segunda-feira, 14 de abril de 2008

É urgente fazer alguma coisa! Espalhem a mensagem!


Recebi na minha caixa de correio este panfleto. Vinha assinado por um tal de Professor Severiano Alambique que, pelos vistos, é uma espécie de guru da auto-ajuda. Pretende ensinar-nos a lidar com relações. Devo dizer que aterrorizado é um eufemismo para descrever o estado de espírito com que fiquei depois de ler isto… Sinto-me no dever de divulgar esta mensagem ao máximo de pessoas possível e peço-vos que a enviem a todos os contactos da vossa mailing list. Isto é muito sério e temos que lutar contra este tipo de práticas. Não sei o que vai ser do Mundo se toda a gente, de repente, começar a tentar atingir a supremacia… Sei que tenho feito uns posts ridículos e temo que isso possa afectar a credibilidade da mensagem que quero passar. Só me resta pedir, por tudo o que há de mais sagrado, que divulguem esta mensagem e que acreditem em mim: ISTO É VERÍDICO!

A Supremacia

O meu nome é Severiano Alambique e sou um especialista em relações. Possuo o conhecimento científico e a autoridade de quem já passou por duas. Uma delas foi com uma colega de escola, a Antonieta Azevedo. Uma pessoa por quem me apaixonei perdidamente e que, sem mais nem menos, desapareceu sem deixar rasto. Paguei a um detective privado que me disse que ela agora se chamava Ingrid Gustaffson e vivia na Gronelândia. Fui lá visitá-la mas os Serviços Secretos mudaram-na de casa outra vez. Acho que está num Programa de Protecção de Vítimas. Se calhar foi por tê-la sequestrado na cave da minha casa sem comer e sem beber durante 3 meses … Ainda hoje constitui o meu recorde de tempo em termos de relações: exactamente 3 meses. A outra era uma marciana verde com 3 olhos, 5 pares de seios e 10 pernas, gostava muito dela mas também desapareceu subitamente assim que o psiquiatra me obrigou a tomar antipsicóticos. Não percebo o que aconteceu, parecia mesmo que ela gostava de mim e tínhamos combinado nesse dia invadir uma maternidade e raptar cinco bebés para entregar ao Xlóptzung, o seu Venerável Líder, que, se bem o conheço, ficou muito zangado. Muito irascível, esse tal de Xlóptzung…

Como podem ver por estas minhas credenciais, de relações percebo eu. Nesse sentido, posso revelar-vos a existência de um aspecto fundamental para se sentirem bem numa relação. Não é o amor, não é a amizade, não é a cumplicidade, não é a empatia sexual… Não se acreditem em nada dessas tretas que os meios de comunicação social nos querem vender. O segredo de uma boa relação amorosa é a supremacia. E o que é a supremacia? Perguntam vocês meus humildes seguidores.

Passo a responder-vos e saliento um aspecto: estou a dar-vos este conselho de graça. É para verem o quanto gosto de vocês. Tenho a certeza que não encontram um melhor preço para o segredo para serem bem sucedidos em todos os aspectos da vossa vida. Uma autêntica pechincha!

Estão preparados? A supremacia é o poder sobre o outro. Uma relação só é boa quando podemos fazer da outra pessoa tudo o que quisermos. Quando ele é apenas uma marioneta sob o nosso domínio. Não perceberam? Faço então uma analogia. Vocês não querem ser o Gandhi de uma relação. Vocês não querem ser aquele tipo bonzinho, que não faz mal a ninguém, que dá a outra face, que respeita o outro desinteressadamente e que, no fim, é assassinado, culminar de uma vida desprovida de sentido e de prazer sexual e gastronómico. Vocês querem ser um Mussolini, querem ser dominadores, donos da situação, alvos de obediência cega e mais temidos do que o papão. É certo que o Mussolini foi cortado aos bocadinhos e espalhado por toda a Itália (já sabia que me iam atirar com este argumento) mas isto deve ser como um exemplo para vocês: nem o Mussolini conseguiu ser um Mussolini, ou seja vocês têm que ser mais Mussolinis que o próprio Mussolini, o que não é fácil, já que o próprio Mussolini falhou nessa missão.

