... Agora até tiveste piada... Nem te vou perguntar onde é que o Donaldim esconde a mão do senhor careca...

Concluindo, detesto que me chamem Doutor. Gosto de pensar que valho muito mais do que o meu grau académico...

"Isso é porque não tens nenhum..."

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Desafio (finalmente)

Finalmente desafiaram-me para alguma coisa! Já tenho o blog há não sei quanto tempo (é verdade, não sei mesmo há quanto tempo) e, não sei porquê, fui sempre ostracizado no que diz respeito a este tipo de coisas... Será por causa do meu mau aspecto? Imagino que sim... Muitas lágrimas foram choradas por causa de ninguém me lançar desafios... Até que a lothlorien resolveu quebrar esta conspiração, fazendo do dia de ontem o dia mais feliz da minha vida: o dia em que me lançaram um desafio, integrando-me, deste modo, nesta grande família que é a blogoesfera. Nem tenho palavras para lhe agradecer, de tão emocionado que estou... O desafio é contar seis coisas aleatórias sobre mim, o que é mau, visto que eu estava a pensar contar coisas sequenciais. A aleatoriedade é um factor de complexidade um pouco dificil de contornar, mas vou tentar... Fico contente por serem 6 coisas... Se tivesse que contar mais de 53 coisas sobre mim acho que não tinha nada a dizer...

E aqui vão elas:

1. Tenho um blog.
2. Nunca fui ao shopping vestido de papaia.
3. Sou capaz de suster a respiração durante 30 segundos... Talvez mais...
4. Tenho um bilhete de identidade com fotografia e tudo... embora ache que ela não me favoreça muito...
5. Faço, pelo menos, três refeições por dia.
6. Se passar três noites seguidas sem dormir fico com sono.

Estas 6 coisas podem transformar-se em apenas uma que não é segredo para ninguém que já passou por aqui mais de duas vezes: gosto de me armar em parvo. Mas vou abrir uma excepção por um bocadinho e dizer 6 coisas a sério:

1. Enquanto petiz, pratiquei os seguintes desportos: canoagem, taekwondo, vela, natação, basquetebol, vóleibol, ténis... E o meu desporto preferido é futebol... Nunca me destaquei muito em nenhum deles, mas gostei de todos, com excepção do ténis (por causa do ambiente, o desporto é engraçado)...
2. Fui presidente da Associação de Estudantes da minha faculdade. Sobre isto, devo dizer, como minha defesa, que não sou, nunca fui, nem hei-de ser membro de nenhum partido político... nem testemunha de Jeová... o que nos leva para a terceira coisa:
3. Não sou baptizado e sou ateu convicto. Não preciso de nenhum estímulo externo nem da recompensa de uma vida eterna para fazer aquilo que considero correcto... Faço-o apenas porque tem de ser...
4. Já fui a casa do José Saramago e já jantei com o Maestro António Vitorino d'Almeida.
5. Tive a sorte de ver algumas das minhas bandas preferidas ao vivo: Pearl Jam, Muse, Queens of the Stone Age e Metallica.
6. Já passeei pela estação de S. Bento vestido de cavaleiro da Idade Média (vídeo e história aqui).

E sobre mim acho que não há mais nada a dizer...

O próximo passo é desafiar outros... Desafio então a Ana Malhoa, o pessoal da Google, o Nuno Markl, a Wikipedia, o Pacheco Pereira e aquele puto que foi filmado a imitar, de forma divinal, o Luke Skywalker...

Agora a sério, não vou desafiar ninguém em especial... Quem achar piada que faça o desafio! Até porque algumas pessoas que poderia desafiar já o fizeram...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Welcome

Já viram este videoclip dos Radiohead? É fabuloso. Não fabuloso como o Alex o Fabuloso, mas fabuloso como um pôr-do-sol à beira mar num final de tarde de Verão (que cliché!)



A pequena M&M nasceu hoje. Tenho a certeza que vai ter uma infância como o menino da esquerda, para crescer e ajudar a construir um Mundo em que crianças não tenham que passar pelos sacrifícios do menino da direita... Vai ser o meu orgulho!

Da mesma maneira que espanquei o ano de 2008, dou agora um forte abraço e um bejo no meio da testa ao ano de 2009 por esta grande alegria.

É fantástico ser aos 23 anos, pela primeira vez, irmão de alguém!


(aproveito e contribuo, desta singela maneira, para a campanha pela causa que este vídeo de uma das minhas bandas preferidas defende... De qualquer maneira é inevitável, perante a enorme felicidade do nascimento de uma criança privilegiada pelo meio onde nasceu, reflectir sobre as dificuldades por que passam tantas crianças por esse Mundo fora que não tiveram a sua sorte... Daí a escolha do vídeo... Arrepia, não arrepia?)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

2009: não te ponhas a pau que eu não quero...


10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1... 0!

Já posso? Então aqui vai.

Se eu pudesse, pegava no ano de 2008, barrava-o de Tulicreme e atirava-o para um ninho de formigas assassinas, enquanto o pontapeava nos zeros (2008), principalmente no da direita que é o mais sensível. Esperava que as formigas, as vespas e as ratazanas, que entretanto chegariam ao local, fizessem o seu trabalho com o Tulicreme e com as zonas mais sensíveis do corpo de 2008, nomeadamente as verilhas e aquela parte atrás dos joelhos, só para dar dois exemplos, pegava nele, prendia-lhe um gancho à parte de cima da cabeça, amarrava uma ponta de uma corda ao gancho e a outra ponta ao pescoço de uma avestruz. A seguir, pedia a um amigo meu que é um Índio Sioux (o Arranca Tampas na Madrugada) para, com um x-acto, cortar, bem cortadinho pelo picotado, o escalpe a 2008 e mandava um pontapé à avestruz. Enquanto esta pitoresca ave corria às voltas com a tampa de 2008, despejava duas garrafas de vodka no crânio desprotegido do maldito ano em que se realizaram os Jogos Olímpicos de Pequim e deitava fogo. Encostava-me a uma árvore, a saborear o restinho da garrafa de vodka, a apreciar a agonia e o desespero do maldito ano que vem logo a seguir a 2007. Há coisas pelas quais vale a pena viver...

