terça-feira, 15 de abril de 2008

Uma nova Igreja




Aviso: existência de uma elevada dose de etnocentrismo neste post. Pessoas com uma elevada sensibilidade para a multiculturalidade devem evitá-lo a todo o custo.

Um estudo recente concluiu que a religião Muçulmana está a ganhar terreno ao Cristianismo. Algo vai mal com os seguidores de Jesus. Ao longo da sua história, o Cristianismo foi criando sempre maneiras eficientes de lidar com a concorrência como a Inquisição ou as Cruzadas. No entanto, ainda que eficazes, estas tácticas não são propriamente correctas e, como é óbvio, até podem causar um efeito oposto ao pretendido. Acho que, hoje em dia, a Humanidade não aceitaria tão bem um genocídio como na Idade Média, em que a palavra do Santo Ofício era sagrada. Bastava alguém dizer que a Francisquinha era bruxa que a Francisquinha ia logo servir de combustível à fogueira, para deleite de todos os domingueiros que não passavam sem uma boa queima de hereges. Ainda bem que inventaram os shoppings! Não digo que esta táctica da eliminação da concorrência não continue a ser utilizada, por exemplo, os Americanos têm feito um bom trabalho no sentido de aumentar a distância entre Cristãos e Muçulmanos. No entanto, ainda assim é insuficiente.

A eliminação da concorrência está, então, fora de questão. São necessárias outras técnicas, menos eficazes mas mais aceitáveis de um ponto de vista ético. Estás a ouvir, Bento XVI?

Convencer os pobres

É sabido que é muito mais fácil convencer pessoas com um estômago vazio do que pessoas a quem não falta nada. O que é que eu quero dizer com isto? Aproveitar para recrutar fiéis nos países pobres. Em troca de um saco de arroz eles aderem ao Cristianismo, não há nada mais fácil! É fácil gostarmos de Jesus porque Ele é o Senhor, porque Ele é bom, porque Ele é sexy, porque Ele faz uns truques giros… mas se Ele nos der uma refeição por dia quando estamos habituados a não ter nenhuma Ele torna-se, literalmente, o Salvador! E matam-se dois coelhos de uma cajadada só, por um lado aumenta-se o número de fiéis, por outro lado contribui-se para acabar com a fome…

Acabei de me aperceber que isto de comprar fiéis com bens de primeira necessidade já é prática comum há muitos anos… Chama-se evangelização… Logo, esta ideia não conta… Estou aqui para trazer novas ideias…

Explorar novos mercados

Um bom espaço para a Igreja crescer seria convencer os indecisos. É o que qualquer político faz em campanha e há aí muito agnóstico e ateu à espera de uma boa razão para aderir à espiritualidade (e sendo que os Muçulmanos oferecem 40 virgens aos mártires é importante que a Igreja seja bem veemente nos seus argumentos para convencer este público). Uma sondagem feita numa amostra de 4000 ateus e agnósticos mostrou que 90% destes baptizar-se-iam se tivessem provas inequívocas da existência de Deus (os outros 10% são apenas do contra). Ouviste isto, ó Jesus? Há quase 2000 anos que estás aí nas saias do Teu pai e ninguém te vê… Depois não admira que as pessoas não acreditem em Ti… Só Te conhecem de te ver pendurado na cruz e de meia dúzia de filmes. Daqui a pouco as pessoas começam a acreditar mais no coelhinho da Páscoa do que em Ti! No coelhinho da Páscoa! Tens que aparecer, Pá!

E tira o cavalinho da chuva porque aparecer à Alexandra Solnado não conta, nem fazer a tua mãe aparecer a três pastorinhos, nem fazer estátuas chorarem sangue, nem aparecer em fundos de chávena de café, torradas e cebolas! Já ninguém acredita nisso… É tudo motivo de comédia! Tens que aparecer mesmo, Tens que dar a cara… Se o Teu caminho é o da Salvação, é importante que as pessoas saibam disso! E ninguém melhor do que Tu para o fazer! Já ninguém acredita em padres pedófilos nem em papas que andaram na juventude hitleriana e muito menos no Padre Borga. Lembra-te que enquanto estás aí no bem-bom, já fizeram más músicas em Teu nome, já usaram o Teu nome para ganhar eleições, já fizeram t-shirts pirosas com a tua efígie, já ganharam muito dinheiro às tuas custas (esta é para ti, Sr. Pastor da IURD!), já mataram em Teu nome… Não ouviste? Eu repito: já mataram em Teu nome! E ficas aí quieto, de braços cruzados, como se nada fosse… Para mim, que sou ateu (sou um profissional tenho que me manter neutro, se os Muçulmanos me pedirem para lhes dar conselhos deste tipo também o vou fazer…), seria o dia mais feliz da minha vida se aparecesses!