Passo então a dar uma série de conselhos práticos para aplicarem um pouco deste conceito relacional às vossas miseráveis vidas. Considerem isto como um curso de Supremacia para iniciados. Se quiserem desenvolver mais este modo de vida podem sempre inscrever-se no Curso Básico de Supremacia, que não é barato e que não vos deixa, nem de perto nem de longe, aptos para aplicar razoavelmente todas as implicações desta maneira de estar à vossa vida. Só depois de tirarem o Curso Avançado de Supremacia é que podem almejar um domínio mediano de tudo o que envolve isto de viver a vida de acordo com esta nobre arte de dominar o outro. Se estiverem interessados manifestem as vossas intenções para o número xxxxxxxxx (rasurado pelo autor deste blog por motivos óbvios), se me provarem que estão aptos para dar tamanho passo pode ser que tenham a sorte de serem os meus próximos alunos. Passo então aos conselhos, que surgem como respostas a situações-problema que vos podem ser familiares:

“Estou numa relação em que gosto mais dele(a) do que ele(a) de mim”

Se isto se passa contigo a única coisa que merecias de mim era uma cuspidela na cara e um pontapé no escroto. Não mereces nem um centésimo de segundo do meu tempo. No entanto eu hoje estou bem disposto e vou dizer-te o que deves fazer neste caso: fugir! Sei que vai haver aí umas bestas que vão dizer que o melhor a fazer nestas situações é tentar conquistar a outra pessoa: oferecer flores, colocar um avião a circular pela cidade com uma faixa a dizer “Amo-te fulano de tal!”, comprar jóias, levar o pequeno-almoço à cama, cumprir com um afinco acima da média as obrigações domésticas, procurar maneiras de proporcionar um maior prazer sexual à outra pessoa… Sabem o que é isto, meus camelos? É outra pessoa estar a exercer supremacia sobre vocês! É na posição dessa pessoa que vocês querem estar! Não na posição de uma marioneta! Será que estou a falar para as paredes? Se seguirem os próximos conselhos há sempre uma hipótese de conseguirem inverter a vossa situação e ganharem o poder para vocês próprios. Mas lembrem-se de uma coisa: nunca se deixem supremacizar!

“Estou numa relação em que ele(a) gosta mais de mim do que eu dele(a)”

Estão no bom caminho. É isto que vocês querem. Ter poder total sobre a outra pessoa. No entanto, isto não é tudo. Não se podem acomodar e têm que estar atentos a dois aspectos: têm que saber se vale a pena exercer supremacia sobre esta pessoa e têm que saber como exercer a supremacia.

Em primeiro lugar, vale a pena exercer supremacia sobre esta pessoa? O que é que esta pessoa tem para me dar? Valerá a pena uma submissão completa e total sem qualquer tipo de bónus? Muita atenção a estas questões quando vão entrar numa relação. Temos que ser parcimoniosos com as pessoas sobre quem vamos exercer a supremacia. Um dos critérios deve ser avaliar o que é que essa pessoa tem para nos dar: dinheiro, prazer sexual, prazer culinário, um Ferrari Enzo, um camarote no Estádio do Dragão… A submissão por si só não vale a pena, são as suas compensações que a tornam tão atractiva. Por exemplo, o que é que me interessa a mim ter alguém que me tem uma devoção completa se tenho que trabalhar para a sustentar? Uma das vantagens da supremacia é que a outra pessoa vai fazer tanto por nós que vamos poder passar o resto da nossa vida a fazer aquilo que gostamos como caça grossa e corridas de trenó.

Em segundo lugar, relativamente à questão de como exercer a supremacia, devo dizer que é algo bem mais complexo: uma análise do extracto bancário e um primeiro olhar permite-nos responder à questão de valer a pena ou não exercer a supremacia. Agora a segunda exige um know how que vocês dificilmente vão atingir. Não pensem que a supremacia é algo que nasce da noite para o dia, exige muito trabalho e algumas privações que vocês não imaginariam que uma pessoa como eu se submeteria. Têm que ser como uma aranha e esperar pelo momento certo para lançar a teia. Têm que deixar a outra pessoa pensar que está tudo sob controlo, que vocês até são pessoas queridas… Muitas vezes devem até fazer com que a presa pense que é o predador. É aí que vocês, com a vossa teia montada, vão apanhar a presa para ela não mais conseguir fugir do vosso domínio.

Olhem para a supremacia como uma bola de neve que começa por ser pequenina mas que vai crescendo até atingir proporções que nem vocês podem imaginar. Comecem por criar alicerces fortes para a pirâmide de Gizé que vai ser o vosso domínio sobre a outra pessoa. Sei que já é a quarta metáfora que utilizo para explicar como é que se deve exercer supremacia sobre alguém mas acreditem que tudo isto é importante e tudo vai fazer sentido quando estiverem na situação real. Não se preocupem se tiverem que ir de vez em quando à montanha porque vai chegar a um ponto em que Maomé pode ficar sentado no sofá o dia todo porque a montanha não só virá a Maomé como irá satisfazer todas as suas necessidades, desde a sua higiene pessoal, passando pelo sexo, até à sua necessidade de ter uma equipa de pigmeus sempre disponível para encenar o “Jesus Christ Superstar” sempre que quiser (mais uma metáfora). Trocando por miúdos, aniquilem, de uma forma gradual, a auto-estima da outra pessoa: esta é o grande obstáculo à vossa supremacia.