Para descansar um bocadinho, colocava este ano que passou numa sala de privação sensorial, toda branca com paredes almofadadas. Amarrava-o a uma cadeira e colocava uma televisão à sua frente. Aí, o ano em que foi eleito o Primeiro Presidente Negro dos EUA, seria obrigado a assistir, durante 24 horas por dia, durante 6 meses, a um talk show em que a Maya, o Cláudio Ramos, o Fernando Mendes, o Manuel Luís Goucha e o Miguel Sousa Tavares discutem pesca, curling e a vida romântica do Cristiano Ronaldo, com banda sonora de André Sardet e com um cenário com a imagem de Jorge Nuno Pinto da Costa todo nu, a ver-se tudo e, colocado de maneira a que, em cada close up do Cláudio Ramos se consiga ver com muito, e quando digo muito é mesmo muito, detalhe as partes íntimas do Presidente do FCP. Tanto quanto é possível descortiná-las, obviamente. O José Castelo Branco podia ir aparecendo de vez em quando para fazer um strip e para rezar o terço (intercaladamente ou simultaneamente) para desenjoar um bocadinho.

Depois de tudo isto, vestia o ano de 2008 de Bob Marley, com pintura e tudo, e mandava-o para um comício do PNR. Deixava os carecas fazerem o seu trabalhinho e, para finalizar, arranjava um caixão revestido a pregos e enterrava o ano de 2008 vivo.

"Ah, então vais deixá-lo morrer assim. Coitado, não se deve enterrar ninguém vivo... Já devias saber isso!". É verdade. Eu sei. Têm toda a razão. Ele não mereceria o acto de misericórdia de o deixar morrer. Arranjava maneira de este ter sempre o mínimo de oxigénio e alimentava-o por via intravenosa. Deixava-o estar lá um ano. Assim, enterrado vivo, na escuridão, sem se mexer e em contacto permanente com aguçados pregos. É coisa para doer. Depois deixava-o ir embora e dizia-lhe:

- É para aprenderes! Nunca mais te metas comigo!

2009, considera isto um aviso. Eu sei que ainda mal começaste e que ainda muita coisa pode acontecer. Se te portas mal, é isto que te faço... No mínimo...



Um pouco doentia e macabra, esta descrição. Concordo. Mas fez-me bem vingar-me deste malfadado ano, que correu mal do primeiro ao último segundo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ler



Achei curiosa esta notícia do público, em que António Lobo Antunes afirma que "os livros em Portugal são indecentemente caros". Tem toda a razão! E é por isso que, quando tenho a oportunidade de ir a outros países, entro em tudo o que é livraria que nem um maluquinho. Pensando bem, não é preciso ir a outros países para entrar em livrarias que nem maluquinho, mas quem viaja comigo sofre um bocado com isso. De resto acho que até consigo ser boa companhia. Mas sou um bocado obssessivo em relação a livros e o pouco que ganho vai, invariavelmente, parar aos cofres da Fnac.

Enfim, ao menos não gasto em droga... Se é que se pode dizer que os livros não são como uma droga...

Achei também piada à declaração de António Lobo Antunes porque, ainda este ano, quando lhe fui pedir um autógrafo na Feira do Livro do Porto (cidade a que ele está muito agradecido, como volta a referir na notícia, por o ter apoiado na sua luta contra o cancro), o "sacana" olhou para o preço do seu próprio livro, que estava prestes a autografar, e disse o seguinte:

- Pagaste 22,5 euros (já não me lembro bem do preço) por isto?!

Ao que eu respondi:

- Vale o preço... - E acrescentei - Acho mesmo que vale, embora não caísse mal se fosse um bocadinho mais barato... Se mo quiser oferecer... - Não disse esta última parte... Ou pelo menos não deve ter sido esta a mensagem que ele entendeu dos grunhidos que soltei, típicos de quando estamos ao pé de alguém que admiramos... E não, não foram berrinhos histéricos... Isso foi mais quando fui ver os Tokyo Hotel... É mentira! Apanhei-vos!).

Acho que os livros são a melhor companhia não-humana que se pode ter. Adoro aquela sensação melancólica, de quando estou a acabar um livro. Ter, por um lado, pena de o estar a acabar e por outro lado aquela curiosidade de conhecer o final. Sinto também uma certa ansiedade em relação ao livro que se segue: "que livro vou começar a ler? (e a lista é tão grande) Será que vou gostar tanto dele como do anterior? (geralmente gosto sempre dos livros que leio... gostar tanto de ler permite-me 99% das vezes fazer as escolhas acertadas). Parafraseando Miguel Esteves Cardoso numa entrevista à RTP: "uma pessoa que gosta de ler nunca se vai sentir sozinha". E é verdade. Quando tudo corre mal, sei que aquele livro vai estar à minha espera. Aquelas personagens. Aqueles locais. Aquelas histórias. Tudo isto vai compensar qualquer coisa de mal que esteja a acontecer. Nem que seja por a personagem principal ser ainda mais desgraçada que nós, qual Candide. Ou por a mensagem ser tão inspiradora que nos dá um sentido para a vida, fazendo-nos desdramatizar todas as ninharias do dia-a-dia. Ou por o autor ser tão talentoso que nos sentimos privilegiados por estar ali, em primeira fila, a admirar a sua arte. Ou por nos identificarmos tanto com as personagens que os seus sucessos são os nossos sucessos.