E como já disse, a Alexandra Solnado não conta! Tinhas que aparecer, a Oprah fazia-te uma entrevista e expunhas as tuas ideias. Mas isto não chega! Qualquer tipo barbudo com feridas nas mãos faria isso… Tinhas que fazer milagres: andar em cima do mar, transformar água em vinho (serias convidado de honra em todos os meus jantares!), curar uns milhares de cegos, acabar com umas dezenas de guerras e… sobretudo dar esperança ao pessoal…

Este é o meu maior conselho! Como ateu que sou, a única maneira de me convenceres era se aparecesses (se voltares a falar na Alexandra Solnado não escrevo mais…). Se aparecesses, o meu trabalho estava acabado… Mas como duvido que o faças (já tiveste oportunidades em que serias bem mais útil se o fizesses) tive que pensar noutros conselhos…

Conhecer o adversário

Há um aspecto fundamental se queremos ser bem sucedidos numa competição: é conhecer o adversário. Conhecer aquilo com que estamos a lidar. Aquilo que nos espera. E nunca, mas nunca, o menosprezar! Só percebendo o que é que há de tão atractivo no adversário é que vamos conseguir ser mais atractivos do que ele. E, relativamente aos nossos competidores directos, os nossos amigos do turbante (não se façam de espertinhos, sabem bem que não são os sikhs) é muito fácil cair na tentação tão típica de uma sociedade judaico-cristã de só olhar para aquilo que não é atractivo neles. É muito fácil ridicularizar aquelas barbas, é muito fácil gozar com os turbantes, é muito fácil repugnarmos as burqas, criticarmos a maneira como rebaixam as mulheres, é muito fácil ficarmos espantados por eles não beberem alcool, é muito fácil estranharmos quando vemos alguém espumar da boca só porque um cartoonista dinamarquês desenhou o Maomé… Concordo que isto sejam coisas más… mas não é isso que nos interessa… Temos que olhar para as coisas boas para tentar copiá-las, tentar melhorá-las e tentar minorar os seus efeitos no caso dos nossos adversários… E podemos apontar muitas coisas boas à religião Muçulmana. E desenganem-se aqueles que acham que eu vou cair no erro fácil de falar nas 40 virgens ou nem na poligamia… Há muitas coisas boas a apontar…

Dêem-me só 10 minutos…

Bem, parece que tirando a poligamia e a recompensa de 40 virgens aos mártires há pouco mais a apontar como coisas boas da religião Muçulmana… Infelizmente, acho que se o Cristianismo começasse a incentivar mais o terrorismo e a poligamia seria ainda mais contraproducente, visto que por um lado havia o risco de se perderem muitos fieis (aqueles mais conservadores que não querem ter mais que uma mulher e as próprias mulheres…) e por outro lado o público-alvo de uma potencial introdução destas medidas já tem religião, o Islamismo, e não iriam querer trocá-lo por uma espécie de Islamismo série B, constituído por pessoas que ainda têm muito que aprender no que concerne à poligamia e ao terrorismo.

Ou seja, não adiantei muito acerca de como podemos ir buscar bons exemplos ao Islamismo, mas deu para o ficar a conhecer melhor e perceber que jamais o Cristianismo o pode imitar. A única maneira de o Cristianismo recuperar a sua vantagem é ser o Cristianismo e é desta maneira que passamos ao ponto seguinte: o marketing.

Marketing

Num estudo sobre a percepção das pessoas acerca da Igreja ficou provado que há um conjunto de ideias que as pessoas associam imediatamente à Igreja: sotaque beirão, pedofilia, o Padre Borga, beatas e caixa de esmolas. Quem é que uma Igreja assim vai atrair? Perante este panorama até a Cientologia vai ultrapassar o Cristianismo… Eles têm o Tom Cruise! OK! Não foi o melhor exemplo, acho que a estocada final no Cristianismo seria ter o Tom Cruise…

O que eu quero dizer é que o Cristianismo é um bom produto, é preciso é saber vendê-lo. Quem é que não quer ir para o Paraíso? Toda a gente! Só que, não sei porquê, dar credibilidade a padres pedófilos não me parece o caminho certo…

O que é que as grandes marcas fazem para ganhar um novo fôlego? Criam uma nova imagem! Como que a dizer “começámos um novo ciclo, esqueçam os nossos pecados antigos, Mundo moderno aqui vamos nós!”. É isto que o Cristianismo precisa há mais de 500 anos: uma nova imagem.

Para começar, o Cristianismo tem um grande trunfo: Jesus. Pois é, apesar de andar desaparecido, Jesus continua a ser a melhor imagem de marca possível. Não há nada que venda mais do que Jesus e a prova disso é a maneira abusiva com que a Sua imagem é usada. Jesus é bom, Jesus é o Salvador, Jesus é o filho de Deus, Jesus é sexy! Isto para não falar do facto de que a época mais rentável no comércio são os anos do nosso querido Profeta. Mesmo associada a um culto pagão como o Natal e de estar a perder protagonismo para um individuo gordo de barbas, a imagem de Jesus vende como o caraças!