“Sou mau na cama”

Esse sentimento está relacionado com um mito criado pela nossa sociedade hipócrita: o mito de que há pessoas que são boas na cama. Isso não existe. O que existe são pessoas que pensam que são boas ou más na cama e pessoas avaliam outras como boas ou más na cama. Porque é que eu estou a falar nisto? Porque isto pode ser uma grande ajuda para apanhar alguém na teia da supremacia.

O primeiro passo é reconhecer que, assim como toda a gente, somos maus na cama. Porque é que havíamos de ser bons ou maus a satisfazer uma necessidade fisiológica? Que eu saiba, urinar e defecar também são necessidades fisiológicas e nunca ouvi ninguém dizer que é o máximo a defecar ou que é uma autêntica “máquina de urinar ao nosso serviço”. Posto isto, importa vocês usarem esta evidência a vosso favor. Basta fazer com que a outra pessoa se sinta como um ratinho à beira do colosso sexual que vocês são.

Há um mecanismo muito fácil que vocês podem utilizar e que é 100% eficaz: ajam contra a vontade da outra pessoa. Mostrem um apetite sexual insaciável em todas as situações e em todos os momentos menos quando a outra pessoa tem vontade. Habituem-na de tal maneira a esta rotina que ela vai passar a ter tanto apetite como vocês. Aí vão ter que começar a fingir mais vezes que têm dores de cabeça do que as que vão fazer sexo. Até que, progressivamente, deixam de o fazer. Nem imaginam os efeitos nefastos que isto pode ter sobre a auto-estima da outra pessoa! Primeiro vai perguntar se o problema é do seu corpo, depois vai perguntar se já não gostamos dela e, por último, vai perguntar o que é que ela pode fazer por isso. A teia está montada, é só atacar.

Outra maneira de matar a auto-estima da outra pessoa no campo sexual é sermos areia demais para a camioneta dela. Comprem brinquedos sexuais do mais escabroso que possam imaginar (ou transformem objectos de uso diário em brinquedos sexuais como um piaçaba, uma batedeira eléctrica ou uma bazuca), sugiram posições anatomicamente impossíveis (se forem homens e estiverem numa fase avançada do processo de supremacização proponham que ela vos faça sexo oral enquanto fazem sexo anal, isto vai dar-lhe cabo da cabeça…), proponham fantasias impraticáveis (aquela do camelo, do beduíno e do tigre albino talvez seja boa ideia)… Façam-na sentir que é impossível satisfazer-vos. A impotência e a incapacidade que a vossa presazinha vai sentir vai elevar a sua ansiedade a níveis só vistos em condenados à morte na sua última refeição, vai destruir a sua auto-estima e, consequentemente, vai levar a uma submissão total e absoluta.

“Temos problemas de comunicação”

Ai a comunicação… Há poucas coisas mais importantes do que a comunicação numa relação. É essencial para atingirem a supremacia. É muito fácil de utilizar: basicamente, tratem a outra pessoa mal. Insultem-na, batam-lhe, usem-na como cinzeiro, deixem-na passar meses sem comer, obriguem-na a ver os programas da manhã dos canais generalistas, obriguem-na a ouvir André Sardet constantemente… Façam-na sentir que a vida é essencialmente má. Agora, e mais importante que tudo, dêem-lhe pequenos rebuçados, ou seja, tratem-na bem de vez em quando: dêem-lhe um presente (umas meias novas, por exemplo), façam-lhe um elogio (“hoje portaste-te de um modo bastante razoável” deve servir) ou façam-lhe uma festinha na cabeça. Estes simples gestos vão parecer-lhe um banquete depois de 6 meses de jejum! Assim, vão tornar-se a pessoa mais importante da sua miserável vida e ela vai fazer tudo por vocês, permitindo-vos atingir, finalmente, o domínio completo! Duvidam? Eu não estou a falar de cor: estas questões já foram muito estudadas no domínio científico e os cientistas até lhe deram um nome: Síndrome de Estocolmo. É algo que resulta muito bem em raptos/relações.

Não vou adiantar mais sobre a supremacia. Se se quiserem tornar mestres de relações humanas inscrevam-se nos nossos cursos. Tenho a certeza que com isto vos abri o apetite e, se não o fiz, aqui vai o argumento final: “…as técnicas da Supremacia podem ser utilizadas para vários fins, sendo que as relações humanas representam apenas uma pequena fracção. O fim, por excelência, das técnicas da Supremacia é o domínio do Mundo” (in “Artes da Supremacia: ou as dominamos ou somos dominados”). Perceberam bem? O domínio do Mundo… Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

Professor Severiano Alambique

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