Há tantas maneiras através das quais os livros nos fazem sentir bem que, enumerá-las todas, seria algo impossível.

Se me acontecesse alguma coisa que me impedisse de ler seria mesmo muito infeliz.

Sei que este post não tem piada nenhuma (não que os outros tenham, mas, para que saibam, esforço-me por isso), mas é um assunto que teria que referir até para justificar o estilo que adoptei aqui neste blog. Por gostar tanto de ler é que só escrevo disparates depretensiosos. Por gostar tanto de ler e por apreciar tanto o trabalho dos verdadeiros escritores jamais poderia ambicionar sequer chegar aos seus calcanhares. Não está ao alcance de todos. É por isso que só escrevo disparates. Aquilo que está ao alcance de todos é apreciar este trabalho infinito (já pensaram que vamos morrer sem ler tudo o que há para ler, sem visitar todos os locais que há para visitar, sem ver todos os filmes que há para ver, sem conhecer todas as pessoas que vale a pena conhecer?). E, se houver alguém que torça um bocado o nariz à leitura que se sinta minimamente inspirado ao ler este post fico mesmo muito contente. Aquilo que lhe posso dizer é que, se conseguir aprender a gostar de ler, vai ganhar um superpoder: não só vai conseguir voar, como vai conseguir teletransportar-se, como vai ganhar o dom da ubiquidade, como vai ganhar o poder da invisibilidade... Tudo aquilo que desejarmos, tudo aquilo que quisermos ser, os livros dão-nos. É preciso algum esforço, claro. Mas compensa.



Lado B do post. Quando estava tudo tão bonito, eis que surge o outro lado da moeda:

Segunda parte um tanto ou quanto alucinada


Bom triénio de 2009-2012! Prefiro desejar "bons triénios" visto que poupa-me o trabalho de desejar "bom ano" todos os anos. Algo que é extremamente cansativo e inútil! É óbvio que desejo um bom ano àquelas pessoas a quem desejaria um bom ano. Acho que ninguém é má pessoa ao ponto de desejar que alguém tenha um "mau ano" (e se houver ao menos que se aproveite o final do ano para isso. Não vamos ser hipócritas). Àquelas pessoas a quem não desejaria um bom ano, não vou desejar um bom ano de certeza. Primeiro, porque não frequentam os meus círculos (só fui uma vez à Assembleia da República) e segundo porque não sou hipócrita

Agora que penso nisso às vezes sou um bocadinho. Agora que penso um bocado nisso, esta mania de ter que desejar bom ano a tudo o que mexe por esta altura obriga-nos a sermos hipócritas... Não por desejarmos que essas pessoas tenham maus anos mas porque, às vezes, desejamos bom ano, mesmo estando-nos perfeitamente a marimbar para isso (bela palavra, "marimbar").

Já sabia que iam ter essa reacção. Não façam esse olhar moralista, como quem diz "Ah! Eu não sou hipócrita. Eu, quando desejo um bom ano a alguém estou mesmo a senti-lo". Dou-vos mais uma oportunidade, pensem um bocado: é mesmo verdade que estão genuinamente preocupados que as pessoas a quem desejam um bom ano tenham um bom ano? Eu sabia... Vocês não conseguem aguentar... Basta abanar-vos um bocadinho que descosem-se logo... Ao menos podiam ser mais firmes nas vossas convicções...

Algum dia conseguiriam enganar-me com essa atitude? Algum dia, algum de vocês, se deu ao trabalho de, passados, por exemplo, 6 meses, de terem desejado um bom ano a alguém, irem confirmar se essa pessoa está mesmo a ter um bom ano? Fazem-no com as pessoas que importam, até numa frequência de tempo menor., obviamente. E aí nada contra. Mas não vão, a meio do ano, por exemplo no dia 30 de Junho, preocupar-se em ligar ao indíviduo do telemarketing, que vos tentou vender o pacote Telefone+TV+Internet da Clix e a quem, por acaso, desejaram um bom ano para saber se, realmente, e tal como o tinham desejado, o ano do tipo está a correr bem... Ele até pode, e batam na madeira, ter morrido. E vocês vão estar despreocupados, na vossa vidinha, sem sequer saberem que o vosso desejo de bom ano caiu no saco roto da entidade responsável por garantir que os nossos desejos são atendidos. Essa entidade, que, ou por ser inexistente, ou por ter desígnios próprios e incompreensíveis, é por si só uma razão para acharmos que não vale a pena desejar o que quer que seja a alguém. É que vale apenas pela intenção. O poder, propriamente dito, é inexistente. A não ser que estejamos a esfregar uma lâmpada mágica.

E aí não vamos desejar um bom ano ao tipo do telemarketing. Vamos desejar, obviamente, 5,5 milhões de desejos (não se deixem enganar quando encontrarem uma lâmpada e não estourem logo os desejos em dinheiro, gajas e vida eterna. Desde que descobriram este furo, os Génios da Lâmpada nunca foram os mesmos... "Se ao menos tivéssemos escrito um contrato", pensam eles "Mas não... Basta esfregar... Como fomos tão crentes? Como conseguimos acreditar tão cegamente que toda a Humanidade era tão estúpida como o Aladino? Tantos anos fechados numa Lâmpada mágica deviam ter feito de nós Génios mais vividos, mais matreiros... Mas não... Somos uns Génios da Lâmpada tão ingénuos como um bando de girinos acabados de nascer... Se calhar mais um bocado...").

