sábado, 12 de abril de 2008

Genialidade


No outro dia fui a um concerto de música clássica. Antes que me comecem a atacar, até porque já ouço uma pessoa ou outra a querer dar-me o tratamento que normalmente se dá aos intelectuais neste país: “seu intelectual pestilento! Arrancava-te a língua com um x-acto, os olhos com um ferro em brasa e colocava a tua genitália num grelhador!”, devo dizer, a bem da verdade, que atropelei a última pessoa que apanhei a ler o “Em busca do tempo perdido” e parti os dentes à última pessoa que utilizou a palavra “Foucault” à minha frente. E eram meus familiares! Por isso, como podem ver, gosto tanto de intelectuais como vocês…


Fui então parar a um concerto de música clássica por engano. Estava a perseguir uma raposa pelas ruas do Porto, como habitualmente faço (sou sócio n.º 32 do Clube da Caça à Raposa do Porto, um autêntico gentleman…), quando ela se escapuliu para dentro de uma Sala de Espectáculos… Foi então que reparei que a dita raposa não era, de facto, uma raposa. Era uma écharpe de uma senhora. Apercebi-me disto quando o seu marido me tentou agredir depois de ela ter caído com a paulada que eu lhe mandei no pescoço. Se há coisa que me revolta é a falta de educação destes novos ricos, nem a um desporto de gentlemen prestam o devido respeito.


Enfim, vi-me a braços com uma situação complicada. Era perseguido por um horda de novos ricos em fúria, que tinha que despistar. Num instante, passei de caçador a presa. Mas muitos anos como caçador fizeram de mim uma presa difícil e, foi sentado numa cadeira da sala de espectáculos, que vi os meus perseguidores saírem da sala atrás de mim. Uma manobra clássica que, infelizmente, implicava que eu ficasse no espectáculo até ao fim. O que me fez duvidar da minha sorte. Não seria melhor ser esfolado por um grupo de novos ricos em fúria e cumprir pena máxima por homicídio qualificado do que ter que ver a Carmina Burana até ao fim? Fica ao vosso critério, mas podem ter a certeza que roguei pragas ao meu destino…


No entanto, nem tudo foi mau. Porque se há coisa que eu aprecio é genialidade e, nesse dia, tive o privilégio de assistir ao trabalho de um génio. Não estou a falar do maestro, todas as orquestras têm um maestro por isso não é nada de especial. Não estou a falar do violoncelista, cujo trabalho é tão ou mais rotineiro e monótono que o de um limpa-chaminés. Nem, tão pouco, estou a falar do Carl Orff (o compositor), visto que, qualquer pessoa que conheça aquele reclamo antigo da Old Spice era capaz de compor algo do género. Estou a falar, isso sim, do tipo que toca pratos e triângulo.


A ideia de ir tocar pratos e triângulo para uma orquestra é de génio e merece ser louvada. Ele ganha dinheiro para estar ao alto durante o concerto à espera da vez que tem que tocar os pratos e o triângulo, ele até pode disfarçar e fazer cara de empenhado, como quem diz “isto parece fácil mas nem por isso”, mas não engana ninguém. Aquilo não tem nada que saber! Aliás, acho que só inventaram o triângulo para o homem parecer ocupado… quem é que, no meio do estardalhaço que uma orquestra faz, vai ouvir o “Plim!” feito pelo triângulo?


Há ainda outra vantagem, é que ele nem precisa de ouvir a música, basta ter um cronómetro e ficar à espera do segundo em que se espera que ele toque os pratos e quando tem que alternar com o triângulo. E se não tocar também não lhe vão chatear a cabeça por isso. Quem vai reparar? Algum dia ouviram, à saída de um concerto (e não estou a insinuar que vocês vão a concertos, estamos a falar no campo das hipóteses, como a hipótese de vos apontarem uma arma e vos obrigarem a ir a um concerto…) alguém a culpar o tipo dos pratos por o espectáculo ter corrido mal? Podem culpar o violinista, podem culpar o maestro, se der um enfarte ao tipo que toca harpa acho que também dá para reparar, mas ninguém repara no tipo dos pratos!
Enquanto os outros passam horas e horas a ensaiar o tipo dos pratos pode ir sair e beber copos à vontade. Tenho a certeza que é só na véspera de partirem para um concerto que se lembram dele: “Então o tipo dos pratos?” “É verdade! Vamos telefonar-lhe…” “Mas isso é um problema… é que ele não ensaiou…” “Mas ele precisa de ensaiar?” “Não!” “Ah! Ah! Ah! Ah!” “Lucky bastard!”


Ou seja, o homem dos pratos e do triângulo ganha dinheiro por viajar e por ter acesso privilegiado às violinistas (que são como aquelas bibliotecárias… aquelas que todos conhecemos, que mal fecham a porta do quarto…). Só têm que passar meia dúzia de horas à espera de bater uns pratos. São autênticos génios!


Eu próprio, quando tinha os meus 3 anos ia para a cozinha bater os testos das panelas, como que a adivinhar que aquilo era uma profissão com futuro… Mas os meus pais nunca me apoiaram nessa opção, preferiam pegar na panela e dar-me com ela na cabeça: “É para ver se também gostas!”. É o que normalmente acontece aos artistas, a sociedade espera que sejamos contabilistas, advogados ou autarcas e reage mal quando mostramos os nossos talentos. Dão-nos com a panela na cabeça, porque se preocupam com o nosso futuro, porque a arte não alimenta, etc. Olhem para o homem dos pratos e do triângulo? Querem melhor futuro?
É o apelo que eu faço aos jovens, saiam da escola e comecem a tocar pratos… É a melhor vida que se pode imaginar!


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