sexta-feira, 18 de abril de 2008

Sou um burro!


Cheguei à conclusão que sou uma pessoa rude, inculta e ignorante. Não posso negar que fiquei extremamente feliz por ter chegado a esta conclusão, é que, assim, pode ser que tenha mais sucesso com as mulheres… No entanto, este insight sobre a minha personalidade não surgiu do nada, não é assim tão fácil uma pessoa mudar a percepção que tem de si própria e, posso dizer-vos, no meu caso foi particularmente difícil porque, desde pequeno, a minha mãe tentou-me convencer que eu era uma pessoa extremamente inteligente, culta e com imenso potencial humano… Escusado será dizer que esta violência psicológica não passou incólume e já vou no meu 10º ano de psicoterapia para superar estes traumas. E hoje, finalmente, dei um passo enorme no sentido da sua superação! Apetece-me ir para a janela gritar, para toda a gente ouvir: “Sou um burro!” e, seguidamente, zurrar durante 20 horas seguidas até ter os GOE’s a entrarem-me pela porta dentro!

Ao contrário daquilo que a minha mãe me tentava convencer eu sou um grande, grande jumento… Ainda hoje acordo a meio da noite com as suas cruéis palavras “Ainda vais chegar longe, meu filho…”.

Enfim, um passado que me tenho esforçado para enterrar… Sendo que hoje, sinto que posso finalmente fazer-lhe o funeral…

Sempre achei que a arte era a sublimação da actividade humana, era uma materialização do culminar daquilo que o Homem pode fazer e que o distingue dos outros animais, correspondendo a um ideal estético (que pode variar conforme a pessoa…) mas sendo, unanimemente, uma manifestação de talento e trabalho…No entanto, um artista alemão chamado Gregor Schneider veio mostrar-me que eu não percebo nada de arte convencendo-me, finalmente, que, ao contrário da pessoa culta e inteligente que me fizeram crer que eu era, sou ainda mais burro que o Luís Filipe Menezes (também não exageremos). E prontos (já que sei que não sou um iluminado, vou começar a usar expressões do povo… acho que tenho que conviver com mais cabeleireiras…)! Ao “The ArtNewspaper”, Gregor Schneider, que não só é extremamente inteligente mas também percebe imenso de papel de parede e de alcatifa, disse o seguinte: “Quero mostrar uma pessoa a morrer naturalmente ou alguém que acabou de morrer. O meu objectivo é mostrar a beleza da morte”. Este artista de alto gabarito anda a tentar convencer alguém em estado terminal para ser a obra de arte dele.

Eu, como pessoa rude que sou, gostava de perguntar o seguinte ao Gregor: “Gregorzinho, se a morte é tão bonita porque é que não mandas um balázio na cabeça? Ou porque é que não tentas parar o Alfa Pendular com as mãos? Grande obra de arte, não? Não gostas de vermelho?”. E é esta a minha reacção que mostra o quão tacanho eu sou, porque se eu fosse uma pessoa inteligente, culta e com um grande talento na área da reciclagem de burriés, do calibre do Gregor, ia dizer uma treta do género “Sim, senhor! Que ideia maravilhosa… Este uso da realidade, crua como ela é, para nos confrontar com a nossa fragilidade e, no fundo, connosco, permite não só encontrarmo-nos como reflectir sobre a espiritualidade daquele momento que é tão inevitável, quanto simbólico”. E ia logo a correr apanhar um cancrozito para me oferecer ao Gregor.

Espantoso! Visto que estas pessoas cultas estão à frente no tempo e são elas que pautam aquilo que vai ser a realidade daqui para a frente imagino um cenário futurista em que as pessoas, em vez de irem ao Louvre, vão à Unidade de Cuidados Intensivos do Santa Maria ou à Unidade de Queimados ou ao IPO…

Agora vou dirigir-me única e exclusivamente ao Gregor Schneider. Por isso, não precisam de continuar a ler. Isto é entre mim e ele.

Eu disse que não precisavam de ler, mas vocês é que sabem…

Grande Gregor, tenho uma dúvida e uma sugestão para ti. Primeiro, a dúvida: como sabes, eu não sou muito inteligente, mas ouvi dizer que, a não ser que se mate alguém, a morte não é assim uma coisa muito previsível… já aconteceu médicos darem um dia de vida a uma pessoa e ela viver mais uns meses… o que é que vais fazer em relação a isto? Se tiveres tomates podes sempre matar o teu voluntário, com uma metralhadora, que dá bom efeito e garantes que ficas não só para a História da Arte como para a História do Crime (eu avisei-vos para não continuarem a ler…). Se eu for à tua exposição e o fulano não morrer tu devolves-me o dinheiro? É que se não garantes que o tipo morre (com a metralhadora ou com um machado, por exemplo) arriscas-te a ter umas dezenas de abutres (inteligentes e cultos, é certo) no teu atelier à espera que ele morra… Podes sempre matá-lo à fome mas também demora um bocadinho e, mesmo uma pessoa em estado terminal é capaz de se passar um bocado e ir buscar energias para te destruir o estaminé, se não lhe deres de comer… É tipo os rottweilers… Eu já tive um individuo em estado terminal em casa e era assim… Passava-se quando eu não lhe dava o Cerelac… Mas passava-se do tipo de levar tudo à frente e de querer partir as grades da jaula com a cabeça… São um bocado passados, estes doentes terminais…

Agora a sugestão. Sei que sou apenas uma pessoa rude e simplória mas tenho uma sugestão para ti e era giro se a aceitasses… Porque é que, quando o teu voluntário der o último suspiro tu não entras pelo palco dentro vestido de campino, com uma buzina daquelas que se usam nos jogo de futebol, num monociclo, com música de circo, ao mesmo tempo que crias um efeito especial que faz do falecido uma espécie de marioneta que dança a Macarena? Eu ia gostar… Pensa nisso…

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