Mas nem por isso vamos deixar de desejar um bom ano a toda a gente. E também não é por isso que vão deixar de nos retribuir. São as convenções sociais... Como a convenção social de ter que dar prendas no Natal quando ficaria muito mais barato e poupava-nos muita confusão, se déssemos as prendas no Dia de Reis... Não podemos viver sem elas, nem sem as questionarmos. É que se não o fizéssemos estávamos a fugir à convenção social básica para um jovem que é a de questionar todas as convenções sociais. E agora dei um nó na cabeça: "se , para um jovem, é uma convenção social questionar todas as convenções sociais. Devo questioná-las ou não?". É o "quem nasce primeiro? O ovo ou a galinha?" das convenções sociais.

Pensem nisso e, quando tiverem uma resposta, mandem um toque que eu tenho um tarifário bem jeitoso, graças ao fantástico operador de telemarketing que mo arranjou, a segunda melhor pessoa do Mundo, logo a seguir ao CEO da Fnac (já agora, se estiver a ler isto, um chequezito Fnac de 1 milhão de euros até que vinha a calhar... Pense nisso... Eu nem me importava de gravar um anúncio a dizer que "a Fnac é que é e não sei quê"... Fica no ar a ideia...).

E é tudo!

Um sincero, bom triénio! Lá para o meio de 2011 eu faço um follow up do vosso triénio, ver se ele está à altura, deste meu grande desejo: que vocês tenham o triénio mais maravilhoso que é possível alguém ter!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

5 segundos de avanço...


Quando vi o título de capa da Visão desta semana assustei-me... "Será que descobriram um vídeo caseiro do Marcelo Caetano na intimidade", pensei eu. Como se não estivessem a acontecer coisas suficientemente más por esse Mundo fora ainda íamos ter que levar com um vídeo porno do substituto de Salazar vestido de empregada doméstica e a ser açoitado por uma matrona vestida de inspector da PIDE... Afinal não era... Nem tudo é tão mau quanto parece...

É incrível o efeito que uma ambulância provoca no trânsito em hora de ponta. É muito semelhante ao efeito que o Moisés provocou no Mar Vermelho (pelo menos como eu o imagino). É impressionante a maneira como estas criam espaço onde ele não existe...

Hoje em dia, o mais próximo que podemos estar de alguém que adivinha o futuro é estar a ver um jogo de futebol na televisão ao pé de alguém que está a ouvir o mesmo jogo no rádio. É das coisas mais execráveis que se podem fazer a alguém! E, mais importante do que isso, faz-me prezar cada vez mais o livre arbítrio em que firmemente acredito. Basta os tipos estarem 5 segundos adiantados em relação a nós para estragarem completamente a experiência de ver um jogo de futebol: em relação às coisas más retiram-nos toda a esperança, já sabemos por antecipação que o Luisão não vai conseguir tirar a bola em cima da linha de golo ou que o Quim não vai defender aquele penalty. A desilusão é ainda maior visto que estamos a assistir à inevitabilidade da desgraça, a um esforço inútil e inglório "podes sair daí, Quim, não vais defendê-la". As coisas boas perdem a piada toda visto que antes daquele lançamento lateral já sabemos que a jogada vai acabar o golo, retirando-nos a emoção (quase) orgásmica de um golo da nossa equipa. As pessoas que fazem isto são umas bestas e mereciam ser protagonistas de um filme porno com o Marcelo Caetano! Os cafés onde estas pessoas estão deviam ter um aviso de "spoiler alert".

Por outro lado, provam-nos que o livre arbitrio é essencial para a nossa felicidade.

Que piada tem a vida se já soubermos o que vai acontecer com 5 segundos de avanço?

Triste de quem não dá o livre arbítrio como garantido: fatalistas em relação ao futuro, refreados em relação às emoções.

(No café onde eu estava a ver o jogo, houve uma besta que estava a ouvir rádio que se lembrou de anunciar, numa jogada a meio campo, o golo do Benfica. Se por um lado o tipo consegiu estragar-me o prazer de apreciar devidamente o golo da minha equipa, por outro lado deixou-me ainda mais desiludido quando a jogada acabou por não dar em nada... Poucas vezes odiei tanto uma pessoa como naquela altura... Logo a seguir outra besta encarregou-se de anular um golo limpo ao Benfica e, diga-se de passagem, consegui odiá-lo ainda mais... O livre arbítrio é bom, mas devemos ter cuidado ao usá-lo... Não podemos ter a pretensão de querer mudar o passado... A bola estava lá dentro, eu sei que a vontade do árbitro era defendê-la ele próprio, não conseguiu... Nem tudo corre como nós quremos... É assim a vida... Deixava passar e estava tudo bem... Quis abusar do livre arbítrio e foi o que deu...)

A gerência deseja a todos os frequentadores deste estabelecimento um Feliz Natal, se não nos virmos antes! (imaginem que isto está escrito numa montra com aqueles sprays de neve artificial e com umas luzinhas à volta que é para ficar mais bonito)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Diálogo de solitária

- De onde vem a vida? - perguntei eu a mim mesmo.
- Muito boa pergunta! - acabei por dizer à minha pessoa - Mas não sei responder a isso, caro amigo... É que se soubesse não perguntava...
- Eu tenho essa mania de fazer perguntas complicadas.
- Pois... És um malandreco. - repliquei eu.
- Como é que sabes? Nem sequer me conheces... - respondi eu ao meu interlocutor, eu próprio.

- Será que se saísse daqui as coisas melhoravam? - voltei a perguntar-me.
- Talvez... Mas não saias... - respondi-me.
- Então e porquê? - inquiri-me, não escondendo um ar intrigado.
- É que eu não quero ficar sozinho.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Na casa de Saddam


Neste fim-de-semana tive a oportunidade de ver a mini série da BBC "House of Saddam" sobre a vida do ditador iraquiano que todos nós conhecemos e, nalguns casos, admiramos (esta é para vocês meus leitores sunitas! Para não dizerem que eu me esqueci de vocês).