Meus amigos, este Senhor faria milagres na indústria dos desodorizantes e na indústria das telecomunicações. Já imaginaram? Vocês deixavam de comprar um produto que estivesse associado a Jesus? Claro que não. Se Jesus usa este telemóvel eu vou comprar este telemóvel, se Jesus bebe este refrigerante eu vou beber este refrigerante, se Jesus consome este fiambre eu vou consumir deste fiambre (Calma! Jesus não era judeu?)… Em termos publicitários nada bate o Messias!

E o grande trunfo do Cristianismo é que têm a exclusividade de Cristo, são os donos da marca registada! Só que não o sabem aproveitar… E acreditem que a Coca Cola daria uns bons milhões para poder contar com este menino (já viram? O Pai Natal e Jesus na mesma marca… Só ficava a faltar o Cristiano Ronaldo…).

O mal do Cristianismo é que tem o maior fenómeno publicitário de todos os tempos… e o que é que faz? Pendura-o numa cruz… E espalha esta imagem até à exaustão. OK! Admito que no início até poderia funcionar mas agora não atrai ninguém… É preciso dar uma nova imagem a Jesus.

Começaria por contratar um estilista para mudar radicalmente o aspecto de Jesus. Mantinha a barba e o cabelo comprido (alguém o reconheceria se ele cortasse o cabelo e fizesse a barba?) mas dava-lhe uma imagem mais airosa, um look ligeiramente a. C. mas com o seu quê de século XXI. Talvez uns músculos mais definidos. E, sobretudo, um grande sorriso como que a dizer: “Pessoal, aqui estou eu. Saí da cruz e estou melhor do que nunca”. Mas o fundamental seria um slogan. Do género: “Cristianismo: Connecting People”, “Cristianismo: Just do it”, “Cristianismo: I’m loving it”, “Cristianismo: Mais perto do que é importante”, “Cristianismo: Porque eu o mereço”, “Cristianismo: Eu é que não sou parvo!” ou até mesmo “Cristianismo: derrete-se na boca e não na mão”. Perceberam a ideia?

O bom uso dos meios de comunicação social é também um aspecto que o Cristianismo devia mudar. Já repararam que quando um representante da Igreja aparece na televisão ou é para falar do aborto ou do casamento de homossexuais ou da masturbação ou do casamento entre padres. Como é que as pessoas vão ter respeito por uma Igreja cujos representantes só pensam em sexo? Uma igreja de depravados… Condenar guerras porque a Bíblia diz “Não matarás” não, mas impedir o casamento dos desgraçados dos homossexuais, que não fazem mal a ninguém e até se vestem bem, “aqui vamos nós que é pecado”… Não é repugnante a imagem de um tipo anafado, com uns óculuzinhos ridículos na ponta do nariz, uma voz esganiçada e um sotaque beirão a condenar tudo o que há de bom nesta vida? Pois é esta a imagem da Igreja nos meios de comunicação social… Há duas coisas que têm que fazer. Primeiro, deixem de ser corta-mocas! Segundo, vendam uma melhor imagem, acabem com os homenzinhos anafados com voz de velha, produzam melhor a imagem dos vossos representantes (troquem as batinas e os colarinhos brancos por fatos de treinos Adidas, por exemplo), façam videoclips, produzam filmes (se possível que não sejam realizados por um lunático… Ouvi alguém dizer Mel Gibson?), produzam merchandising de qualidade (e uma irmã Lúcia de barro ou uma Nossa Senhora de Fátima que brilha no escuro não são exemplos de merchandising de qualidade…), façam novas orações (tenho a certeza que se um jovem quiser perceber o Pai Nosso hoje em dia tem que ir, no mínimo, 20 vezes ao dicionário… E não só mudar as orações como, eventualmente, adaptá-las à maneira como os jovens falam hoje em dia, seria algo do género: “Pai Nosso, tipo, que estais no Céu…” ou “Avé Maria, com bué de Graça…”), etc.

Por hoje é tudo. Acho que lancei umas boas ideias para mudar o Cristianismo, mantendo a sua essência. Espero que tenham em conta aquilo que eu arrisquei a escrever este post. Arrisquei a vida… Quer a terrena (não consigo parar de imaginar uma horda de camponeses enfurecidos empunhando tochas, foices e ancinhos atrás de mim), quer a eterna (é que, das duas uma, ou aceitam as minhas ideias ou estou condenado a arder no Inferno, não me parece que haja meio termo…). Deus vos abençoe!

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