A série é muito interessante e muito boa não só historicamente mas também artísticamente. Se quiserem posso emprestar-vos. É uma mistura de série histórica com Sopranos e, em algumas partes, com o "Música no Coração" (a parte em que a mulher de Saddam e as filhas são obrigadas a fugir devido à invasão americana é muito parecida com o fim do "Música no Coração") e tem, de facto, muita qualidade.

O único político português sobre quem se poderia fazer algo do género seria, talvez, o Major Valentim Loureiro: "House of Valentim". Só que, neste caso, seria uma mistura de série histórica, com Sopranos e, nalgumas partes com um teledisco dos Ban e um anúncio da Worten (por causa daquilo dos electrodomésticos... era uma piada...).

Aprendi mesmo muito com a série "House of Saddam", nomeadamente que Saddam falava fluentemente Inglês, embora com um leve sotaque iraquiano. Assim como quase todos os iraquianos que apareciam no filme. Desconhecia que a língua oficial do Iraque fosse o Inglês e a única vez em que ouvi uma língua diferente foi quando um militar americano interrogou um dos guarda-costas de Saddam em árabe. Este respondeu-lhe na mesma língua. Fê-lo por boa educação visto que, momentos antes, conversava animadamente com Saddam em Inglês.

De salientar que o referido guarda-costas de Saddam era extremamente parecido com o Prof. Neca (talvez fosse mesmo o Prof. Neca... quem sabe se numa das suas emigrações para o Médio Oriente ele não terá sido guarda-costas de Saddam? Ninguém sabe... Aliás, ninguém sabe sequer onde é que ele está agora... talvez esteja em Guantanamo com o Artur Jorge...).

A série deixou-me a imaginar como seria se, por artes mágicas, eu trocasse de lugar com Saddam (imaginando que este ainda era rei e senhor do berço da civilização). Numa bela manhã eu acordaria no lugar do tirano e este, por sua vez, acordaria no meu lugar.

Teria a sua piada ver o Saddam lá na empresa, a aturar ditadores bem piores do que ele, a ter que tirar fotocópias, a ter que fazer powerpoints e a ter que levar com o ar condicionado numa temperatura que um esquimó classificaria de "fria como o caraças" e que me permite, nos tempos mortos, dedicar-me à construção de bonecos de neve, a fazer corridas de trenó e a transformar copos de sumo de limão em Calipos... Não me parece que o Saddam tivesse estofo para ser estagiário e, muito provavelmente, passado uma hora estaria a chorar que nem um menino curdo cuja família tenha sido chacinada por armas químicas. Qual enforcamento qual quê! Castigo a sério seria pôr o Saddam no meu lugar!

Quanto a mim, acordaria nas calmas num dos palácios de Saddam, numa cama bem confortável e pensaria cá para comigo:

- Olha, estou no lugar do Saddam! - visivelmente surpreendido, pensaria nas consequências que este facto teria no meu futuro imediato - Porreiro! Já não tenho que entregar aquele relatório! - e pensaria, satisfeito no pobre Saddam apanhado de surpresa no meu lugar a sofrer as terríveis consequências da não entrega do referido relatório.

Virava-me para o lado e faria aquilo que sempre faço quando acordo no lugar de um ditador: continuava a dormir. O bom de acordar no lugar de um ditador é que, a fasquia está tão baixa que, por muito pouco que façamos, será sempre bem melhor do que aquilo que o nosso antecessor fez. Não iria matar curdos, nem opositores, nem os meus genros. Não tem muito a ver com a minha personalidade... Só o facto de dormir mais um bocadinho antes de açoitar o malandro do meu filho Uday que se safou demasiado impunemente de assassínios e violações e de deixar de chacinar opositores e povoações inteiras de curdos seriam vistos pela comunidade internacional como grandes progressos...

E é quando, perdido nestes devaneios, me vêm acordar:

- Sua eminência, sua eminência, precisa de acordar, nem imagina o que é que aconteceu...

- Calma... como é que te chamas?

- Mohamed, senhor. Aqui todos nos chamamos Mohamed.

- OK, Mohamed... dou-te... sei lá... um milhão de dólares se me deixares dormir mais 5 minutos...

- Sim, sua eminência...

Passados 5 minutos:

- Sua eminência, sua eminência, precisa de acordar, nem imagina o que é que aconteceu... Mas primeiro gostaria de receber o meu milhão de dólares... se fosse possível...

- Faço-te já uma transferência bancária... Diz lá então o que se passou...

- Um grupo de rebeldes infiltrou-se na televisão e disse coisas horríveis sobre a sua pessoa... - Mohamed olha para baixo, com um ar culpado, não escondendo o medo da ira do seu líder.

- Calma, Mohamed... Não pode ser assim tão mau... Mas foi sobre mim ou sobre a minha pessoa? - a língua árabe tem destas maravilhosas chalaças e permite-nos, mais do que o português, este tipo de humor inteligente e elaborado característico de empregados de mesa.

- Sobre si, sua Eminência... Eles disseram que... e estou só a citar, Sua Eminência.... eles disseram que a Sua Eminência "cheirava mal dos sovacos e tem sempre ranho no nariz" - ao dizer isto Mohamed esconde-se debaixo da cama presidencial.

- Ah! Ah! Ah! Isso tem muita graça... Eu sabia que esta minha sinusite me iria trazer problemas... Quanto aos sovacos, com 50 ºC o que é que eles queriam? Se me quiserem recomendar um desodorizante que o façam, é que eu já tentei tudo... E que mais disseram eles?

Um Mohamed incrédulo com uma resposta nada habitual do seu senhor responde-me:

- Não disseram mais nada, Senhor... É que...

- "É que" o quê? Desembucha lá, Mohamed...

- Eles foram decapitados...

É neste momento que eu caio em mim e vejo que ser tirano não tem mesmo grande piada e que prefiro de longe ser estagiário...

(O meu objectivo era continuar esta história e desenvolver uma série de ideias que tenho mas, sinceramente, não me apetece... Além disso, como é muito pouco provável eu acordar no lugar de quem quer que seja, tenho que fazer o tal relatório... Mas daria uma bela comédia do Ralph Schneider... Pode ser que continue esta saga mais tarde...)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A problemática dos restaurantes com problemas de exaustão


O amor é como um restaurante com problemas de exaustão. Quando saímos, temos um cheiro a fritos de tal maneira intenso e de tal maneira entranhado que, tão cedo, não conseguimos esquecer que estivemos no dito restaurante. É a sua maneira de nos lembrar que estivemos lá.

Quando isso acontece, ao menos que a refeição tenha sido barata...

(eu digo isto porque o meu último e único grande amor vendia rissóis para fora. Logo, a minha percepção sobre o que é o amor está indissociavelmente associada ao cheiro a fritos. Bastava aproximar-me a menos de 20 metros dela para ficar marcado com um contundente e gorduroso cheiro a croquetes. Tinha a vantagem de, nessa altura não ter qualquer tipo de preocupação com o meu odor corporal. Por muito mal que cheirasse aquele cheiro a óleo Fula abafava qualquer coisa. Acho que estes hábitos talvez estejam na origem da minha inépcia para encontrar de novo o amor...)

Mas não é sobre o amor que vou falar. Não que o tema não me agrade mas porque neste momento estou mais preocupado com restaurantes com problemas de exaustão.

Só quem sabe o que é o verdadeiro amor percebe esta questão dos restaurantes com problemas de exaustão. Supostamente uma pessoa vai a um restaurante para comer e, eventualmente, passar um bom momento com amigos enquanto desfruta do melhor (ou do pior) que o mundo da gastronomia tem para nos oferecer. Não é suposto o restaurante acompanhar-nos depois disso. É como se quiséssemos sair do restaurante e ele nos estivesse a dizer: "Não! Volta cá para dentro! Mas o que é que se passou? Não gostas da comida?".

Fazendo com que recordemos constantemente o cheiro das pataniscas que acabámos de devorar quando a última coisa que queremos é voltar a comer pataniscas. Lembrando-nos que para uma coisa boa há sempre o reverso da medalha. À ideia de termos algo que nos faz felizes, surge sempre associada a sua perda. É inevitável! E, mesmo que, imersos em felicidade nos esqueçamos disso, a perda é sempre possível e muito provável. Para uma coisa boa como um bife com batatas fritas está sempre associada uma coisa má como o cheiro a fritos. Vamos deixar de comer bife com batatas fritas? Não. Ou seja, podemos tentar fugir, mas o cheiro a fritos vai acabar sempre por nos apanhar...

E a solução infelizmente não passa por substituir aquele cheiro por outro cheiro. Por exemplo, se tentarmos substituir o cheiro a fritos intenso por outro cheiro igualmente mau e facilmente entranhável na roupa como o cheiro do fumo de tabaco aquilo que acontece não é algo do género "entra um, sai outro". Não. O que acontece é que vamos fundir os dois cheiros criando um aroma igualmente mau... mas a duplicar...

Enfim, apesar de tudo não há nada melhor do que um bom restaurante com problemas de exaustão e com um menu de pratos bem gordurosos... Mesmo com o cheiro...

P.S. O meu último amor não vendia rissóis para fora, nem, tão pouco, cheirava a fritos... Mas o seu cheiro continua bem entranhado...

3 de Novembro

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Cavaleiro em final de demanda

E como faço anos amanhã (dia 26 de Setembro) posso permitir-me a umas lamechices sem me sentir tão culpado e envergonhado como da última vez que coloquei este post on-line. É a minha prenda para todas as pessoas que aqui refiro e que me acompanharam ao longo destes últimos 5 anos na Faculdade...

O texto começava assim:


Pois é, vou de férias. Não é como as férias que tenho tido até agora, fechado em casa a trabalhar. Vou mesmo de férias. As minhas últimas férias como estudante... É por isso que, envolvido nesta melancolia, deixo o meu post mais pessoal, acompanhado de um vídeo, que ilustra, de certo modo e por alguns motivos, a minha passagem pela faculdade. Foi feito quando ainda estava no primeiro ano, no âmbito de um trabalho para a cadeira de Epistemologia. Este vídeo marca então o início de um ciclo que agora está a acabar.

Apesar de parecer, depois deste primeiro parágrafo, que este não é um post humorístico, ou seja fora do espírito que tenho vindo a imprimir neste blog, é capaz de ser o post com mais piada que já escrevi. É uma história real, um episódio inesquecível por ter sido uma das situações em que me senti mais envergonhado na vida.

Passo então a contar a história. Foi-nos pedido que fizéssemos um trabalho sobre Thomas Kuhn e sobre a teoria das revoluções paradigmáticas. Muito basicamente, Kuhn defendia que a ciência evoluia através de revoluções que marcavam a passagem de uns paradigmas para outros, o que faz com que um paradigma actual seja, pela sua inadequação, completamente incompatível com o paradigma actual.

O meu grupo (constituído pela Carmen, pelo Freddy, pela Sara e pela Inês) reuniu-se e teve uma série de ideias com o objectivo de tornar este trabalho o mais criativo possível, já que a Professora nos dava liberdade para isso. Por exemplo, todo o trabalho seria apresentado por uma voz off que seria uma invocação de Kuhn por parte de uma vidente, que o interrogava e o fazia explanar as suas ideias. O Thomas Kuhn seria um fantasma com muito mau feitio e uma grande queda para as graçolas. Mais uma ideia aqui, outra ideia acolá e acabei por sugerir algo extremamente disparatado, absurdo e completamente fora daquilo que deve ser um trabalho do Ensino Superior:

- E que tal um de nós ir vestido de cavaleiro da Idade Média para a Estação de S. Bento? Para provar a ideia de que os paradigmas antigos estão desenquadrados relativamente aos paradigmas actuais... Tipo, hoje em dia ninguém anda vestido de cavaleiro da Idade Média... A não ser que seja maluco...

Esperava com esta ideia, obter algumas gargalhadas acompanhadas de um "És mesmo maluco! Achas que iriamos fazer isso?". No entanto acabei por receber gargalhadas acompanhadas de um "És mesmo maluco! Isso é mesmo boa ideia! Podíamos fazer isso!".

E eu, por orgulho, em vez de dizer: "Estava a gozar! Acham que alguém seria capaz de passar por tanta humilhação?", concordei que era uma boa ideia. E, para corresponder às expectativas dos meus amigos que me achavam maluco, acabei por me oferecer para ir para a Estação de S. Bento vestido de Cavaleiro da Idade Média. Nada de mais!

Fomos comprar toda a indumentária (armas medievais, barbas postiças e assim), até que chegou o grande dia em que eu, completamente sóbrio, decidi ir para a Estação de S. Bento vestido de Cavaleiro Medieval.

Chegámos os quatro à estação e eu e o Freddy fomos até à casa-de-banho preparar as coisas. Entrámos os dois num daqueles cubículos da casa-de-banho em que se paga 50 cêntimos, com o objectivo de conseguir alguma privacidade.

Estava eu quase vestido de Cavaleiro Medieval quando arrombam a porta da casa-de-banho e entra por lá dentro um Segurança com um Rottweiller.

- O que é que vocês estão a fazer aí? - gritou a besta (o Segurança, não o cão, esse limitou-se a rosnar ameaçadoramente).

- Ahhh... estávamos a fazer um trabalho para a escola! - disse o Freddy, numa casa-de-banho da estação à beira de um tipo vestido de cavaleiro medieval, algo que pode ser normal em Amesterdão mas que, no Porto é, no mínimo, esquisito.

- Mas vocês são malucos! - "Sempre a mesma coisa... Vêm para aqui praticar a sodomia e não chamam aqui o chefe... Ai é assim? Então não há sodomia para ninguém!" pensou a besta. - Só pode ficar uma pessoa na casa-de-banho! - acrescentou ele.

- OK!

Obviamente que saiu o Freddy, munido com a câmara para esperar por mim. Não se livrou dos olhares de todos os indíviduos que enchiam os urinóis da casa-de-banho, àquela hora de ponta. Olhares que pareciam dizer: "Olha um gajo que estava na casa-de-banho com outro gajo!".

Passado pouco tempo saí eu. Os indivíduos que tinham olhado ameaçadoramente para o Freddy voltaram a sua atenção para mim: "Estes Cavaleiros Medievais são sempre a mesma coisa... Não passam sem a boa e velha sodomia", pensaram eles.

Depois de sair da casa-de-banho veio o pior: estava o Freddy à minha espera com uma câmara. E o que é que ele filmou? Um tipo vestido de Cavaleiro Andante, com umas longas barbas ruivas, montado no seu cavalinho de pau...

Circulei um pouco pela estação, interagi um pouco com a Inês que estava à minha espera (parte da nossa encenação, visto que o vídeo iria ser narrado depois). E voltei para a casa-de-banho para me voltar a mudar. Os meus colegas ficaram lá fora a regozijarem com o sucesso do trabalho e, claro, a gozarem comigo.

Cheguei à casa-de-banho e reparei que não tinha moedas de 50 cêntimos. Fiquei cerca de 2 minutos ao alto numa casa-de-banho bastante movimentada à espera que se lembrassem de mim. Neste período, que me pareceram cerca de duas horas e 40 minutos, várias pessoas entraram e saíram na casa-de-banho e viram a minha triste figura pensando com os seus botões: "É do álcool ou está um tipo vestido de cavaleiro medieval na casa-de-banho?" ou "Que paradigma tão desenquadrado do paradigma vigente! Thomas Kuhn haveria de achar piada à representação simbólica da pertinência da sua teoria!". Fiquei assim até uma alma caridosa ter ido avisar os meus amigos que eu estava à sua espera na casa-de-banho.

E foi esta a história deste vídeo e deste trabalho!

Uma história marcante do meu percurso académico e, claro, do meu percurso de vida. Passado tanto tempo (cerca de 4 anos) aquilo que me orgulha mais é ter continuado a ser grande amigo do pessoal do meu grupo: a Carmen, o Freddy, a Inês e a Sara.

E, neste momento em que a saga deste cavaleiro está a chegar ao fim há imensas recordações que gostaria de acrescentar a esta. Se esta história marca o início de um percurso que está a chegar ao fim, muito se passou pelo meio... E foi nesse meio que passei grandes momentos da minha vida! Foi nesse meio que conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida! Foi nesse meio que cresci e que me transformei na pessoa que sou hoje!

Não podia esquecer a grande amizade que sinto pelo Tiago e pela Luana (a dupla maravilha) e as nossas tentativas para mudar o Mundo através da AE (juntamente com outras pessoas como o Freddy, a Raquel, a Andreia, a PT, a Catarina, a Tânia (a Pres), a Andreia, a G., o Daniel(o Tesoureiro)... entre muitos outros...). Não mudámos o Mundo mas pelo menos eu saí de lá com a crença de que, com pessoas assim, era possível fazê-lo. O inter rail que fizemos juntos em que conheci grande parte da Europa e que foi uma experiência tão marcante que não morrerei sem voltar a fazer outro (neste caso tenho que te agradecer, Andreia... Pois,.. como se lesses isto...). As casas que partilhámos: tanto a mansão da Areosa (grande demais para nós, para o Xupi e para todos os ácaros, animais invertebrados, baratas crocodilos e cabeças de gado com que a partilhávamos), como a casa de Paranhos (ao pé da do Ministro das Finanças que tantas ideias nos roubou, como aquela do IVA a 20%...). A nossa incapacidade para lidar com situações formais (quando todos estavam de fato e gravata, estávamos nós de mochila e de sapatilhas... como qualquer estudante...). Os fins-de-semana em Moura Morta (em que outro sítio seria eu tão bem recebido?). As aventuras culinárias (no final até aprendeste alguma coisa... eu continuo especialista em idas ao restaurante...). E poderia dizer tanto sobre a nossa amizade e sobre o que passámos juntos que quanto mais disser, mais ficará por dizer, por isso não me alongo, apenas acrescento que valeu a pena ter ido parar à FPCEUP só para vos ter conhecido! Ah! Não me posso esquecer que as únicas vezes que fui ver o Benfica foi com o Tiago... É muito significativo!

Tenho que refeir também a maltini: Daniel, Puss, Freddy, Sara, Inês, Bob, Pinky e Carmen (uma amizade que em boa hora renasceu, tinha que dizer isto!). Nada teria sido o mesmo sem vocês. Poderia enumerar todos os jantares, festas e viagens... Não o vou fazer... É um orgulho ser amigo de pessoas como vocês. Ter a certeza que posso contar com a vossa amizade permite-me olhar para o futuro de uma maneira muito mais optimista! Tudo o que dissesse para além disto soaria banal...

Não está de acordo com o meu feitio abrir-me desta maneira, num espaço tão acessível (aquelas três pessoas que vêm parar aqui acidentalmente através da pesquisa "como cortar as unhas?", "Diogo morgado+salazar" ou "como é possível fazer tanto mal às pessoas?") mas neste momento, apesar de não ter a certeza se vou publicar isto ou não, sinto que é inevitável escrever o que estou a escrever... As recordações surgem em catadupa conheci tanta gente, fiz tanta coisa, agora que está a chegar ao fim gostava de fazer justiça a tudo isso... Sei que é impossível, Mas porque não experimentar? Tudo o que vivi merece esse esforço...

Lembro-me das festas, dos jantares, das conversas até altas horas, dos trabalhos... Lembro-me de um amor falhado, da melancolia de um corta-unhas sem unhas para cortar (que estúpida metáfora), da estupidez de alguém que desperdiça o amor de alguém tão espectacular como eu (perdoem-me a presunção... mas é verdade... um bocadinho de marketing também não faz mal a ninguém...)... Lembro-me de pessoas que ficarão no meu coração para sempre: a PT, o Joshua, a minha Madrinha, o Xupi, a Catarina, a G, a Li, a Tânia, a Raquel, a Lipa... Sei que estou a ser tremendamente injusto com muita gente só pelo simples facto de não os referir. Espero que me perdoem! Não me consigo lembrar de tudo!

Lembro-me da praxe, esse pequeno laboratório de comportamento humano, e de tudo o que aprendi com ela, nomeadamente que o fundamentalismo aliado a uma grande dose de conformismo/carneirismo pode estar na origem de muitos males da humanidade. Incentivou-me de facto a questionar ainda mais e a revoltar-me ainda mais com as injustiças! O lado bom de algo mau...

Lembro-me de uma nostálgica e frenética viagem de finalistas a Lanzarote! Até consegui conhecer o José Saramago! E na sua própria casa (um grande feito de um simples mortal que, por momentos, cheirou o Olimpo. E posso dizer-vos que cheirava a livros!).

Lembro-me de uma Assembleia Geral em que depois de questionarem os nossos princípios e tudo aquilo em que acreditamos assisti ao nascimento de um grande líder na pessoa do Tiago e a um discurso emocionado só ao alcance de uma pessoa de um tão grande humanismo como o Freddy. Como um simples mortal, fiquei calado a assistir ao salvamento da minha honra por estas duas grandes pessoas!

Lembro-me da malta do bar e das ofertas desinteressadas do Sr. Zé que receberia sempre com algum incómodo.... Lembro-me também da Claúdia da AE, do Ricardo, do Prof. Carlos Gonçalves e de todas essas caras que fazem a Faculdade e com quem aprendi tanto...

Foram tantos momentos, tantas caras, tantas recordações... Com este texto consegui quebrar todas as regras que tinha estabelecido para este blog como por exemplo: nada de lamechices e nada de assuntos pessoais... Enfim, senti uma vontade incontrolável de escrever isto, provavelmente arrepender-me-ei, mas está feito! Espero que os meus amigos leiam isto, já que é sobretudo para eles...

E pronto, depois de assegurar que este testemunho fica para a posteridade nesta grande lixeira que é a blogosfera, vou para o Alentejo! Até breve!




P. S. O vídeo só por si não tem grande piada... Apesar disso tenho um certo receio que este vídeo se torne um viral... Por um lado trazia-me muitas visitas ao blog, por outro lado podia conseguir tornar-me tão famoso como aquele miúdo que fazia o truque do Star Wars... Ou seja, só tinha a perder... Ao menos estou irreconhecível no vídeo... Porquê esta música? Apeteceu-me...